Antiguidade é posto

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Por Carlos Monteiro*

Já fotografei a Cidade Maravilhosa de todos os ângulos, em todos os seus aspectos grandiosos, em todos os dias, horários e estações do ano. De cima, de baixo, de lado, de frente ou fundos, subaquático, como escafandrista e à flor d’água como ‘remador’. Dos céus, sobre a cidade, no topo dos prédios, lajes beirais e telhados, alpinista de pedreiras, montanhas, pedras e pedregulhos, dependurado em antenas, postes, árvores e tudo mais que deu para subir. No calor da imagem perfeita, é sempre tarefa fácil. Tripé nas costas, junto a mochila, mosquetões segurando a câmera ao peito para que não saia esbarrando em tudo e cause uma possível avaria vou eu. Nessas horas o medo não existe e a sensação é de vitória.  

Depois dos cliques e embevecimento com a paleta de cores do Criador e sua plêiade pintora de serafins, querubins, arcanjos e anjos, artistas plásticos do firmamento, descer se torna tarefa mais complicada, requerendo cálculos e avaliação de riscos. É a hora em que analiso a altura em que me encontro, o peso do equipamento e sua quantidade, o calçado inadequado para aquela empreitada e por aí vai. Por vezes, me vi no vexame de ligar para o Corpo de Bombeiros e a equipe de Buscas e Salvamentos e casualmente virar manchete do Extra: “Fotógrafo acha que é passarinho e fica preso no ninho de uma árvore”, coisas geniais do Humberto Tziolas que só ele sabe fazer ou do Meia-Hora: “Fotógrafo abusado dá trabalho para os valorosos homens do fogo”. Acabrunhamento é pouco, ridículo então…

Também fiz vários ensaios aéreos dessa bela e amada cidade, lá de cima ela parece ainda mais linda e poderosa. A maior dificuldade para fazer esses cliques sempre foi aliar os meus olhos à destreza do piloto que me acompanhava. Alinhar o que eu enxergava, através das lentes da câmera, e passar para ele, quase de uma forma telepática – mesmo tendo os fones e o microfone -, o que tinha em mente juntamente com a minha visão, nunca foi tarefa fácil. Poucas foram as vezes que consegui. Lembro de dois que pareciam adivinhar minhas intenções: comandante Norberth e comandante Melissa, ambos da Helisight – isso não é jabá. Eu pensava : “quero aquele ângulo inusitado…” aí, para minha surpresa, já me colocavam “na cara do gol” parecendo que estavam enxergando através da ocular da minha câmera. Eram posicionamentos perfeitos. Cristo Redentor, praias, Pão de Açúcar, Pedra da Gávea, Lagoa, Dois Irmãos… O Rio se descortinava como se “posasse” a cada sobrevoo. Até onde a vista pode alcançar a natureza se espalha, se derrama, invade, transcende à própria criação divinal.

Definitivamente e de fato, quando estou vendo-a lá do páramo, com todos seus encantos mil multiplicados por mais mil, penso cá com minhas objetivas: eu tenho um caso de amor com esta cidade muito bem resolvido! De todas as maneiras que há de amar nós já nos amamos, de todas as maneiras de fotografar, já fotografamos, agora as portas do meu coração já estão mais que abertas. Entendo perfeitamente a emoção de Tom a fazer o “Samba do Avião”. Lá vamos nós! O Rio foi feito para mim também. Foi feito para os cariocas é muita belezura para encher os olhos de brilho e o coração de paixão arrebatadora.

A Cidade Maravilhosa é linda, faceira e encantadora; alguém pode contestar isso? A mais bela do planeta, será exagero? Não, claro que não, basta dobrar uma esquina, olhar para o firmamento, perceber as montanhas, caminhar alguns passos e se deparar com uma cachoeira, um pé de amoras nativas e outro de café em plena Floresta da Tijuca. Nas ruas, vivenciar a sombra das amendoeiras aromatizadas pelas patas-de-vaca em flor e a chuva-de-ouro que dão o toque decorativo. Comer uma jaca à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas ou na parte alta de Santa Teresa? Isso é para poucos, é para os cariocas, isso é pura beleza, é a natureza gritante e escandalosamente alvissareira. Olhar para a fiação e reparar alguns saguis se equilibrando com seus filhotes, malabares urbanos, misto de corda bamba e slackline improvisado. Um gavião rasante pousado numa antena, vem das ondas de lá e um canário-da-terra cantor no galho daquele flamboyant, transmitindo em frequência modular.

Pela manhã, quando avisto os biguás, as fragatas, as garças e até mesmo os urubus – saudações rubro-negras nação -, fico com uma inveja danada, sonho como Ícaro. Me imagino pegando uma térmica lá na Prainha e, sobrevoando toda a cidade, fotografando-a de ângulos que nem os drones, muito menos os helicópteros possam avistar.

“…Sobrevoa à tardinha…/…Cidade maravilhosa…/…Quase arromba a retina/De quem vê…”. Chico está certíssimo!

Que inveja eu tenho dos pássaros cariocas.

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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