Pessoas trans ganham espaço no mercado de trabalho

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Só no ano passado, agência especializada intermediou emprego para 800 transgêneros

Nelson Bortolin

A estudante de direito paulistana Gabriela Morais, 23 anos (foto acima), é assistente de operações de atendimento ao consumidor da startup paranaense Ebanx desde novembro do ano passado. Ela é uma entre 800 pessoas trans encaminhadas para o mercado em 2020 pela agência Transempregos. Apesar da onda conservadora que assola o País, aos poucos o mundo corporativo começa a abrir portas aos transgêneros brasileiros.

“Mesmo com toda minha estrutura, minha boa formação, cursando uma faculdade, eu tinha dificuldade em conseguir uma vaga. Nas entrevistas, independente de você falar quatro idiomas, as empresas só veem que você é trans”, aponta Gabriela, que é uma das seis pessoas trans empregadas pelo Ebanx.

Apesar de sentir na pele a discriminação, ela se considera uma pessoa privilegiada por ter nascido numa família de classe média que sempre a apoiou e por ter estudado em boas escolas particulares. “O primeiro passo para ser um ser humano melhor é entender nossos privilégios”, afirma.

O sentimento de pessoa privilegiada foi reforçado na Casa Florescer, onde a jovem atua como voluntária. O projeto acolhe mulheres trans e travestis em situação de rua na capital paulista. “São meninas muito novas, de 13, 14 anos, grande parte vinda do Nordeste. Meninas que chegaram a São Paulo pedindo carona, só com a roupa do corpo. Deveriam estar na escola estudando, mas suas famílias não aceitaram a situação de gênero delas.”

Encontrar emprego é sempre mais difícil para quem sequer tem onde morar.

No caso das trans, segundo Gabriela Morais, há um complicante extra. “As mulheres trans marginalizadas fazem toda terapia hormonal por conta própria”, afirma. O impacto, na aparência, costuma ser visível, o que as afasta ainda mais do mercado de trabalho. “Além disso, não têm famílias que as ensinem como se portar numa entrevista de emprego, que roupa usar.”

TRANSEMPREGOS

Assim como a cartunista Laerte Coutinho, Maitê Schneider é uma das fundadoras da agência Transempregos, com sede em São Paulo. De acordo com ela, o Brasil vive uma “pequena revolução” na questão da empregabilidade de pessoas trans. Somente nos últimos dois meses, 200 novas empresas passaram a oferecer oportunidades de trabalho no site da agência criada em 2013. No total, são mais de 700 parceiras.

Maitê Schneider, da Transempregos

Varejo e telemarketing são exemplos de atividades que, segundo Maitê, já entenderam a importância da diversidade. “Sabem que quanto mais plural, mais o negócio se expande. Com diversidade, você gera mais inovação pela criatividade de novos pontos de vista. É uma relação de ganha-ganha.”

A empresária diz que as startups vêm surpreendendo positivamente no processo de contratação de pessoas trans. Assim como os bancos e os escritórios de advocacias. Já as atividades imobiliária, automobilística e de marketing e propaganda, são citadas por ela como mais resistentes.

Dos 23 mil currículos abrigados pela Transempregos, 40% são de pessoas com graduação, mestrado ou doutorado.

Atualmente, a agência tem cerca de 500 vagas disponíveis no site. As funções vão desde recepcionista, auxiliar administrativo, analista de sistema até jornalista e advogado. E, entre os contratantes, além da unicórnio paranaense, estão MacDonald´s, Imaginarium, Ambev e Roche. Há 111 companhias citadas como Transfriendly, como Amazon, Mercado Livre, Netflix, Ifood, Apple, Raízen e Uber.

A grande maioria das vagas é para a cidade de São Paulo, mas é possível encontrar oportunidades pelo interior, como a de supervisor de Produção, da Syngenta, em Catalão (GO). Ou ainda a de operador de envazamento, na Heineken, em Ponta Grossa.

Patrícia Badaró, gerente de Gestão de Talentos do unicórnio Ebanx, diz que a empresa trata a diversidade como um guarda-chuva. “A gente tem alguns compromissos como a empregabilidade voltada para a diversidade. Pessoas trans estão dentro desse nosso compromisso”, explica.

EBANX PROMOVE DIVERSIDADE

Dentro da startup, há comitês de diversidades que se reúnem semanalmente. “De passinho em passinho, a gente vai aprendendo”, diz a gerente. O Ebanx tem cerca de 700 funcionários em Curitiba, São Paulo, em outros países da América Latina, nos Estados Unidos e China.

Questionada se houve algum tipo de estranhamento com a chegada de pessoas trans, a gerente garante que não. “A diversidade está na cultura das pessoas que trabalham na empresa. Está no nosso DNA. E faz com que os colaboradores olhem para o mesmo objetivo de diversos pontos de vista, com um olhar mais fora da caixa.”

A Transcendemos é uma empresa de consultoria em diversidade e inclusão fundada em São Paulo por outra Gabriela, a Gabriela Augusto. “Não trabalhamos só com a questão das pessoas trans ou LGBT. Nosso escopo de trabalho é amplo. Atuamos por exemplo no combate ao racismo e na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.”

Gabriela Augusto, da Transcendemos

A consultoria envolve um diagnóstico e a elaboração de uma estratégia visando a diversidade na empresa. “Ajudamos o cliente a pensar num sistema de governança para grupos de afinidades. Propomos mudanças em processos de recrutamento e seleção, desenvolvemos a comunicação interna e externa”, relata.

Gabriela é mulher trans e sua transição ocorreu quando ela estava na faculdade, prestes a ingressar no mercado de trabalho. Em busca de uma vaga, percebeu que não havia pessoas como ela nas empresas. “Vi quanto injusto era o mercado de trabalho nesse sentido. Fiquei pensando no que fazer para mudar esse cenário.”

A jovem elaborou um manual que chamou de Empresa de Respeito. E passou a distribuir a publicação de graça por São Paulo. “Sintetizei nele os principais conceitos sobre lgbtfobia, combate ao racismo, igualdade de gênero.” Desde então, começou a ser chamada para dar palestras, o que resultou na criação da Transcendemos.

Fundada há quatro anos, a empresa cresceu bastante no ano passado com os protestos do movimento Black Lives Matter, nos Estados Unidos. E principalmente após a morte do negro João Alberto Silveira Freitas por seguranças do Carrefour em Porto Alegre. “Houve várias situações que fizeram com que as empresas assumissem esse tom de urgência em buscar a diversidade”, explica.

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