Frente Trans luta por ambulatório de saúde institucionalizado em Londrina

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Coletivo aponta alta demanda regional e quer garantir que novo centro previsto pelo Estado funcione aqui

Cecília França

Foto em destaque: Detalhe do Ato Keron Ravach, em Londrina/Isaac Fontana

Cerca de 500 mulheres transexuais, travestis e homens trans de Londrina e região foram atendidos pelo Ambulatório Voluntário Melissa Campus ao longo de cerca de três anos. A estimativa é do coordenador do ambulatório, Enzo Lopes. Em 2021, no entanto, esse trabalho voluntário se encerrou e trazer um centro de atendimento em saúde institucionalizado para esse público tornou-se uma das principais pautas da recém criada Frente Trans de Londrina.

Lopes, que também integra a Frente, diz que um grupo de profissionais prestava atendimentos variados ao público de Londrina e região desde 2018, sendo apenas uma médica. Ele afirma que a luta agora está focada em trazer um ambulatório mantido pelo Governo do Estado ou município, garantindo a manutenção do serviço.

“Eu soube que o Estado vai abrir outro CPATT, vamos batalhar para que seja em Londrina”, diz ele. CPATT é o Centro de Pesquisa e Atendimento para Travestis e Transexuais, situado em Curitiba. A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) confirmou à Lume que o Plano Estadual de Saúde prevê como meta “Implantar 01 CPATT em mais uma Macro Regional do Estado”, porém, não está definido até o momento em qual Regional de Saúde será aberta a nova unidade. A implementação deve ocorrer até 2023.

Linaê Mello Alencar, militante da Frente Trans, diz que o ambulatório possibilita um acompanhamento completo da população trans. “Às vezes é um atendimento psicológico”, explica. Outra militante da Frente, a universitária Raffaela Rocha, ressalta que as demandas das pessoas trans vão muito além da hormonização.

“A transfobia é estrutural, então ela permeia todos os serviços públicos existentes, e a nossa luta como Frente Trans e como pessoas que necessitam desse serviço é trazer um CPATT para cá, mas reforçando que não é apenas por hormonização, mas que a gente possa ter uma rede de atenção psicológica, psiquiátrica, atendimento jurídico, principalmente para questão de retificação de nomes e várias outras agressões, porque falta essa rede de apoio”, afirma.

Ela mesma conta que já abandonou tratamentos de saúde por constrangimento causado pela falta de preparo dos profissionais de instituições de saúde. “Você consegue ler no olhar das pessoas que quando uma travesti, uma mulher trans, coloca o pé dentro de qualquer unidade de saúde (parece que) a gente está indo buscar coquetel para Aids, então, esse atendimento fica desumanizado desde o seu primórdio”, relata.

Para mulheres trans todas essas questões são ainda mais complexas. Além de serem, em sua maioria, empurradas para a prostituição, elas sofrem maiores pressões sociais em relação à aparência. “Existem nuances enormes entre pessoas trans, tanto homens quanto mulheres trans e travestis, não tem essa padronização, que, infelizmente, nessa sociedade machista e patriarcal que a gente vive, e principalmente pelas mulheres trans e travestis serem empurradas para a prostituição, sempre fica aquela busca por parecer uma mulher ideal para o homem, porque a prostituição acaba levando a isso, você entrar num padrão para ter mais clientes”, relata.

Ela ressalta que os hormônios manipulados são caros, difíceis de adquirir por quem vive em situação de vulnerabilidade. “Como Frente Trans vamos começar a nos organizar para pressionar tanto o governo estadual quanto o município para parar de achar que a gente é invisível, que não existe demanda aqui”, finaliza.

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