Eles se deram um beijo

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Por Régis Moreira*

Querem encaixotar o beijo. Beijo é beijo. Só a palavra beijo já traz em si o molhado da troca – O beijo disparador de racismo, bifobia e ódio de classe.

Nenhum beijo é igual

Boca na boca

Colada

Calada

Pra não sufocar

Correnteza das salivas

Que tudo liga

Língua na língua

Músculos eretos

Teu céu

Na ponta

Meu céu

Te conta

Sede

Fluidos tantos

Todos derramados

Nosso beijo combina

E não sacia

Nossa sede

Sempre

Pede mais

Oferta tais

Corpos plugados

Conectados

Encontro

Entre

Únicos

Sacro!

O beijo de Lucas e Gil no BBB 21. Foto: Reprodução

Eles se deram um beijo na boca! Dois jovens homens negros deram um beijaço na boca no programa televisionado. Aquele beijo gostoso, de verdade, eles se deram. E quando a gente beija, a gente se dá. E o beijo foi como todo beijo deve ser: entrega. Entrega e tesão, safadeza, brincadeira, troca… não foi romance, foi só um beijo, mas QUE beijo! Um beijo que desestabilizou os outros participantes do programa. Não cabia um beijo daqueles, num programa que tem propagado o ódio e o cancelamento. Um programa que tem revelado militantes de internet, cagando regras, com dedos em riste, assumindo o papel de ditadores da verdade. Como suportar aquele beijo? Era muito colo, muito abraço, muita carícia, muito afeto, e porque não dizer, muito amor, naquele ambiente hostil, em que rappers, famosos e pseudomilitantes torram seu filme, destilando venenos, fascismos, hipocrisias. Aquele beijo foi muita humanização, naquele ambiente inóspito, que se submetem, para ganhar dinheiro, um prêmio milionário. Afinal, pelo capital, tá valendo deixar de ser humano e ser qualquer coisa sórdida, no covil dos confinados do reality-show, muito mais show que reality. Um verdadeiro show de horrores. Como caber um beijo daqueles, na aridez que ali se produz?

É muita gente equivocada num lugar só. Retrato de uma parcela do Brasil intolerante, fascista, sexista, xenofóbica, lgbtqia+fóbica, racista, classista… (a lista é extensa), liderados por muitos governantes e seus cegos seguidores, que apoiam tais atitudes, mediada por veículos de incomunicação complacentes e vendidos, benzidos por lideranças de igrejas extremistas, que pregam o ódio, ao invés do amor.

E a repercussão daquele beijo foi disparadora de tantos equívocos. O primeiro de grudar no beijo enquadramentos como beijo-gay, beijo bi, beijo lgbtqia+, e por aí afora. Quiseram encaixotar o beijo. Gente, beijo é beijo. Só a palavra beijo já traz em si o molhado da troca. Não precisa de complementos. Porque ninguém diz beijo-hétero? Não há nomenclaturas para o que a sociedade considera normal, porém as pessoas se esquecem, ou nem sabem, que tudo é uma construção social, inclusive a heterossexualidade.

O que incomoda não é o beijo entre dois homens ou duas mulheres ou travestis… o que incomoda os que criticam talvez seja a falta de também estarem beijando alguém, com suas sexualidades bem resolvidas e praticadas, com seus afetos em dia. Quando se odeia o amor alheio, seja qual for, tenha certeza que a vida afetiva desses sujeitos está uma merda. Se cada um cuidasse bem dos seus orifícios (boca, nariz, olhos, ouvidos e os outros orifícios mais) não teriam tempo de bravejar ódios bifóbicos, lgbtquia+fóbicos, racistas, classistas.

Eles se deram um beijo na boca. Trocaram carinho e saliva. Saliva, ali, bem empregada. Enquanto os adversários gastaram suas salivas pra destituí-los, desqualificá-los. Salivas bem empregadas geram vida e não produção de morte. Eles se beijaram lindamente, cinematograficamente, televisiograficamente. Sem medo, beijaram-se. E os recalques apareceram imediatamente. E pode ser que a leitura destas linhas pareça sobre um fato desatualizado, já que o tempo do reality-show passa com uma avalanche de acontecimentos. Mas o fato do beijo entre duas pessoas do mesmo sexo ou beijo a três, a quatro, a cinco… é, e ainda continua sendo, motivo de perseguições e morte. Usemos melhor a saliva. Beije mais, com mais vontade. Empregue melhor sua boca e sua saliva e deixe as bocas e salivas alheias em paz. Você deve saber quanto é bom beijar gostoso, né? Ou nunca experimentou um BOM beijo? Permita-se, experimente e deixe a boca e saliva dos outros em paz.

Um beijo, car@ leit@r, e uma ótima semana.

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo. Docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

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