Há portas no porto daquele apartamento

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Por Carlos Monteiro*

Nem sempre atrás da porta há um tapete. Pode haver muito mais que aquela velha alfombra enrolada e empoeirada, restos de nós puídos e muitas vezes de nós – tantos pronomes, ‘eus’ vívidos. Trama e urdume colorido que jaz solene, foi pedra pisada de um porto solidão, passadeira de existências. Histórias de vida, do que pode ter parecido um simples fato corriqueiro, mas ter se tornado alcatifa guardada ao lado da memória infeliz.

Uma porta pode trancar e guardar histórias que chamam lar, pode proteger um ambiente, um espaço, seja ele físico ou utópico, trancafiar memórias que não são desejadas em recordações de momentos mal vividos. Ela é a suma representativa da chegada e da partida, dos encontros e das despedidas, palavra-chave para muitas máximas e tantas mínimas, diria Itararé.

Represa os sentimentos mais contidos, mais profundos e, tantas vezes, profanos. Uma espera infinda, o som do sobe e desce do elevador, os passos na escada, o movimento no corredor, depósito de malas de quem partirá e de quem chega. Ecos de saudades, de aguardo que em algum momento não vem na fé do que virá. Que a porta se abrirá e detrás dela a ternura de mãos que se entrelaçam. Abraços incontidos. Foi assim, naquela tarde infinda, imensa, de certa forma traiçoeira. A longa e sempiterna espera do amor que nunca falha, às quartas, sempre às tardes de quarta. Naquele entardecer falhou. A longa expectação se tornou angústia, eterna solidão de quem vive. Falhou! O amor simplesmente não apareceu. Lágrimas verteram daqueles pequenos olhos negros, sorrisos tamanhos emudecidos. Noite de soluços. Não veio, o amor não veio!

Anos e mais anos, a marca impiedosa do pórtico de vindas, vivas, vivificantes vidas vividas, vívidas visitas de quarta. Ah, como ela amava as quartas, ah como ela amava aquelas tardes, ah como o som do elevador e a chegada à porta, um breve toque na campainha, ah como sorriam aqueles diamantes cor-de-jabuticaba. Quanta felicidade. Uma quarta, aquela quarta, exatamente aquela falhou, marcou profundamente, a ferro e fogo, cicatriz hipertrófica, queloide visceral. Nunca esqueceu a dor daquela quarta.

Veio a noite, outro amor, outra porta, outra quarta nas idas e vindas. Novamente a porta, aquela porta de partida. A maldita porta. O amor que se esvai do corpo, do coração, arranhado, arrasado, submisso talvez… não vá, não deites fora esse amor, não vá…, mas foi, noite adentro, desvario, sumiu nas brumas da memória, não vá…, mas foi para não voltar, tanto amor, tantas pétalas derramadas, furtivas, intuitivas. Tantas mãos, bocas, beijos, pernas trocadas, carinhos e carícias, fragmentos nos alvos sudários das noites ferventes, suadas, sufocadas, abafadas em juras futuras, em trocas, um simples olhar, um toque, uma paixão. O amor se foi e ela, como a alcatifa rota atrás do portal insone do adeus, lacrimou, chorou, bebeu, se embriagou de cólera, implorou, suplicou, rogou: não vá…, mas foi, afeto e açúcar, malquerença e fel, polos divergentes, antagonismo de sentimentos que caminham de mãos dadas: amor e ódio. Não vá…, mas foi.

Veio o tempo, amores vindos, bem-vindos. O limiar se abre, qual agulha para passagem do camelo, carregado de esperanças, ave migratória, fez pouso, guardou ninho, mas ainda não, não era chegada a hora. Não vá…, mas foi. Pássaro da manhã, ave noturna. Plangeu, arrepelo-se, condoeu-se, não vá…, mas foi. Volitou ao páramo do esquecimento, espumas voláteis, se inebriou como quem procura anestésico para contrição. Dor lancinante de um amor porta à fora. Bebeu como nunca havia, chorou desdita, pia encimada na dor de amor.

E mais uma vez a porta se abriu e fechou, deixando para trás o farrapo tramado, Isfaran que virou trapo, corroído pelo desamor e a saudade impiedosamente implacável. Mais uma vez pediu: não vá…, mas foi. Abandonou aquela paixão, momentos felizes, catre sublimado. As portas da vida haviam se tornado prisões traiçoeiras, portões impiedosos, coração intransponível, pontes levadiças, arcadas protegidas. Não vá…, mas foi!

E veio o Sol dissipando a escuridão sombria e traiçoeira, não há mais portas, a alfombra é relva, clorofila luminescente, os devaneios são agora lirismos poéticos, sentimentos firmados. Nascentes cristalinas abastecem a alma. O corpo se banha no leito de um rio de sentimentos perpetrados, o aroma da noite fresca embevece e invade o ar, estrela da manhã. O favo borbotante em mel se espalha méleo.

Catarse, luminosa antemanhã!

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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