Famílias de presos voltam a pedir retorno das visitas presenciais

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Paraná é o único estado da federação que não reabriu de nenhuma forma o sistema prisional desde o início da pandemia, em março do ano passado

Cecília França
Colaborou Milene Pascoal

Fotos: Protesto ontem no gramado da Prefeitura de Londrina, em frente à VEP/Milene Pascoal

Atualizada em 23/02 às 16h58 para inclusão da resposta do Depen

Familiares de detentos de Londrina e região realizaram um novo protesto ontem (18) em frente à sede das Varas de Execuções Penais (VEP) pedindo o retorno das visitas presenciais no sistema prisional de todo o Estado. Desde o início da pandemia as unidades estão fechadas e as visitas acontecem apenas de forma virtual, para evitar contaminações por covid-19. Os familiares argumentam que há formas de promover os encontros de forma segura e escalonada, como vem sendo feito em outros Estados.

O Paraná é o único Estado da federação em que o sistema prisional está totalmente fechado para visitações desde março do ano passado. Levantamento da Lume mostra que muitos Estados precisaram voltar a fechar unidades após registros de surtos de covid-19, como Espírito Santo, Santa Catarina, Mato Grosso e Ceará. Familiares argumentam que os surtos têm acontecido mesmo sem as visitas.

“Aqui está tudo fechado e está tendo surto”, diz Josiane*, familiar de detento. Ela lembra que a última visita presencial aconteceu no dia 13 de março do ano passado. “A gente já teve várias manifestações, fomos até Curitiba em novembro, tivemos até uma reunião lá, falaram que em janeiro teríamos outra e que, se os casos de covid estivessem baixos, eles apresentariam um plano de retomada, mas ainda não tivemos uma resposta”, detalha.

Ela classifica a situação como um descaso com os familiares dos encarcerados. “O único contato que temos hoje é uma videochamada, dura 20 minutos. Sem contar que muitos familiares não conseguem fazer. Carta está demorando dois meses pra chegar. Tem mãe que ganhou filho e o pai ainda não viu a criança. Por que só o Paraná não voltou ainda? A gente espera uma resposta”.

De acordo com o Mapa de Monitoramento de Prevenção ao Coronavírus do Sindicato dos Policiais Penais do Paraná (Sindarspen), desde o início da pandemia 1229 presos já contraíram covid-19 no Estado e três morreram. Entre os agentes foram registrados 378 casos e dois óbitos.

Reprodução site Sindarspen

“Nem pelo vidro a gente pode ver”

Viviane tem dois filhos nas penitenciárias de Londrina e o marido detido em São Paulo. No estado vizinho as visitas foram retomadas no fim do ano, de forma escalonada. “Eu visito meu marido duas horas, a cada 15 dias, para não dar tumulto; fico numa grade, consigo conversar com ele. Aqui, nem por aquele vidro a gente pode ver”, lamenta.

A mãe não tem participado das visitas virtuais por opção. “A gente queria uma visita digna, chamada de vídeo não é a mesma coisa”, declara. Viviane também contesta a proibição de entrega das sacolas com produtos, que tem sido feita via Sedex desde março. “Nós queríamos que tirasse o Sedex. Da mesma forma que os agentes estão lá dentro, do mesmo jeito que o Correio vai lá entregar a gente podia também. Eles falam que o alimento é perigoso, mas como é perigoso se o Correio pode entregar?”.

Sem previsão

Em resposta a questionamentos da reportagem, o Departamento Penitenciário do Paraná (Depen) diz que não há previsão para o retorno das visitas presenciais nas unidades e afirma que “Por diversas vezes, o Depen, a Secretaria da Segurança Pública e a Defensoria Pública do Estado estiveram reunidos com advogados e familiares de detentos para debater a possibilidade de retorno das visitas, entrada de sacolas e outros temas relacionados. Os estudos em relação à questão são constantes.”

De acordo com o departamento, as visitas movimentam centenas de pessoas “em aglomeração nas unidades penais”, o que não é recomendável neste momento da pandemia.

*As familiares solicitaram o uso apenas do primeiro nome para não serem identificadas

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