Por dentro da Cadeia Pública Feminina de Londrina

Publicado por

Sem superlotação, unidade foca na remição das quase 160 mulheres presas, a maioria jovens de até 30 anos

Cecília França

Uma mulher com as unhas pintadas de vermelho estende a mão pela abertura da porta da cela para receber o prato de comida. Eram quatro e meia da tarde e o jantar estava sendo servido na Cadeia Pública Feminina de Londrina, onde havia 159 mulheres no dia da minha visita, em 5 de fevereiro.

Parece haver um antes e depois na vida das mulheres encarceradas na cidade. No final de 2018, quando o Departamento Penitenciário (Depen) assumiu a direção do que era o 3° Distrito da Polícia Civil, entre 80 e 90 mulheres se aglomeravam em um espaço para 36. Era para ser provisório, mas durava tempo. Em 2019 começaram as obras da cadeia, inaugurada oficialmente em outubro do ano passado, e hoje existem 169 vagas, pátios, escola e projetos de remição.

A alimentação era algo que incomodava a gestora da unidade, Soraya Ursi, que já trabalhou como agente em penitenciárias masculinas. Para evitar desperdício, acúmulo de lixo e oferecer refeições mais frescas para as presas, a cadeia adotou o serviço de carrinho e aboliu as marmitas. “O carrinho resolveu o problema de limpeza e desperdício. Saíam baldes e baldes de comida que sobrava”, lembra Soraya.

Alimentação sendo servida às presas. Fotos: Cecília França

No dia 5 de fevereiro o ano letivo ainda não havia começado. O estudo é uma forma de remição para muitas presas que não completaram o ensino médio. Há também o projeto de leitura e o trabalho, limitado agora durante a pandemia. Ainda assim, uma marca de roupas de ginástica contratou algumas delas e a sala de costura funciona lá mesmo.

A professora, Aparecida do Carmo, 64 anos, costura “a vida toda” e diz que se acostumou rápido ao novo ambiente. “Lá na costura não parece que estou dentro de uma cadeia”. Aparecida conta que as presas a classificam “como uma bênção na vida delas” e a respeitam muito. “Entrei para ficar um mês e já estou há seis”.

O cafezinho é feito por presas, bem como a faxina, separação dos remédios e os cuidados com a horta. São outras formas internas de remição. O projeto de leitura envolve cerca de 100 presas na produção mensal de resenhas. Para cada página de resenha escrita, quatro dias a menos na pena.

Recentemente, dez presas ganharam a oportunidade de contar suas histórias – e receber 40 dias de remição – para compor o livro Encarceradas – Quando a estrela de Natal não brilha, ainda a ser publicado. A ideia é fazer edições trimestrais do livro. Tive a oportunidade de ler a versão piloto e conhecer um pouco do perfil das mulheres que habitam aquelas celas.

“Ela pode estar atrás das grades neste exato momento, mas sabe que será capaz de terminar seus estudos e viver uma nova realidade.”

MBS, 45, no livro “Encarceradas…”

Passo em frente a uma das celas (cubículos, como são chamados) e as presas me chamam. Por causa da câmera fotográfica desconfiam que sou da imprensa e querem expor suas reclamações. Lamentam que eu não seja da TV, pois não terão como ver a matéria. Uma reclama da falta de atendimento médico, outra precisa de dentista, outra quer remição com um trabalho fora. Reclamam de lotação. Embora estejam em 19 onde há 24 camas, o desconforto é compreensível. Fazem gestos com as mãos e pedem fotos.

“Cada mãozinha dessa tem um significado”, diz uma das presas

A cadeira de dentista já está na enfermaria e, de acordo com Soraya, os atendimentos devem começar nos próximos 30 dias. As remições fora da cadeia estão suspensas por causa da pandemia. O médico vai à unidade uma vez por semana, às quartas-feiras. Em outro cubículo, uma mulher com batom lilás e unhas vermelhas diz que o calor incomoda. Elas precisam de ventiladores. Doações são bem-vindas.

Sem shampoo

Doações melhoram muito a qualidade de vida das mulheres encarceradas. O Estado fornece o básico, como sabonete, pasta e escova de dentes, absorvente. “Não costuma faltar”, garante a gestora. Mas não há shampoo, condicionador nem desodorante. Qualquer coisa a mais, como produtos de beleza, só chega por meio das doações ou envio das famílias.

Poucas, porém, recebem sacolas, assim como as visitas presenciais eram escassas. “Ano passado tinha 80 presas, 40 no máximo tinham visita. Normalmente vem filho, mãe, irmã”, conta Soraya. Uma realidade abissalmente diferente da dos homens encarcerados.

Desde março de 2020 as visitas presenciais estão suspensas por causa da pandemia. “A gente faz chamada de vídeo, mas com a grande maioria das famílias nós não conseguimos, aí fazemos uma ligação telefônica. A unidade também compra selos para elas mandarem cartas”, explica.

No livro “Encarceradas…” quase todas as presas relatam um contraditório sentimento de solidão. Mesmo em um lugar onde nunca se está só, estar longe das pessoas amadas talvez seja a maior pena para essas filhas, mães, avós. Uma delas me serve um suco de goiaba e uma torta de frango feitos na hora. Simpática, sorri. Ela faz parte do grupo da remição pelo trabalho interno, mas soube que ficará lá por muito tempo devido à gravidade do crime pelo qual foi condenada.

“Ficamos sabendo pela televisão que chegara ao no Brasil uma pandemia, um vírus que estava pelo mundo todo. Muito poderoso que matava de um jeito muito triste as pessoas, não entendia direito, mas me preocupei imediatamente com minha mãe, que é de um grupo de risco e minha filha que tem que cuidar de tudo da casa agora, toda a responsabilidade de ir em bancos, supermercados, farmácias, tenho medo que aconteça algo de ruim e eu aqui presa, incapaz de ajudar minha família.” D.L.R., 39

D.L.R., 39, no livro “Encarceradas…”

Perfil das presas

A maior parte das mulheres encarceradas em Londrina tem entre 25 e 30 anos e está presa por tráfico ou associações, diz Soraya, muitas delas levadas ao crime por parceiros amorosos. No livro “Encarceradas – Quando a estrela de Natal não brilha” conhecemos dez dessas histórias.

São registros fortes, de vidas sofridas, a maioria permeada pela violência desde a infância, seja por agressões dos pais, agressões do pai à mãe, até abusos sexuais. Todas de origem pobre, grande parte cresceu sem a presença da figura paterna e tem na mãe ou avó o único alicerce.

Fica evidente como o machismo da sociedade pesa na biografia dessas mulheres, abandonadas pelos pais, vítimas de agressões dos parceiros, responsáveis únicas pelos seus filhos. Além da função de cuidado, cabe-lhes também a de provedoras. Muitas caem no crime para enfrentar um cenário de total falta de perspectiva. Outras, levadas por companheiros.

Há ainda crimes mais chocantes, contra crianças. Nas duas histórias com esse perfil as autoras são mulheres sem passagens pelo mundo do crime, mas com vidas que envolvem inúmeras dificuldade materiais e psicológicas. O livro nos mostra uma parte do universo dessas mulheres e como pode ser tênue a linha entre a correção e o crime.

“Para eu não afundar nas minhas tristezas, oro para Deus me confortar, para não perder a esperança de dias melhores que estão por vir, que nossa vida não acaba aqui em uma cela.”

F.G.M., 34, no livro “Encarceradas…”

Deixe uma resposta