Sem o auxílio, aumenta vulnerabilidade das famílias nas ocupações

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Desemprego e falta da escola agravam situação dos mais pobres; governo discute retorno mais ‘enxuto’ do benefício

Cecília França

A pandemia e todos os seus agravantes atingiram de forma intensa os mais pobres ao longo do ano passado, mas os impactos foram amenizados, para muitos, pelo Auxílio Emergencial. Com o fim do benefício, famílias voltam a condições de extrema vulnerabilidade, agravada por aspectos como o desemprego e o fechamento das escolas. É o caso de muitos moradores da ocupação Aparecidinha, na Zona Norte de Londrina.

Moradora da ocupação há três anos, a desempregada Carolina Alves, 31, divide o barraco de dois cômodos e chão batido com suas três filhas, Ana Vitória (10), Juliana e Júlia (6). “Eu comprava a cesta básica com o auxílio, acho que tinha que ter continuado”, diz ela. Agora o Governo Federal discute a volta do benefício, mas para metade dos 68 milhões de atendidos anteriormente.

No dia da nossa visita, terça-feira passada, Carolina e as filhas haviam almoçado arroz, feijão e ovo. Os R$ 358 do Bolsa Família dão apenas para o básico. A falta da escola e do projeto social que as meninas frequentavam no contraturno impacta diretamente na qualidade da alimentação que recebem e na possibilidade de aumento da renda familiar.

“Elas iam para a escola de manhã e a tarde para o projeto. Eu ainda conseguia fazer alguma coisa, limpava a casa de algum conhecido por 20, 30 reais. Mas (agora) não posso deixar elas sozinhas e não tenho como pagar alguém para cuidar”, relata Carolina.

Orazil Andrade, 68, recebe um salário mínimo de aposentadoria, dos quais mais de R$ 200 são para remédios. Na casa onde vive há 20 anos, desde o início da ocupação, recebe, diariamente, seus netos. Quando estão todos são 15. No dia de nossa visita eram cinco. Vem dela, ex-catadora de recicláveis, a renda para a alimentação das crianças.

“Dá para o arroz e feijão, mistura é difícil. Hoje comemos arroz, feijão e jiló”, conta. Flávia de Oliveira, 23, trabalha com reciclagem e diz que ganhou bem no fim do ano, mas agora está parada. O marido dificilmente fica sem trabalho como ajudante de pedreiro. Os dois filhos, de 3 e 1 ano, ganham doações de roupas e sapatos e a família, cestas básicas. Ela lamenta o fim do auxílio emergencial e espera que o benefício volte. Enquanto isso, diz como poderia melhorar a vida.

“Eu trabalhar e pegar um emprego bom ajudava”. Débora Ramos Fernandes, 31, mudou-se com a família para a ocupação há dois anos para se livrar do aluguel. Desde então, parou de trabalhar fora. Ela comemora que o filho mais velho, de 16 anos, tenha conseguido uma vaga como menor aprendiz e diz o marido é auxiliar de cozinha. Débora recebeu o auxílio emergencial e conta o que mudou com o fim do benefício.

“As crianças pedem umas coisas diferentes, né, a gente tá empurrando. Quando não tem carne, vai empurrando com ovo”, relata. “Fica difícil comprar uma roupa, um sapato”. A filha mais nova, de 4 anos, também está sentindo falta da escola. “Ela fica perguntando quando vai voltar”, lamenta a mãe.

Voluntárias

Walkiria Moreno, Adriana Cordeiro e outras mulheres voluntárias tocam o projeto Amigas do São Jorge, que atende famílias da ocupação Aparecidinha com alimentos, itens de higiene e outras demandas. Para Walkiria, as consequências da pandemia estão aparecendo mais fortemente agora para os mais pobres.

“Não é só aqui, mas em todas as ocupações e assentamentos de Londrina”, afirma. Elas mesmas têm vivido com dificuldades, já que ambas estão desempregadas. “Às vezes a gente tira da gente para ajudar alguém”, diz Adriana. As doações pararam desde novembro do ano passado e isto já comprometeu o andamento do projeto, que serve refeições duas vezes por semanas e um café da tarde para as crianças. Na última quinta-feira, não havia alimento para preparar o sopão.

Saiba no vídeo como contribuir com o projeto:

‘Medidas paliativas deviam ter sido pensadas’

Para o economista Marcos Rambalducci o Governo Federal deveria ter implementado medidas paliativas que pudessem conter a crise, totalmente previsível, de acordo com ele. “O primeiro trimestre vem com uma implicação: some-se à falta de medida emergencial o aumento da taxa de desemprego e você tem aí um cenário triste, mas absolutamente previsível. Medidas paliativas deveriam ter sido pensadas lá em outubro”.

Ele discorre sobre o impacto do fim do benefício para os que receberam e para a economia. “Nós vamos perder os benefícios de ter tirado 23% de famílias da pobreza. São R$ 300 bilhões que deixam de circular na economia. Temos dois impactos: de um lado, uma demanda que deixa de existir, e de outro, esse contingente de excluídos passa a voltar (à situação de pobreza)”, explica.

Rambalducci reforça que em janeiro costumam ocorrer desligamentos de funcionários nas empresas, tanto no comércio quanto nas indústrias, e a recuperação só começa em março, algo já esperado. “Como ainda não tivemos a recuperação dos postos de trabalho esse contingente de pessoas vai sofrer de maneira significativa”.

Na última semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, debateu com os novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado o retorno do auxílio emergencial de forma mais enxuta. O tema ainda está em debate.

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