‘E no meio disso tudo, achar a Fiama que eu sou’

Publicado por

Jornalista paranaense conta como a aceitação de seus cabelos crespos lhe deu forças para ensinar outras jovens pretas a enfrentar o racismo de todo dia

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Um sonho: ser repórter de televisão e tornar-se referência para meninas pretas que, como ela, estão aprendendo a ocupar seus espaços numa sociedade racista e machista. É o que busca a jornalista paranaense Fiama Heloisa Silva dos Santos, de 27 anos.

Nascida em Paranavaí, no Noroeste do Estado, Fiama é fruto de um relacionamento inter-racial: “Meu pai é preto e minha mãe é branca. Tenho três irmãos, dois por parte de pai, que não moravam conosco mas que eu via sempre, e um que cresceu comigo. A gente é muito amigo. Nossa diferença de idade é de um ano e quatro meses então fazíamos tudo juntos”.

A jornalista Fiama Heloísa. Fotos: Arquivo pessoal

“Não pergunta de família para mim porque sou canceriana apegada. Sou muito grata à família em que nasci”, brinca a jornalista, que sempre conviveu mais com a família branca da mãe e demorou para perceber sua negritude. “Tenho cabelo crespo e minha mãe nunca soube lidar muito bem com isso. Nunca quis que eu alisasse, mas a gente nunca soube como pentear. Eu entendia que ela não tinha referência, por ser branca de cabelos lisos, então essa foi uma descoberta que eu fiz sozinha”, confessa.

“Hoje eu sei lidar, mas eu demorei muito. Foi um processo um pouco sofrido, mas mesmo sem saber, minha mãe sempre apoiou meu lado preto, a minha identidade”, diz Fiama, que passou a infância e a adolescência com o cachos presos. “Eu tinha mania, quando pequena, de colocar prendedor para afinar meu nariz, que eu achava que era muito grosso. E minha mãe brigava comigo e dizia que as pessoas são diferentes e que eu deveria ser como eu sou. Ela estava incentivando a minha negritude sem sabermos.”

Toda vez que ela visita os pais, seu coração dispara e as lágrimas escorrem pelo rosto na hora de voltar para Londrina, onde vive desde que veio cursar jornalismo na UEL (Universidade Estadual de Londrina), aos 17 anos. “É como se nunca estivesse completa. Tenho minhas bases lá, mas criei minhas bases aqui. Hoje estou casada, tenho minha casa, meus cachorros, minha gata, meus amigos, minha profissão, eu adoro Londrina e tenho meu porto seguro aqui, mas eu fico divida entre esses dois universos.”

“A família é uma base muito importante, principalmente a figura da minha mãe, que sempre foi uma mulher muito à frente do seu tempo, mesmo tendo uma criação tradicional. Eu cresci com divisão de tarefas dentro de casa. Eu e minha mãe não fazíamos mais porque meu pai e meu irmão eram homens. Todo mundo mora na casa, todo mundo divide as tarefas”, ensina.

Também foi a mãe quem a ensinou a ser uma mulher independente. “Ela sempre fez questão de pontuar o quanto a independência me garantiria meu direito de fala. Essas referências, que trago comigo desde sempre e ao longo das experiências que eu tive depois, só se fortaleceram. Acho que minha mãe e minha madrinha já eram feministas mesmo sem saber e a gente ter noção do que isso significava.”

Mas nem tudo são flores na caminhada desta jornalista canceriana que cursa o quarto ano de Letras na UEM (Universidade Estadual de Maringá). Sua ida para um colégio particular, na quinta série do ensino fundamental, transformou seu pequeno mundo. “Até a quarta série estudei em colégio público mas minha mãe insistiu que deveríamos ir para um colégio particular para ter uma boa formação. Meu maior medo era de não conseguir acompanhar”, conta.

“Mas quando eu entrei, não foi esse problema que encontrei. O ensino, em si, tirei de letra. Meu problema foi conseguir me encaixar naquele espaço porque não pertencia a ele. Eu era a única menina preta da minha sala. Eu era a única menina que não tinha cabelo liso.”

“Eu não sabia lidar e passei a minha adolescência inteira com o cabelo preso até fazer relaxamento, que foi algo que fiz por um tempo. A minha estética não pertencia àquele lugar e as pessoas não sabiam lidar com isso. Eu era completamente diferente delas e começaram os ataques racistas”, lamenta.

Naquela época, Fiama não reconhecia o racismo: “Eu simplesmente achava que era feia e que as pessoas não gostavam de mim”. Então, ela se jogou nos estudos e não saía de casa. “Demorei muito para entrar nesse universo da paquera porque para os meninos era vergonhoso dizer que gostava da Fiama.”

Todo dia era um ataque diferente: alguém passava e puxava seu cabelo ou prendia lápis e canetas dentro dos cachos, sempre rindo dela e a chamando de “neguinha do cabelo ruim, neguinha fedorenta”. E a escola nunca se posicionava, por mais que a mãe reclamasse sempre que ela chegava em casa chorando.

