Projeto de RAP criado no Cense 2 de Londrina avança pelo Estado

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Oficina do RAP “Permita que eu fale”, inspirada em projeto londrinense, envolve adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas de 16 cidades paranaenses

Cecília França

Quando fizemos uma matéria sobre o sistema socioeducativo de Londrina, no mês de setembro, os profissionais entrevistados ressaltaram como uma das conquistas recentes a introdução no RAP no dia-a-dia dos adolescentes em cumprimento de medida no Centro de Socioeducação 2 (Cense 2). Não foi uma tarefa fácil, conforme os relatos, porém, o êxito do projeto fez com que ele se tornasse modelo para o sistema estadual.

Na última quinta-feira teve início o projeto “Oficina do RAP: Permita que eu fale”, promovido pelo Departamento de Atendimento Socioeducativo (Dease) da Secretaria da Justiça, Família e Trabalho (Sejuf) com a participação de 16 Censes do Estado. Serão três oficinas para preparar os adolescentes para a seletiva regional, no dia 11 de dezembro, e a grande “batalha” final, no dia 18. Todas as etapas acontecem de forma virtual.

O rapper Leandro Palmerah e a professora de Língua Portuguesa do Cense 2, Angelita Martins Siqueira, estiveram entre os ministrantes da primeira oficina, de rima e composição, realizada no último dia 26. Os dois têm participação essencial na criação do “Se Liga RAPaz”, o projeto londrinense que inspirou o Estado. E tudo começou com a criação de uma biblioteca dentro da unidade, conforme relembra Angelita.

“Eu sempre trabalhei com eles a questão do RAP porque era o jeito que eu encontrava para conseguir a atenção dos adolescentes. O Leandro também abriu portas para nós. Então, o projeto do RAP nasceu, realmente, porque ele estava lá dentro”, afirma.

Cartaz da primeira oficina do projeto

Palmerah estava lá como voluntário. A proximidade dele com o Cense 2 foi uma iniciativa da assistente social Andressa Cândido. Prestes a se formar em biblioteconomia, o rapper ajudou a professora Angelita a organizar o espaço da Biblioteca Capitães de Areia e a realizar o sonho de ver os adolescentes lendo com liberdade.

“A biblioteca existia informalmente. Eu tinha um carrinho de mão e ia entregando para os meninos. Eu não me conformava deles não poderem ler. Aí, outros profissionais começaram a perceber que precisava crescer. Depois disso, com muito sacrifício construímos uma minúscula biblioteca, no dia 20 de dezembro do ano passado. Passávamos horas lá pintando, pendurando prateleiras. Na troca de diretor (da unidade) ela foi transferida para um espaço maior e nasceu o clubinho de leitura”, detalha a professora.

No clube começaram a ser trabalhados livros de interesse dos adolescentes, como Estação Carandiru. “Disso daí para o RAP foi um pulo”, diz Angelita. Contrariando as expectativas, a pandemia serviu para impulsionar os dois projetos, como forma de ocupar de forma produtiva o tempo dos adolescentes, privados do contato físico com as famílias e alguns profissionais.

Palmerah na biblioteca do Cense 2. Foto: arquivo pessoal

Superando estigmas

Andressa Cândido lembra que introduzir o RAP na unidade era um desejo antigo, mas o estilo era muito estigmatizado e associado à criminalidade. Porém, a partir do momento em que um adolescente contou a ela que tinha o desejo de conhecer o grupo Família IML, de Palmerah, ela se empenhou em trazer o rapper para a unidade.

Não foi imediato, mas ela envolveu outros atores do sistema na parceria – como a juíza da Vara da Juventude Cláudia Catafesta – e Palmerah passou a voluntariar no Cense 2. O projeto do RAP foi formalizado junto ao Dease e ganhou forma durante a pandemia.

“Hoje o que eu vejo é uma unidade que canta, que fala de si, de meninos politizados. O Clube da Leitura e o RAP se entrelaçaram”, comenta Andressa.

A assistente social Andressa Cândido em oficina de RAP com os adolescentes. Foto: Divulgação

Palmerah detalha: “Fiquei um bom tempo gravando os meninos. Montamos tipo um estúdio, eu fazia o papel de produtor para eles gravarem as músicas. Eu gravei também algumas músicas com eles. Com certeza eles ficaram mais animados”. Para ele, RAP e literatura estão integrados.

“A biblioteca é um espaço cultural, se encaixa com todas essas artes: o RAP, a leitura, as discussões, os debates. Tem muito moleque leitor lá. A gente chegava a discutir livros, eu acabei até aprendendo com eles”, afirma.

Identificação

O diretor do Cense 2, Amarildo de Paula Pereira, diz que o RAP se mostrou um valioso mecanismo de reflexão entre os adolescentes, de empoderamento pessoal, de valorização do outro e, por isso, de inserção no sistema de garantia de direitos.

“Os rappers, por serem, em sua maioria, pessoas que viveram realidades semelhantes às de nossos meninos, conseguem acessá-los e conduzi-los através da música e da poesia a um processo de conscientização ativa que auxilia no processo emancipatório característico das medidas socioeducativas”, declara.

Leandro Palmerah sabe bem a importância da educação e da cultura como formas de ressignificar a vida. “O jovem já cresce numa cultura diferente, então ele vai refletindo tudo aquilo que ele está vendo em volta. Quando chega nos seus 17, 18 anos fica mais difícil de entrar na cabeça deles. Aí ele só vai refletir com seus 30 anos, já sofreu bastante. A parte da minha vida entre os 17 e os 25 eu não tinha ninguém para me direcionar, me dar um conselho, aí entrei numa fria e depois, quando fui acordar, já estava com uns 34. Então, o jovem tem que aprender a questão da leitura desde criança. Se a cultura não estiver na quebrada, não vai dar certo”, finaliza.

Serviço

Oficina do RAP “Permita que eu fale”

11 de dezembro: seletiva regional
18 de dezembro: final da “batalha” com as três melhores letras do Estado

Unidades participantes: Cense Londrina 2; Cense Pato Branco; Cense São José dos Pinhais; Cense Foz do Iguaçu; Cense Ponta Grossa; Cense Cascavel 1; Cense Fazenda Rio Grande; Cense Campo Mourão; Cense Laranjeiras do Sul; Cense Londrina 1; Cense Umuarama; Semi Umuarama; Cense Curitiba; Cense Joana Richa; Cense Paranavaí e Cense Maringá.

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