‘Quero priorizar o novo trabalho e comida na mesa’

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Durante a pandemia, Camila Cardoso perdeu boa parte da renda, precisou abandonar a faculdade e, agora, espera garantir um emprego fixo: “A gente fica duplamente sobrecarregada”

Cecília França

A pandemia agravou a situação de trabalho especialmente de mulheres e pessoas negras*. A informalidade aumentou entre negros enquanto caiu entre brancos. O índice de ocupação das mulheres caiu à menor taxa em três décadas**, com forte impacto da queda do setor de serviços e do aumento da demanda doméstica, decorrente do isolamento social.

A londrinense Camila Cardoso, 28, trabalhava informalmente no início da pandemia e, de imediato, perdeu grande parte da renda. Com o passar dos meses e o relaxamento das medidas de restrição, recuperou parte dela e, agora, espera garantir um emprego fixo. Mãe solo de um menino, precisou abandonar a faculdade para dar conta de tudo.

Nessa entrevista à Lume, Camila comenta as dificuldades trazidas pelo atual momento para as mulheres e os impactos na sua rotina de autocuidado.

A pandemia se instalou em Londrina há cerca de 1 ano. Qual foi o impacto imediato na sua vida?

Na época eu estava trabalhando de maneira informal, então afetou muito porque eu tive que parar com os trabalhos, passei por dificuldades financeiras e, ao mesmo tempo, não queria também me expor. Eu recebi o auxílio emergencial no tempo que foi dado e isso deu uma ajuda e, aos poucos, também, conforme as coisas foram voltando, eu voltei também a trabalhar.

Como trabalhadora informal como você descreve seu atual momento profissional?

Agora surgiu a oportunidade de trabalhar fixo e eu peguei, só que começou o lockdown de novo por conta de tantas coisas que aconteceram, da negligência desse governo de lidar com a pandemia, com o colapso das UTIs, as medidas de restrição tiveram que ser retomadas novamente e a minha gerente disse que poderia, talvez, não me contratar por causa disso. Eu continuo indo trabalhar, estou recebendo por dia, e ela está vendo ainda se vai me contratar ou não.

Você acredita que o fato de ser mulher e mãe te sobrecarrega ainda mais do que já seria esperado?

A gente fica duplamente sobrecarregada porque tem todas essas preocupações. O filho fica em casa e você tem que sair para trabalhar e não vai ter com quem deixar ele, porque ele não pode ir para a escola. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho consciência de que as aulas não podem voltar agora. Eu ainda tenho minha mãe que está em casa e pode ficar com ele, mas muita gente não tem. Para quem cuida do filho sozinha está muito difícil, porque tem o trabalho de casa, tem o filho, as tarefas que ele precisa fazer do ensino remoto e tem o trabalho fora de casa também.

Você acha que as mulheres, no geral, foram mais atingidas?

Eu acho que as mulheres foram muito atingidas. Nós ainda disputamos espaço no mercado de trabalho e com as demissões, esses espaços foram diminuindo ainda mais. Muitas mães tiveram que sair de seus empregos por não ter mais com quem deixar os filhos, já que as creches não estão funcionando. E para as que ainda tem seus empregos e fazem dupla jornada de trabalho, fora e doméstico, com as crianças em casa e o ensino remoto da escola, a situação fica sobrecarregada. Eu mesma tive que abandonar a faculdade. Quero priorizar o novo trabalho, priorizar comida na mesa, e se possível, voltar quando tiver condições, quando as coisas estiverem menos atribuladas.

Você é uma pessoa vaidosa? Tem sentido dificuldade em manter uma rotina de auto cuidado durante esse período?

Realmente mudou tudo na minha rotina de autocuidado. Agora estou saindo para trabalhar, mas com a máscara a gente nem sente a necessidade de se maquiar mais. Para mim mudou tudo nessa questão. Não vou dizer que eu relaxei, mas eu não me preocupo mais com as mesmas coisas que me preocupava antes. Justamente porque eu não estou saindo, não estou vendo pessoas. Por conta da máscara você não sente a preocupação de passar um batom, uma base no rosto. E também porque você está sempre em casa, então se acostuma a sempre estar com as roupas do seu cotidiano, é diferente.

*https://noticias.r7.com/economia/pandemia-foi-pior-para-negros-e-mulheres-no-mercado-de-trabalho-26122020

**https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/09/07/participacao-das-mulheres-no-mercado-de-trabalho-e-a-menor-em-30-anos-diz-ipea.ghtml

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