“Um dia, na saída da escola, enquanto eu caminhava para casa com meu irmão, um grupo de meninas nos seguiu e passou o caminho todo nos xingando e ofendendo. Cheguei em casa chorando e minha mãe ficou horrorizada. Foi na escola mas nada aconteceu com as meninas.”

“Foi um período muito difícil e como os ataques não davam em nada, decidi me defender. Foi aí que passei da neguinha acuada para a neguinha raivosa. Comecei a reagir. Virava e metia um soco, não importava onde”, rememora.

“Comecei a ir para a direção por conta disso, mas comecei a colocar mais medo também. Conquistei meu espaço desse jeito: era xingada e xingava, apanhava e batia, artifícios que eu encontrei para lidar com a ilegalidade da escola. Minha mãe ligava, ia e eles não se importavam com a gente. A maioria dos meninos era de família rica”, completa a jornalista, que viveu esse tormento dos 11 anos até o término da adolescência.

Nunca tinha me entendido como mulher preta, por isso acho que esse assunto deve ser discutido desde cedo. Se quando pequena eu soubesse que eu era uma mulher preta e o que isso significa, eu teria sofrido muito menos e reagido muito mais cedo. E teria reagido pelo argumento: você é racista. E a pessoa se sentiria envergonhada porque ninguém quer ser racista”, aponta.

Esses episódios culminaram numa Fiama que sempre teve problemas de autoimagem, sempre se achou feia e queria mexer no cabelo de todo jeito.  “Eu não tinha identidade. Eu olho para as fotos e vejo que eu queria ser como as outras meninas. Eu tentava me encaixar nesse perfil e essa foi a maior lição porque não rolou.”

“Cheguei na universidade como uma Fiama completamente desacreditada de mim enquanto pessoa no mundo. Eu sempre me vali muito da minha inteligência, mas eu tinha muito problema com a minha autoestima, com a minha aparência e aí quando cheguei na UEL, eu encontrei semelhantes, tinha outras meninas pretas com cabelos crespos maravilhosos e foi um estalo: tem outra possibilidade. Por que eu nunca vi isso antes?”, conta.

Com a descoberta e aceitação de seu cabelo crespo veio a descoberta da identidade de uma mulher preta. “Foi uma fase de descoberta. A UEL foi incrível e sou eternamente grata. Eu não imagino como eu seria hoje se não tivesse passado por essa experiência. Foi a partir daí que eu fui buscar a questão da representatividade, do que é ser preto e preta na sociedade brasileira. Fui entender que eu era uma mulher feminista e não parou mais. Dali para a frente, só melhorou a aceitação, no sentido de se sentir bem, se sentir quem você é. Eu não tenho medo hoje. Posso acordar e sair que eu não tenho problema em garantir que sou uma mulher bonita sim, que tenho meu espaço e que se não quiserem me dar meu espaço eu vou pegá-lo de qualquer forma”, atesta.

Após concluir o curso de jornalismo na UEL, Fiama foi repórter da TV UEL por dois anos antes de tentar a sorte nas emissoras comerciais de Londrina. Sua primeira experiência foi cobrindo férias na RIC TV e depois como produtora do programa Destaque, na Rede Massa. “Eu não tenho padrinho. Tudo que eu consegui foi na caruda ou por indicação.”

“Eu abracei essa oportunidade porque eu gosto de televisão e não tinha vivência em TV comercial, então foi um trabalho essencial. Hoje eu olho o tanto que eu aprendi, eu tenho uma bagagem imensa”, declara a jornalista. Hoje Fiama faz freelas para o portal Tem Londrina, onde escreve e produz vídeos.

“De manhã vejo as notícias do dia e escrevo, à tarde me dedico ao curso de Letras e à noite passeio e brinco com os cachorros. Cuidar da casa, que é grande, dá trabalho. Meu companheiro é vegano e cozinha, então o ajudo na produção de alguns pratos que ele vende. Até queremos investir nisso. Eu cuido da página dele no Instagram e também sou sua auxiliar de cozinha”, lista.

Sou muito das pessoas. Na pandemia, só as chamadas de vídeo não dão conta. Sinto muita falta da convivência. Rolê para mim é ir para a roda de samba e ir para o forró. São coisas que eu adoro e que me energizam. Viajar para praia, por o pé na areia e tomar um banho de mar, acampar, visitar cachoeiras. Ler tem sido difícil, tenho lido muita coisa por obrigação, mas tenho procurado ler livros pensando na análise política do nosso país e livros sobre feminismo e a questão negra. São temas que gosto muito. Tenho acompanhado muitos canais pelo Youtube também.”

Só o fato de ter sido repórter na TV aberta por um tempo já é motivo de orgulho para a menina que deixou Paranavaí rumo a Londrina com o sonho de ser jornalista. “Me formar em jornalismo na UEL parecia um sonho muito distante mas eu consegui e é muito gratificante. Consequência disso era meu sonho de ser repórter de TV e mesmo com uma passagem rápida, já surtiu efeito. Ali estamos plantando sementinhas para que aquela menina preta que me vê na TV saiba que quando ela crescer, e se ela quiser, ela pode também e não precisa mudar sua essência para isso. Que ela é bonita e pode chegar lá”, afirma.

