Passados dois meses, indígenas de São Jerônimo permanecem na sede da Funai

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Grupo cobra de órgãos oficiais solução para conflito com cacique e mantém esperança de retornar para sua terra

Cecília França

Faz mais de dois meses que Nielson Ferreira, 29, Marcelo Norato, 35, Rosângela Cândido, 35, Neusa Cândido, 42, e outros indígenas da reserva de São Jerônimo da Serra ocupam a sede da Funai (Fundação Nacional do Índio) em Londrina. Dormindo em colchões doados, espalhados pela casa, eles esperam uma solução para os conflitos internos que enfrentam na Terra Indígena.

“Esse confronto vem desde 2015. O Conselho Estadual Indígena retirou 25 famílias de lá, foi enfraquecendo a comunidade indígena. Ficou poucos indígenas lá dentro. E daí foi continuando a agressão desse cacique contra as mulheres, os homens, alguns adolescentes, principalmente queima de casas, um monte de barbaridades. Aí aconteceu com nossas famílias de novo e a gente veio para cá buscar nossos direitos”, afirma Nielson Ferreira.

A Funai, além de abrigar o grupo, tem trabalhado na mediação do conflito. No entanto, apenas as lideranças indígenas têm prerrogativa para dar uma solução. Na última segunda-feira, o grupo teve um encontro com o presidente do Conselho, Natalino Jagu Marcolino, que pediu um prazo para negociar uma saída.

“A nossa decisão é voltar pra lá (São Jerônimo). O Conselho quer um tempo para tomar uma decisão. Agora, como é final de ano, nós vamos dar esse tempo pra eles. Mas não vamos ficar aqui, vamos procurar um lugar pra gente poder ir”, detalha Ferreira.

Ele explica que o cacique João da Silva está no mandato há 12 anos e o classifica como “um ditador”. “Eu tive uma conversa com ele, frente a frente, disse que ele está fazendo a coisa toda errada contra seu próprio povo”. Ferreira diz que a situação já foi denunciada à polícia e ao Ministério Público Federal (MPF), de quem ele cobra respostas.

Neusa Cândido era moradora de uma das três casas incendiadas em São Jerônimo. Mesmo diante do cenário de violência, ela aguarda uma solução para poder retornar. “Quero voltar pra casa. Quer dizer, pra Reserva, pra casa não, que nós não temos mais casa. Não sobrou nada”, afirma.

Posições oficiais

O chefe da Funai, Marcos Cesar da Silva Cavalheiro, diz que as negociações para que o grupo voltasse para São Jerônimo começaram em setembro, sem sucesso. “A gente teme pela segurança deles, porque se houver uma situação forçada de entrar lá, tendo todos esses atritos, a gente fica preocupado. Tem crianças, não são apenas os adultos. Agora com essa situação da pandemia do jeito que está a gente mais apreensivo ainda”, diz.

Segundo ele, um dos casais concordou em se mudar para Inácio Martins (Terra Indígena Rio Areia), o que deve ocorrer nos próximos dias. Os demais também contarão com apoio logístico da Funai assim que houver definição do destino.

Questionado pela reportagem, o MPF/PR respondeu, por e-mail, que “neste momento, aguarda retorno da Funai de onde os indígenas poderão ser realocados, visto a impossibilidade de retornarem à reserva em São Jerônimo da Serra”.

O presidente do Conselho Indígena, Natalino Jagu, não respondeu ao nosso pedido de entrevista.

Não conseguimos contato com o cacique João da Silva.

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