Fakecracia

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Por Paula Vicente e Rafael Colli*

Ao ver a invasão ao Capitólio, no último dia 6, e as reações mundo afora, principalmente daqueles que ficaram consternados que “a maior democracia do mundo” tenha sofrido uma tentativa de golpe, uma pequena estória nos veio à cabeça.

Américo era um homem branco, religioso e chefe de uma família de classe média. Comerciante, trabalhava todo dia para dar o melhor à sua família. Era o comerciante mais conhecido da região e muito respeitado, principalmente por seus valores, os quais Américo fazia questão de reverberar pelos quatro cantos. O que poucos sabiam era que, para manter seus negócios, Américo sufocava os negócios de vizinhos, utilizava de suas propriedades sem pagar nada, além de ameaçar e violentar os poucos que não aceitavam tais condições. No melhor estilo machão, Américo caluniava, ameaçava, batia… Mas o que importava era que Américo ia à igreja todas as semanas, fazia caridade e criticava, com veemência, qualquer conduta que lhe parecesse imoral.

Aos poucos Américo foi expandindo seus negócios e, após uma séria crise que assolou outras regiões, tornou-se o maior comerciante da cidade. Américo já era muito mais que mero comerciante, tornara-se um negociador, uma referência para todos sobre tudo. Por consequência, tornou-se, também, mais violento. Já não bastava usar as propriedades de seus inimigos, ele passou a roubar-lhes tudo que pudesse ser de grande valia para seu negócio, os acusava de estarem violando as regras da liberdade e da moral, tão caras a Américo. Assim, controlou toda a cidade e suas relações.

Mesmo oprimindo, Américo manteve sua imagem de bom negociador e conciliador. Mesmo roubando, Américo manteve sua imagem de mestre da moral. Tudo isso graças aos interesses dos moradores da região nobre da cidade, que se banhavam nas riquezas de Américo.

Mas as entranhas de Américo, hora ou outra, seriam expostas. E aconteceu da pior forma. Acostumado a criar as regras que ele mesmo não seguia, Américo se viu consumido por suas próprias atitudes. Aqueles mesmos interesses que mantinham o império do comerciante, fez com que tudo fosse consumido; a mesma moral que o elevou ao status divino, expôs sua podridão; e os mesmos fregueses que tanto o adoravam, decidiram que queriam, todos, se comportar igual a ele. A ilusão de bom homem, chefe de família e cristão veio por terra.

Américo é um personagem de nossa cabeça, mas se fosse um país, com certeza seria os EUA. O “líder do mundo novo”, “pai da moralidade”, “maior democracia do mundo”. Não poderia ser diferente, como Américo, os EUA deram novo sentido ao mundo, levando aos povos a ideia – irreal – de liberdade econômica e de vivência, de moralidade e valores democráticos. Quem não aceitou, amargou embargos e guerras.

“Sejam livres”, dizem os EUA, “desde que estejam aprisionados no meu mundo”. Afinal, todo o império americano foi erguido na base do genocídio, da escravidão e da idealização de excepcionalidade do seu povo – desde que esse povo seja Branco, Anglo-Saxão e Protestante (WASP).

Mas enquanto vende-se como epicentro da democracia, os EUA desrespeitam até mesmo o mais basilar pilar da democracia – que é o voto popular.

Seu sistema de delegados, votos que valem mais em um estado do que em outro, sistemas de votação totalmente distintos em cada estado, na prática, privilegia a perpetuação de poder nas mãos daqueles que sempre possuíram o poder, excluindo, veladamente, o povo da grande decisão democrática. Ou seja, cada cidadão tem um peso diferente, não existe igualdade sequer formal naquela nação.

Essa mesma nação que invade países e derruba governos que entende antidemocráticos é, na realidade, a maior antidemocracia do mundo.

Enquanto vende-se como grande controlador do livre mercado, faz suas fortunas através da exploração e usurpação.

E assim mantém sua imagem de “salvador do mundo”. E assim seguiria, se não fosse por um lunático megalomaníaco que ocupou a presidência e sua base de alucinados.

A eleição de Trump e os eventos que lhe seguiram foram o plot twist perfeito para essa narrativa (as entranhas de Américo). O discurso de ódio, a busca insana para se perpetuar no poder, a incitação à violência e a tentativa de golpe da semana passada mostraram ao mundo a verdadeira face dos EUA.

Os invasores do Capitólio são uma horda fascista que fizeram os estadunidenses provarem um gostinho do próprio veneno, Trump é o líder tresloucado que, de tanto ser ridicularizado, tomou o poder e não quis mais largar, trazendo consigo um exército branco, racista e elitista, cujo limitado intelecto pode ser facilmente manipulável com qualquer teoriazinha tosca e mal acabada. Resumindo, o suprassumo do estadunidense médio – nada de novo sob o Sol.

Apesar da fagulha de divertimento, o episódio da última quarta-feira acendeu um sinal de alerta, sinal esse que não tardaria a se mostrar justificável do lado de baixo do Equador. Nosso líder tresloucado e incompetente não demorou a afirmar que as eleições de 2022, caso se deem por urna eletrônica, terão o mesmo desfecho das norte-americanas em terras tupiniquins. Ou seja, ele usará a mesmíssima narrativa de fraude para tentar se perpetuar no poder e incitar seu exército de minions teleguiados, afinal, nosso genérico de Trump adora copiar toda e qualquer vergonha que o original resolva passar.

O que o Brasil deveria aprender com tudo isso é que notas de repúdio não resolvem fascismo e que o palhaço, por mais ridículo que possa parecer, de tanto se mostrar, pode colocar fogo no circo com muita facilidade.

Portanto, levantemo-nos contra o autoritarismo, o fascismo e qualquer ameaça à nossa democracia, que por mais mambembe que seja, ainda é mais democrática do que a fake maior do mundo.

*Paula Vicente e Rafael Colli são advogados especializados em causas de Direitos Humanos, minorias políticas e Direito Penal, em Londrina

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