Saudade…

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Por Antonio Rodríguez*

Você já encarou o horizonte?

Olhou tão fundo dentro dele, que se viu perdido dentro do seu próprio eu com tantas lembranças que nem mesmo todas as palavras que existem seriam capazes de compila-las?

Dentro de todas essas lembranças, algumas delas te tocam mais profundamente, pelo simples motivo de que elas não podem ser recriadas.

As pessoas com quem elas foram criadas já não compartilham mais do mesmo plano que nossos corpos mortais, fazem parte de um plano irreverentemente imortal, cujos sentimentos escapam do nosso controle.

A sensação insubstituível da saudade que nos aperta o peito e nos faz sentir que nem todas as lembranças que possuímos são o bastante. A ganância por dinheiro é pequena se comparada a gana de ter mais e mais memórias.

E isso nem mesmo todo o dinheiro do mundo pode comprar.

Nibaldo e María Teresa.

Esses são os nomes das minhas saudades.

Esses são os nomes de todas as lembranças que eu gostaria de recriar.

São tantas coisas que não cabem em apenas uma poesia (ou prosa poética). Mas podemos começar por aí: o gosto pelas belas palavras e as compilações delas em livros e bibliotecas. Quantas vezes não desejei que você pudesse ler minhas palavras, mesmo sabendo que todas as que já escrevi não passaram pela sua paixão que corre nas minhas veias. Ou quando eu me perdi em minhas próprias palavras de tanto tentar explicar cada átomo que existe no universo desde que o mundo surgiu, acho que veio no DNA do “Professor de Deus”. Ele jamais se perderia em suas próprias palavras enquanto sentava em uma roda com os deuses e discutia os pormenores da criação. Mesmo começando cada frase com um sonoro “não”, como eu faço até hoje, ele me deu o gosto de deliciar cada letra da palavra “Porque”.

E porque o que não se pode fazer atrai mais do que o que se é permitido, essa é claramente uma dúvida que atravessou toda a humanidade, mas nada se compara a mandar o neto comprar 50 reais em sorvete mesmo tendo diabetes. Naquela época os picolés de milho eram mil vezes mais saborosos do que são hoje. Hoje eles têm mais sabor a nostalgia, o mesmo sabor que todos os belos pratos de macarronada. E até consigo imaginar a pontinha dos seus bigodes mexendo graciosamente de satisfação quando eu me vejo diante de um deles.

E uma criança com 5 anos de idade se empanturrando de pimenta? Acho que sempre soube que amava as pimentas mais pelo que elas representam do que pelo sabor que elas evidentemente têm. Sinto falta do “liquidifica” vermelho de tanta pimenta que foi batida nele, mas ainda tenho o mesmo jeito com as panelas de quando você ainda cozinhava para mim. O cantinho do banco na cozinha me trazia tantos cheiros deliciosos que eu ainda tento reproduzir, mesmo nunca parecendo tão bons quanto os que eu experimentei outrora.

Pode deixar que eu também nunca vou esquecer de pôr mais sal do que o necessário na comida, até mesmo antes de provar.

Tanto gosto pela comida me levou a cogitar estudar Gastronomia, mas conhecendo mais mapas que panelas eu acho que a Geografia talvez fosse mais adequada. Foram tantas viagens que elas parecem pertencer mais ao mundo dos sonhos que ao mundo real que eu jurei explorar com você. Casas imóveis jamais terão tanto encanto quanto casas sobre quatro rodas, especialmente se elas forem apelidadas de “Bambino” tudo para poder apreciar milhares de horizontes diferentes, porque paredes de pedra nunca serão tão mágicas quanto paredes de vidro, mas eu ainda sinto falta de encarar a entrada do metrô e uma praça que parecia conter toda e qualquer coisa que se pode imaginar.

É melhor eu parar antes que o computador (que também já foi seu) pare de funcionar devido a tantas lágrimas caindo no teclado, mas eu sinto saudades de vocês Tata e Abuelita.

Já se foram 13 e 8 anos, respectivamente, que eu perdi vocês. E até agora meu peito aperta tão forte como nas noites que eu chorei até não ter mais lágrimas, e acreditem ou não isso é possível.

Então me digam, como um país consegue normalizar 3149 mortes em 24 horas?

Mais de 2 pessoas perdidas por minuto, menos de 30 segundos para chorar cada morte, eu não sei em que universo isso pode ser normal.

Eu não entendo como chorar tantas mortes por segundo possa ser “apenas” mais um dia.

Um dia vamos todos desejar poder lembrar mais enquanto encaramos o horizonte, mas o tempo não corre no sentido anti-horário…

Tata, Abuelita e Bambino

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

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