Mãe de jovem morto pela polícia revela sensação de impotência

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A professora Lúcia Solange Bueno perdeu o filho num suposto confronto em 2018; investigação sobre o caso foi arquivada

Nelson Bortolin

Com tristeza, raiva e sensação de impotência. É assim que se sente a professora londrinense Lúcia Solange Bueno, que viu ser arquivado o inquérito aberto para investigar a morte do filho, de 27 anos, baleado por policiais em fevereiro de 2018. “Não poder fazer nada. É isso que me deixa mais doente, não poder fazer nada”, afirma. A Polícia Militar diz que Jorge Alceu Bueno Mariano, envolvido em contrabando, morreu em confronto após disparar contra policiais. Mas a professora tem certeza que as armas foram plantadas na cena do crime e que Jorge foi executado.

Veja relato feito por ela à Lume no ano passado:

“Meu filho sempre foi muito amado por mim e pelo pai. Sempre teve muitos amigos. Ele estudou na mesma escola que eu dava aula até a quarta série. Depois que saiu da rede municipal foi para a estadual, começou a usar maconha e nós ficamos preocupados. Colocamos ele em outra escola e não adiantou. Mas ele fumava a maconha dele tranquilo, não era um dependente.

O pai dele morreu de repente e o Jorge ficou revoltado, triste demais, pois era muito apegado ao pai. Depois, ficou desempregado e passou a fazer transporte de relógios que um policial civil comprava no Paraguai (contrabando). Levava para os chineses em São Paulo. Eu falava para o meu filho para ele parar porque ele ia acabar sendo preso.

Jorge Alceu Bueno Mariano

Mas ele continuou, conheceu outras pessoas e passou a transportar cigarros para uma pessoa muito forte. Depois de fazer uma entrega em Ibiporã, foi perseguido pela polícia e teve de fugir porque estava com R$ 50 mil do patrão. Se escondeu numa casa, mas levaram o carro dele.

O advogado foi tentar tirar o carro do Jorge que estava na delegacia e uma pessoa da Polícia Civil pediu R$ 30 mil (propina) para liberar.

Meu filho contou para um amigo sobre o pedido de propina exigido pela Polícia. Logo depois, esse amigo foi preso e no celular dele a polícia ouviu a mensagem trocada com Jorge, que continha o nome da pessoa que cobrava o dinheiro.

Num dia, foram com helicóptero e tudo na casa do meu filho para prendê-lo (o jovem estava sendo investigado por um assalto que houve na Souza Cruz). Ele estava viajando. A pessoa encostou a arma na cabeça da minha nora e disse para ela que iria ate o fim do mundo atrás do Jorge porque o Jorge tinha sujado o nome dele e a aconselhou a nunca estar no mesmo carro que o Jorge.

Meu filho estava desesperado, tentando levantar dinheiro para pagar a Polícia. Até insisti com ele que iria vender meu carro para ajudá-lo a pagar essa pessoa, pois não aguentava mais ver o sofrimento dele para levantar o dinheiro que ela pedia.

Até que no dia 19 de fevereiro, houve o assalto na Gol, quando levaram os computadores da empresa. O Jorge participou desse assalto, estava dirigindo o carro com a mercadoria que foi roubada. Estava no galpão e os policiais chegaram e executaram ele e os outros três. A Polícia falou em confronto, mas eles nem estavam com armas.

As armas que os policias disseram que encontraram lá, com certeza, foram plantadas no local do crime para justificar o dito confronto.”

Na época, procurada, a Polícia Militar não se pronunciou. Já a Secretaria da Segurança Pública do Paraná enviou uma nota dizendo que “tem como premissa determinar investigação de todo e qualquer caso que chegue oficialmente (canais oficiais) a conhecimento das instituições policiais, pois não compactua com condutas irregulares de nenhum integrante das forças, ou qualquer órgão ligado à Pasta. Sobre os casos em específico, sugerimos à reportagem a procurar as instituições supostamente envolvidas para saber sobre os andamentos.”

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