O duplo sentido perdeu o sentido

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Por Carlos Monteiro*

Severina Xique-Xique enlutou, enlutaram também o Gato Tico e o Jegue. Morreu, aos 89 anos, Genival Lacerda o “Rei do Duplo Sentido”. O cantor e compositor paraibano, nascido em Campina Grande, interior da Paraíba, em 1931, foi autor de grandes sucessos do forró, como: “Severina Xique Xique”, “Rock do Jegue”, “Mate o Véio Mate”, “O Chevette da Menina”, “O Gato Tico”, “Radinho de Pilha”, “Julieta”, “O Kiko Cheiroso”, “Vizinha Fofoqueira”, “A Véia Debaixo da Cama”, “De quem é esse jegue?” e tantas outras.

Vítima de complicações da Covid-19, estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) há 38 dias, em um hospital da capital pernambucana, onde morava nos últimos 25 anos, no bairro de Boa Viagem, na zona sul da cidade, com um de seus filhos – João Lacerda. Em maio deste ano teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e vinha se recuperando apesar da hipertensão e diabetes.

Ao longo da carreira gravou mais de 50 discos. Bebeu em fontes como Luís Gonzaga e Jackson do Pandeiro, seu parente distante – a irmã do “Rei do Ritmo” era casada com o irmão de Genival. Em 1978, gravou “Tributo a Jackson do Pandeiro” em homenagem ao concunhado.

Seu primeiro LP foi lançado em 1964, pela Continental, já no Rio de Janeiro quando cantava e tocava seu acordeom em várias casas de forró cariocas – “Rei da Muganga” foi um sucesso. Com músicas como “Palavras do Vovô”, “O Dedo De Deus”, “O Casamento Deu e Maria”, tocou bastante nas rádios do Nordeste brasileiro. De lá para cá, emplacou vários êxitos. Em 1970 chegou a gravar um disco em parceria com o ator paraense Lúcio Mauro – “As Trapalhadas de Cazuza e seu Barbalho”.

Suas músicas com duplo sentido alavancaram a carreira. Em 1975, lançou o álbum “O Senador Do Rojão ‎– Aqui Tem Catimberê” com a música carro-chefe “Severina Xique-Xique”, em parceria com João Gonçalves, que resolveu comprar boutique para a vida melhorar. “Ele tá de olho é na boutique dela, ele tá de olho é na boutique dela…” diz a letra. O Brasil inteiro cantou. Vendeu mais de 850 mil cópias.

Em 1979 lançou “Rádio de Pilha”, que foi dado de graça. “…Mas ela deu o rádio/Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio/Ela deu, sim, foi pra fazer pirraça, mas ela deu de graça/O rádio que eu comprei e lhe presenteei//Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio/Ela deu, foi pra fazer pirraça/Ela deu de graça/O rádio que eu comprei…”, atualizada em 2016 para “Me Dê o Seu Wi-Fi”.

Sempre renovando, em 1995 lançou “Forró Dance” com músicas inéditas e velhos sucessos remixados e sampliados. “Julieta”, aquela do “Julieta-ta, tá me esperando“, ganhou uma versão dancing.

Com capas politicamente incorretas, na sua maioria com modelos de biquinis em poses sensuais acompanhadas do cantor, apostava na sonoridade e cacofonia para dar sentido ao duplo sentido de suas letras. O maior exemplo é “Gato Tico”: “…O tico tem um defeito/Que nem da pra consertar/O defeito do tico/É que é danado pra miar//Tico mia na sala,/Tico mia no chão/Tico mia na cozinha, encostado no fogão/Tico mia no tapete, Tico mia no sofá/Tico mia na cama, toda hora sem parar//Tico mia no colo, Tico mia no chão/Tico mia sentado, em frente à televisão…”.

No documentário “O rei da munganga”, lançado em 2008 e dirigido pela documentarista carioca Carolina Paiva, sua história é mostrada em uma turnê pelo Nordeste brasileiro, sua relação com aquela região e seu povo.

Com Ivete Sangalo, em 2010, gravou “O Chevette da Menina”. O refrão “Coitadinha da Ivete./Facilitou, estragaram seu Chevette./Mas coitadinha da Ivete./Em menos de uma semana, estragaram o seu Chevette…”, foi mote para o dueto.

O céu está em festa, na Terra não deu tempo de trocar as pilhas.

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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