Contigo aprendi

Publicado por

Por Carlos Monteiro*

No último dia 28 de dezembro, o abajur lilás se apagou para sempre. Com a morte de Armando Manzanero, um dos mais conhecidos compositores de boleros e uma das maiores vozes mexicanas para o gênero, fica uma lacuna no romantismo, no rosto colado, no dois ‘pra’ lá dois ‘pra’ cá…

Morto por covid-19, forma trágica dolorosa como pedem as letras que escreveu em poemas tristes e de tantas perdas, foi gravado pelo mundo em vozes que vão de Elvis Presley, Elis Regina, Frank Sinatra, Orlando Dias, Ray Conniff, Roberto Carlos, Lindomar Castilho, Paul Mauriat, Tony Bennett, Gal Costa, Franck Pourcel, Carlos Alberto, Andrea Bocelli, Julio Iglesias, Christina Aguilera, Luís Miguel, Altemar Dutra, Simone, Célia… e ‘mucho más’. Transitava muito bem entre estilos tão diferentes no cantar e no apresentar.

Qualquer baile que se preza, além do globo espelhado, as toalhas em cetim, a profusão de espelhos, a dama de vermelho que, até a orquestra fica em festa quando sai para dançar na penumbra do salão, deixando o inebriante perfume de gardênia pelo ambiente, inicia a festa com Manzanero.

Por entre cubas-libres, gins-tônicas e whisky com guaraná, a noite adentra com seu maravilhoso repertório na batida marcada pelo tarol, bongôs e maracas: “Contigo Aprendí” – Contigo aprendí/Que existen nuevas y mejores emociones/Contigo aprendí/A conocer un mundo nuevo de ilusiones…”, “Somos Novios”, “Yo Te Recuerdo”, “Esta Tarde Vi Llover”, que a pimentinha Elis Regina colocou, em 1978, no roteiro do show Transversal do Tempo. Na sua derradeira entrada em estúdio para gravar, a cantora, majestosamente, optou por “Me Vuelves Loco” – Me deixas louca – precisamente uma versão em português de Paulo Coelho para uma das mais marcantes do compositor mexicano.

Outro cantor brasileiro que fez sucesso com várias músicas de Manzanero foi Roberto Carlos. Em versões ou no original imprimiu sua marca em “Yo Te Recuerdo” – Eu Me Recordo, “Fin Mañana” que, em 1978 fez parte do álbum Roberto Carlos o mesmo de “Café da Manhã” e “Força Estranha”.

Já em 1979 o Rei gravou “Esta Tarde Vi Llover” grande sucesso daquele álbum.

A voz que acalmou muitos corações descompassados de amor, em noites vazias de falsos brilhantes, se cala emudecendo corações apaixonados, alivia torturantes band-aids de calcanhares sofridos pelos passos e movimentos marcantes que acompanharam tantos ‘éxitos’.

Armando cantava com paixão, com a alma. Marcou profundamente em romantismo, amores perdidos, amores e muitos amores, ‘en tu boca trajiste sabor, en la boca me saborearás’ e, quem sabe talvez, ‘a hacer mayores mis contadas alegrias/Y a ser dichoso, yo contigo lo aprendí…”.

Com Manzanero aprendi muito do eterno romântico que sou, aprendi que há muita luz do outro lado de ‘la Luna’, aprendi que um beijo doce pode ser mais profundo, que a semana tem muito mais que sete dias e que com o romantismo ficamos mais doces, mais felizes. Infelizmente, aprendi também que podias deixar este mundo amanhã e as coisas boas, já vivi com você por meio de suas músicas.

Flutuou aos céus, iluminou o cantando “…Voy a apagar la luz/Para pensar en ti/Y así dejar sonãr/A mi imaginación…”

Agora os anjos se deliciam entre fados e boleros em todas as tardes que vimos chover.

Manzanero, contigo aprendí a perceber que o amor está sempre no ar.

Contigo aprendí.

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

Deixe uma resposta