Mais de 300 famílias são despejadas às vésperas do Natal em Curitiba

Publicado por

Moradores da ocupação Nova Guaporé relatam drama; elas tiveram de deixar ocupação após decisão judicial

Antoniele Luciano, especial para a Rede Lume

Ainda era madrugada de quinta-feira (17) quando a auxiliar de limpeza Bruna Freitas da Costa, de 28 anos, acordou com a Polícia Militar pronta para fazer a reintegração de posse na ocupação onde ela estava morando, a Nova Guaporé, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Bruna, os filhos – um menino de 7 anos e outro de apenas 22 dias – e mais 310 famílias foram forçadas a deixar o local, uma área particular, após uma decisão judicial. A moradora não teve tempo de arrumar a mudança nem de explicar direito a situação para a criança. “Meu menino ficou assustado, perguntou o que tínhamos feito para a polícia estar ali. Eu disse: nós não fizemos nada”, conta a moça, que se desdobrou com um bebê no colo para salvar pelo menos um fogão e um botijão de gás. “Fiquei desesperada. Só deram uma hora para tirar nossas coisas, passaram por cima de tudo”.

Bruna foi para casa de uma amiga, mas nem todos os moradores da Nova Guaporé tiveram destino parecido. Da ocupação que existia há apenas três meses, a maioria seguiu para a região do Campo Comprido, numa ocupação que já reunia pelo menos 50 famílias. Até a tarde desta sexta-feira (18), já eram mais de 200 novas famílias se assentando por ali. Outras cinco famílias ainda passaram a noite próximo aos barracos demolidos para garantir que os móveis e restos de madeira fossem retirados por um frete no dia seguinte. Houve ainda pessoas dormindo dentro do carro. “Mas carro não é moradia, né? Muita gente acabou ficando perdida, não tem nem casa de parentes para onde ir. É triste porque as pessoas de fora nos enxergam como ladrões”, define o morador Roberto de Andrade Cláudio, 42.

Uma das lideranças do movimento, Geremias de Oliveira Custódio, 27, afirma que os moradores não foram assistidos pela Prefeitura de Curitiba. O auxílio para enfrentar a situação, na véspera da semana do Natal, está vindo, como ele mesmo diz, de “boas almas”. Segundo ele, são ongs, paróquias e doações particulares que estão ajudando as famílias com alimentação nesse momento. “Mas a Prefeitura mesmo não veio conversar conosco”, reforça. Ele sustenta que boa parte das famílias que estavam na Nova Guaporé já vinha enfrentando problemas financeiros e que a situação foi agravada durante a pandemia, com a perda de postos de trabalho e interrupções de contratos.

Nenhuma das famílias que estavam na ocupação aceitou seguir para abrigos da Fundação de Ação Social (FAS). “Nós tínhamos mais condição de acolher do que o abrigo da FAS. Qual o acolhimento deles? Colocar as pessoas em um barracão? As pessoas não querem um barracão, querem moradia e vamos continuar lutando por isso”, diz a liderança, que, em meio às demandas geradas pela reintegração, lamenta também a situação das cerca de 100 crianças que estavam vivendo na Nova Guaporé. “Que Natal vão ter agora? Fizemos até uma ação com cartinhas, para elas receberem presentes, mas como os padrinhos dessas cartas vão saber onde as famílias estão agora e fazer as entregas? Vamos tentar resolver isso até domingo”, salienta.

De acordo com a FAS, até esta sexta, nove famílias tinham aceitado ir para casa de parentes e foram transportadas pela fundação para esses locais. Essas famílias receberam um crédito alimentar de R$ 70. A maior parte, conforme a FAS, já era atendida pelo CRAS Corbélia, da CIC, e pela assistência social de Araucária, município vizinho à área onde houve a reintegração. Em nota, a FAS também observou que que, como se trata de área particular, “a negociação não coube à Prefeitura de Curitiba e as informações devem ser dadas pelo Governo do Estado. Ainda assim, equipes da FAS e da Secretaria Municipal de Saúde acompanharam a ação e ofereceram abrigo e acolhimento a todos. O conselho Tutelar também acompanhou para preservar crianças e adolescentes”.

Procurada, a Companhia de Habitação Popular de Curitiba (COHAB) informou que se colocou à disposição para receber uma comissão de moradores da ocupação, mas que ainda não foi procurada. O órgão estima que existam cerca de 400 ocupações em Curitiba, reunindo em torno de 50 mil famílias. Nem todos os aglomerados estariam em situação de favelização.

Deixe uma resposta