O ano em que o Natal acabou

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Por Paula Vicente e Rafael Colli, integrantes da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da OAB/Londrina

Era dezembro e a Pequena Vila se preparava para receber a data mais esperada do ano, o Natal. Toda iluminada, a Pequena Vila esperava do bom velhinho, além de presentes, um sopro de esperança. Um ano terrível ficava para trás. Novos ares estavam por vir.

Naquele ano, o sol, a fonte de calor e vida de todos, havia se recusado a aparecer. A noite tomou conta dos dias, meses, da vida de cada um. Os grandes centros tinham fontes de eletricidade, geradores, e, apesar das dificuldades, passaram o ano com certa tranquilidade. Mas não a Pequena Vila, que era apenas uma humilde comunidade, sem muitos aparatos. Aquele ano havia sido, indelicadamente, impiedoso com a Pequena Vila. Mas tudo estava para mudar. Os primeiros raios estavam aparecendo, todos sabiam que o Natal traria o sol de volta, todos estavam tomados pela ingênua alegria da esperança.

Mas, antes que seus olhos pudessem se acostumar com os raios de luz, uma espessa fumaça tomou as ruas da Pequena Vila, invadindo as casas dos cidadãos perdidos. A escuridão estava de volta, dessa vez ainda mais devastadora. Os moradores sequer podiam enxergar o que estava diante de si, a fumaça negra cobria tudo. A esperança do Natal transformou-se na agonia daquela nova onda de trevas, uma densa e escura neblina, cheia de fuligem e desespero. Era a fumaça da queimada dos grandes centros, que usaram todos os recursos naturais da região para abastecer seus geradores.

E,  assim, se foi o Natal, como um gélido e soturno vento. Sem festa, sem brincadeiras, sem presentes, sem esperança. Nada de bom velhinho, nada de bom menino, só fumaça e sofrimento. E, assim, se desfez o fio de vida da Pequena Vila, condenada pelo fogo que aquecia os grandes centros.

Pode parecer que não, mas a Pequena Vila existe e essa história, embora diferente, é verdadeira. No dia 17 de dezembro, faltando apenas 8 dias para a celebração natalina, um pequeno exército de policiais militares despejou mais de 300 famílias de suas casas, na Cidade Industrial de Curitiba, em cumprimento de uma decisão judicial de reintegração de posse. A operação contou, inclusive, com o apoio de uma aeronave, um verdadeiro aparato de guerra. A área, particular, havia sido ocupada em outubro para abrigar pessoas em extrema dificuldade, agravada pela crise da pandemia do coronavírus.

A operação veio sem aviso prévio e os moradores tiveram apenas uma hora para poderem retirar tudo que tinham e saírem dali, antes que tratores da força policial passassem por toda ocupação, destruindo as casas e os sonhos daquelas pessoas, tal qual a sombria fumaça da Pequena Vila.

A decisão judicial não se preocupou com os moradores do local, com suas vidas, suas dificuldades, de onde vinham, para onde iriam. Preocupou-se, apenas, com o fogo da lareira do grande centro, com a área particular, o particular da área. A polícia, instrumento de proteção da elite, como sempre tratou o povo como inimigo de guerra. Os poucos assistentes sociais presentes, nada puderam fazer. As 300 famílias ficaram largadas  à própria sorte e tiveram que buscar ajuda na solidariedade de instituições e “boas almas”. Apenas nove famílias puderam contar com o teto da família. A maioria voltou para rua ou teve de procurar novas ocupações, sem lugar no mundo, com suas crianças, seus velhinhos e suas mulheres com rostos sofridos e expressões desoladoras de desespero.

Tudo isso numa manhã de chuva de dezembro.

Fome, frio, medo e desesperança. Assim vai ser o Natal dessas famílias. Igual aos moradores da Pequena Vila curitibana, que, cegados pela fumaça da avareza dos grandes centros, sequer puderam abraçar seus familiares.

Enquanto isso, os donos da área particular comemoram em grande estilo, aquecidos pelo fogo da destruição, contentes e embriagados com sofrimento dos desolados, longe da fumaça de suas crueldades.

E no ano em que o mundo viu que está irremediavelmente interligado, que as ações individuais afetam gravemente a vida do coletivo; em um ano em que o mundo clama para que fiquemos em casa, o amor dá lugar à ambição e vemos que não aprendemos absolutamente nada. O ano que a fumaça tomou o mundo, o ano em que o Natal acabou.

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