Por Beatriz Herkenhoff*

Ilustração: Pixabay

O que ouvimos sobre o nosso corpo desde a mais tenra idade? Que palavras de amor ou de rejeição condicionaram a existência do nosso corpo? Sou charmosa ou desajeitada? Feia ou bela?

Que gestos e olhares geraram autoestima e autoimagem positivas ou negativas? Que expectativas foram depositadas em mim sobre o meu corpo?

Que filmes e vídeo games influenciaram meu universo com o ideário de corpos fortes que apresentam performances de competição e violência?

As palavras têm poder e às vezes nos levam a sentimentos negativos e de não aceitação daquilo que somos e podemos. Não importa se temos um corpo magro, médio, gordo, alto ou baixo, perfeito ou com limitações.

Somos belos em nossa expressão corporal. Somos poderosos em tudo aquilo que nosso corpo é. Sem ele não somos nada!

Infelizmente, vivemos a ditatura do belo. O culto a uma única beleza, a um único padrão de sucesso. O que gera competição. 

A sociedade idealiza o corpo perfeito e muitos tornam-se escravos desse modelo. Ficam obcecados com a autoimagem. Não conseguem perceber que é uma falácia construída pela nossa sociedade. O que pode gerar comprometimentos físicos, psíquicos e emocionais.

Sou defensora da atividade física diária, mas, rejeito todo tipo de condicionamentos que geram sentimento de rejeição e de medo em relação ao nosso próprio corpo. 

Em regiões praianas como Vitória, ES, existem praias em que as pessoas exibem seus corpos esculturais. Como se fosse exigido um passaporte em que só entra quem malha.

E aqueles que não correspondem ao padrão exigido? Sentem-se inferiorizados, desestimulados e complexados. Nem frequentam tais praias. 

Os meios de comunicação, propagandas, filmes e as redes sociais contribuem para imagens que excluem a maioria do padrão de beleza construído. Muitos se fecham para encontrar um grande amor porque têm medo de se aproximar de uma garota ou garoto e não corresponder às expectativas.

Aquilo que deveria ser fonte de saúde e de cuidado transforma-se em adoecimento e isolamento.

Cada corpo é belo na materialização do seu jeito de ser. Todos os corpos são lindos. Todos têm potência de vida, de movimento, de amor e de superação. 

Temos que romper com modelos corporais idealizados que adoecem. Cuidar do corpo pelo amor próprio e para ter uma vida saudável. 

Fazer exercício físico não é nada fácil! Se pudermos, damos mil desculpas para procrastinar o início de uma atividade. Muitas vezes pagamos, comparecemos nas primeiras semanas e sumimos. Ou vamos experimentando diferentes modalidades esportivas, sem nunca tomar uma decisão.

Em contrapartida, gastamos nosso tempo investindo na profissão; no cuidado com os filhos pequenos; nas tarefas domésticas; nas viagens; na militância política e social; no crescimento psíquico, espiritual e cultural; na convivência com os amigos, com amores e familiares. Ficamos entretidos com a internet e com a TV e deixamos para o último lugar o tempo para o cuidado com o corpo. 

Direcionamos nossa energia para tudo que nos dá prazer. E quando alguém nos pergunta: e o cuidado com o corpo? Falamos que não sobra tempo para caminhar porque estamos sobrecarregados com muitas tarefas e afazeres.

Só que vamos envelhecendo, e quem vai carregar tudo que construímos (profissional, psíquica e afetivamente falando) é o nosso corpo. Se ele falhar, tudo o mais desmorona. 

De que adianta acumular dinheiro, sucesso, realização profissional, se não preparamos o nosso corpo para desfrutar essas conquistas com saúde? 

Essa trajetória se agrava porque descarregamos no corpo nossas tensões, preocupações, mágoas, dores e tristezas. Se não deixarmos sair tudo aquilo que guardamos, a doença chega sem dar aviso prévio. 

Por isso, presenteei-me com um tempo significativo dedicado ao exercício físico. Quero chegar aos 90 anos com qualidade de vida, e quem vai me garantir isso é o meu corpo. Se desenvolvo mecanismos de equilíbrio, de alongamento, de fortalecimento dos músculos, de cuidados com a estrutura óssea, todo o resto virá por acréscimo. 

Os meios de comunicação e os profissionais da saúde alertam cada vez mais para a importância do cuidado corporal. Por isso, o que escrevo aqui é nada diante do que tem sido divulgado de informações e estímulos para que comecemos a cuidar do corpo hoje, aqui e agora. 

O comprometimento não é externo, mas, interno. É preciso deixar que o desejo nasça e faça alguma coisa pelo nosso corpo, nosso maior tesouro.

A partir de minha experiência, percebo que existe uma luta interior entre a preguiça, o cansaço emocional e a decisão de não ficar parado. 

E se o descuido vence e ignora o corpo que fala e pede mais cuidados? O risco, é a preguiça, começar a dominar também outras áreas de nossa vida. 

Ao longo de minha vida sempre frequentei academia, mas, passei por altos e baixos. Momentos de disciplina, garra e determinação e outros de interrupção. Mas, nunca fui contaminada pela ditadura do corpo ideal.

Há 11 anos comecei a fazer Pilates com ganhos espetaculares para o meu corpo: flexibilidade, equilíbrio e fortalecimento dos músculos. Minha fisioterapeuta Micaela Dias é estudiosa, competente, criativa e alegre. Sempre nos envolve e desperta o desejo para cuidar do corpo. Inova permanentemente as séries, gerando uma motivação para não desistir.

Mas recentemente, minhas médicas (ginecologista, homeopata e endocrinologista) começaram a indicar musculação. 

Afirmando que com o avanço da idade, precisamos de músculos fortes. Um corpo são, uma mente sã. 

Foi quando decidi fazer academia todos os dias, mantendo o Pilates duas vezes por semana.

Percebo que minha qualidade de vida melhorou significativamente. Além de maior disposição física, psíquica e emocional, o exercício físico gera o hormônio da alegria, reduzindo o estresse, a ansiedade e o pessimismo. 

Na academia encontro homens e mulheres da minha idade que também são disciplinados e colocam o cuidado do corpo como prioridade. Pessoas acima do peso que buscam um equilíbrio para garantir a qualidade de vida. Muitos jovens que me encantam com seus corpos malhados e belos, sem exagerar na dose. 

Mas, também encontro jovens que extrapolam no peso, correndo o risco de machucar o seu corpo, sofrer lesões e ter que interromper algo tão precioso.

Como é sua experiência nesta área? Que motivações você tem para cuidar do seu corpo? Que dificuldades? Que estratégias para lidar com a paralisia? Que condicionamentos e expectativas que geraram complexos corporais?

Como você dialoga com os corpos que passam por você? Tem uma postura de valorização de cada corpo ou cultiva um olhar crítico? Você prende o conceito do corpo ideal numa gaiola que entorpece e gera desamor ou acolhe cada um em sua estética?

Fica o convite e o desafio: vamos mudar nossa postura? Vamos controlar menos o corpo do outro? Vamos aceitar e amar o nosso corpo?

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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