Queria impactar com essas ideias pela comunicação e pela educação, abrindo caminho para essas pessoas virem. Venham! Vocês também precisam ocupar esses espaços. Cadê os pretos jornalistas? São esses sonhos que a gente ainda quer impactar, olhar e falar: a gente chegou e a gente está aqui”, projeta.

Paralelamente ao trabalho como jornalista, Fiama criou este ano a página reVerso, no Instagram, onde dá dicas práticas de português. “Um amigo, que é concurseiro, sugeriu que eu investisse em revisão como um trabalho. Mas eu não queria simplesmente ganhar dinheiro. Eu acho que a educação tem que chegar nas pessoas, tem que ser pública, gratuita e de qualidade. Todo mundo tem que aprender a escrever bem. Então meu amigo sugeriu o Instagram como ferramenta. E eu conseguiria atingir um público de forma gratuita. Meu companheiro é artista visual e desenvolve as artes para a página. O nome surgiu da ideia de que se não te dão a oportunidade, você cria”, conta.

A ideia é publicar uma dica gramatical uma vez por semana e toda quarta-feira ler um poema no storie do Instagram. Para Fiama, a educação é a base da sociedade e seus indivíduos. “É muito gratificante ter um projeto que tenta levar isso de forma acessível. A gente precisa levar, inclusive, a língua portuguesa para que a gente saiba interpretar textos, para que a gente saiba o que estão falando para a gente e para desmistificar preconceitos, como o falar certo e o falar errado. A educação é base para uma sociedade mais igualitária, mais inclusiva, mais justa, que dê oportunidades reais para todos. É a ferramenta para que você consiga se colocar nos espaços, para que a gente consiga perceber que tipo de injustiça está sofrendo. É essencial”, defende.

“Pensando na nossa população negra, que ela tenha acesso à educação para que possa reverter a lógica de que se é negro e pobre e a mãe é faxineira e o pai pedreiro, ele vai continuar assim. Tem que mudar sim e é por meio da educação. Ele vai conseguir fazer a faculdade dele e vai conseguir um trabalho qualificado para que ganhe melhor”, opina a jornalista, que também considera a educação fundamental paras nossas decisões políticas.

“As fake news fazem tanto estrago porque as pessoas não questionam o que leem, por essa deficiência educacional, por conta da falta de investimento numa educação libertadora de qualidade. Se a pessoa tem a interpretação da realidade e consegue questionar, se consegue pensar por si mesma, as fake news morrem.”

Para Fiama, o combate às fake news também passa pelo fortalecimento do jornalismo sério e independente. “Se a gente fortalece esses veículos independentes, a gente fortalece a liberdade de imprensa e a verdade. É um momento de denunciar o que não é legal. Vivemos numa sociedade que necessita de pressão.”

Como jornalista, ela quer ver discutidos nos noticiários assuntos que impactam o dia a dia das pessoas  “Trazer diferentes visões políticas sobre o assunto. E não desconsiderar os direitos humanos. Se há desrespeito às pessoas, não tem nem como sentar para conversar.”

“Garantir assuntos como racismo e lgbtfobia na mídia diariamente, questionar racismo diariamente, discutir acontecimentos da comunidade LGBT com especialistas e militantes todos os dias, e não apenas nas datas comemorativas. A educação também tem que trazer esses temas. Como você escreve, as palavras que você escolhe, também demarcam sua posição política e social. Acho que é possível fortalecer a luta contra o racismo e a LGBTfobia a partir da comunicação.”

Como mulher preta, estou sempre tentando estar atenta ao que acontece ao meu redor e tentando fortalecer os meus. Se a gente tem um profissional preto que a gente pode indicar, por que não? E problematizar certas palavras e colocações. Tentar que o assunto não passe despercebido. Tomar cuidado com o jeito como expõe a pessoa, pois existem muitas palavras condenatórias e racializadas que a gente precisa questionar. Apontar, sempre perceber e apontar quando chegar nos lugares: não tem preto aqui. Não esquecer jamais que a questão racial é um ponto sim e ele pesa sim na vida, nas decisões, nas escolhas das pessoas”, avalia Fiama.

Para ela, cada dia que passa tem se mostrado mais necessário resistir frente a tantos ataques. “Minha essência é resistência. Para que as coisas funcionem cada um tem a sua caixinha para ficar. E a gente fica perdido porque o racismo machuca. Não tem como deixar de ser preta. Não se deixa de ser preto. Isso não vai mudar. Não é algo que vou lá aprendo e faço. Essa sou eu. Isso é doloroso. No momento que você perde uma oportunidade por conta da cor da sua pele, você precisa parar, respirar e juntar os cacos e pensar como vai continuar porque você precisa resistir. Tanto por aqueles que vieram antes de você e possibilitaram que você chegasse onde você está hoje, tanto por aqueles que virão depois”, analisa.

“Se quem veio antes deu um passo e eu dei dois, que eles consigam dar três passos e continuem caminhando”, desabafa Fiama.

Deixe uma resposta