É cedo para pensarmos em ‘retomar a vida de antes’, diz diretora da APrI

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Jamile Perozin responde dúvidas sobre a covid-19 e alerta para os riscos de disseminação da doença das festas de final de ano

Cecília França

Autoridades em saúde estão preocupadas com as festas de final de ano e seu efeito sobre os núneros da covid-19. “É esperado que o número de casos aumente após as festas de final de ano na medida em que houver descumprimento das medidas (de distanciamento)”, afirma à Lume a médica Jamile Sardi Perozin, da Associação Paranaense de Infectologia.

A profissional reitera que medidas como o toque de recolher imposto pelo Estado colaboram para conter a disseminação do vírus. A medida estará em vigor até o dia 28 de dezembro e proíbe eventos e confraternizações com mais de 10 pessoas, além da circulação nas ruas entre 23h e 5h.

Jamile Perozin lembra que mesmo os já infectados pela covid-19 devem manter os cuidados de proteção e distanciamento, “uma vez que existe a possibilidade, ainda que de haja poucos relatos na literatura, de reinfecção”.

Veja abaixo entrevista completa.

– Quem já foi infectado pelo novo coronavírus ainda pode ser vetor de contaminação da doença? De qualquer forma, quem já contraiu o vírus deve continuar tomando os cuidados de distanciamento e prevenção?

O indivíduo com a covid-19 tem um período de transmissibilidade que varia a depender do status imunológico e da gravidade da manifestação clínica da doença. A recomendação do Ministério da Saúde brasileiro é que pacientes sem imunidade comprometida e que apresentam sintomas leves (sem necessidade de internação hospitalar) devem ficar isolados durante 10 dias a partir do início dos sintomas (desde que esteja afebril e com melhora dos sintomas nas últimas 24h), enquanto pacientes que desenvolvem quadros graves (com necessidade de internação) ou que apresentam doenças que comprometem o sistema imunológico devem ficar isolados durante 20 dias a partir do início dos sintomas (desde que esteja afebril e com melhora dos sintomas nas últimas 24h). Após o tempo de isolamento, não há mais transmissão do vírus.

As pessoas que já tiveram a doença, mesmo após o cumprimento do período de isolamento, devem continuar tomando os cuidados preconizados (uso de máscara e distanciamento) uma vez que existe a possibilidade, ainda que de haja poucos relatos na literatura, de reinfecção.

– Nacionalmente já tivemos um caso confirmado de reinfecção pelo novo coronavírus. Aqui em Londrina também temos alguns relatos, embora não comprovados. Há algum grupo mais suscetível a uma suposta reinfecção?

Ainda não temos estudos que sugiram um grupo de risco para reinfecção.

– Qual o período ideal para a coleta confiável de exame PCR?

A recomendação é que o RT-PCR seja coletado entre o terceiro e o sétimo dia após o início dos sintomas.

– No caso dos assintomáticos, ou de pessoas que tiveram contato com contaminado, quanto tempo de isolamento deve-se cumprir?

Os indivíduos que tiveram contato domiciliar ou contato desprotegido (sem máscara e sem o devido distanciamento por mais de 15 minutos) com uma pessoa com suspeita de covid-19 deve permanecer em isolamento até a confirmação resultado do exame do suspeito. Importante salientar que neste cenário, o exame recomendado é o RT-PCR, em que coleta-se secreção da nasofaringe através de um cotonete.

Caso o resultado do exame do indivíduo sintomático seja positivo para SARS CoV-2 o contactante, ainda que permaneça assintomático, deve cumprir tempo de isolamento de 14 dias contados a partir do último contato com o paciente sintomático ou pela data de início dos sintomas deste. Caso, neste ínterim, o contactante desenvolva sintomas deverá ser testado e o tempo de isolamento passa a ser contado a partir da data de início dos sintomas conforme mencionado acima.

– Existe alguma estatística sobre índice de óbitos entre pessoas sem comorbidades?

Não tenho conhecimento desta informação específica para pacientes sem comorbidades.

No Brasil, segundo os dados do site da Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa de letalidade geral é de 2,58 (dados atualizados até o dia 22/12/2020). Este número refere-se ao número de óbitos dentre os casos confirmados da doença.

Muitos estudos estão sendo feitos comparando a diferença de mortalidade entre gêneros, grupos etários ou étnicos. Sempre que falamos sobre taxa de letalidade (óbitos/número de casos) devemos observar qual grupo foi observado para ser calculado (número de casos), ou seja, o denominador deste índice. Muitos estudos que calcularam a letalidade levaram em conta os pacientes que tiveram de ser admitidos em unidade hospitalar, assim, já selecionando uma população que não apresenta a evolução mais frequente da doença.

– Estamos nos aproximando das festas de fim de ano e no Paraná está em vigor um toque de recolher e proibição de eventos com mais de 10 pessoas. Qual a avaliação da APrl sobre essas medidas? A senhora avalia que os números (que já estão aumentando) tendem a crescer após as festas?

As medidas instituídas pelas autoridades sanitárias visam diminuir o contato entre pessoas e, com isso, minimizar a probabilidade de transmissão da doença. Neste sentido, sabendo que o vírus transmite-se a partir do contato com pessoas infectadas pelo vírus (sejam elas sintomáticas ou não), a recomendação tem todo respaldo científico.

É esperado que o número de casos aumente após as festas de final de ano na medida em que houver descumprimento destas medidas.

– Estamos no aguardo da aprovação de alguma vacina pela Anvisa e muitos esperam que ela seja a solução para o fim da pandemia. Poderemos retomar a vida de antes a partir da vacinação de grupos de risco ou dependeríamos de uma vacinação em massa?

Acredito que a pergunta refere-se ao conceito de imunidade de rebanho, que classicamente pressupõe que uma grande porcentagem da população esteja imune a uma determinada doença (de forma natural ou induzida pela doença) para que haja a supressão ou mitigação da circulação viral. Neste sentido, é lógico pensar que dependeríamos de uma vacinação em massa. Ainda assim, acredito que seja cedo para pensarmos em “retomar a vida de antes” já que mesmo que a vacina seja oferecida desta forma, levaria algum tempo para conseguirmos atingir a imunidade de rebanho.

– A APrl tem algum posicionamento sobre como deveria ser estruturado o plano de vacinação?

A estratégia de vacinação vai depender de muitos fatores como o tipo de vacina aprovado, o número de doses e intervalos necessários para atingir imunidade, duração desta imunidade nos diferentes grupos vacinados, capacidade de produção e distribuição deste produto, custo, enfim, ainda é cedo para definir o plano de vacinação.

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