Fechamento do cerco

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Por Paula Vicente e Rafael Colli*

Os últimos dias nesta terra tupiniquim deixam um gosto amargo na boca de quem conhece um pouco da história. Um gosto distópico, autoritário, ditatorial.

Já ao término da eleição passada dizíamos que 18 mais parecia 64. A fajuta ameaça comunista; o apoio do Mercado, de parte da igreja, da mídia e de parcela considerável da Sociedade (embora o apoio ao golpe de 64 tenha sido efetivamente menor); a alienação estratégica da população; as fake news. Tática conhecida e repetida mais uma vez.

Muito se assemelha mesmo. Os empresários e setores da mídia diziam ser um “mal necessário”, um sacrifício moral para um fim maior – livrar a política e o país do inimigo – naquela época o fantasma do comunismo, agora o PT, o maior partido progressista da América.

Ah, há diferenças, claro. A persona escolhida para representar o inimigo (Jango) era presidente, aqui não, Dilma já havia sido burocraticamente deposta. Sim, há diferenças, naquele tempo o golpe foi duro, houve ruptura institucional abrupta. Nestes tempos, por outro lado, tudo aconteceu de forma vagarosa e com ares de legalidade: o golpe parlamentar, em 2016.

Realmente há diferenças. Em 18, o poder não precisou ser tomado, bastou a propagação de mentiras – contra os candidatos adversários e a favor do militar; bastou muita propaganda negativa na mídia; o apoio do empresariado; a avalanche de igrejas e pastores apoiando o “salvador mitológico” e condenando o “demoníaco” inimigo; bastou contar com a desesperança de um povo sofrido; e, claro, bastou prender o principal adversário político do “messias”. Jango e tantos outros líderes estavam livres, se exilaram. 18 aprendeu com o erro do passado. Pois não, Lula foi preso, não é babaca? Preso ilegalmente, como tem sido provado, dia-após-dias

Pois é, há diferenças, não é mesmo?

– E a democracia? Clamavam os opositores ao sombrio ano de 2018. O barulho, no entanto, pouco ressoava. Os lacaios do neoliberalismo, políticos, empresários e integrantes das grandes corporações midiáticas, que viam no imoral sanguinário a chance de levar o país a um caminho econômico favorável ao capital internacional, acreditaram – e fizeram grande parte da sociedade acreditar – que as instituições freariam a sanha autoritária e violenta do candidato que pregava a morte de mais de 30 mil.

O mal venceu. Os interesses privado e financeiro fulminaram o coletivo; a exploração fulminou os Direitos; o desenvolvimento a qualquer custo fulminou a natureza; o ódio fulminou a razão; o negacionismo, a ciência; a morte, a vida.

Quase 300 mil mortes – sendo que, segundo pesquisa de Cambridge em parceria com FGV-SP, aproximadamente 10% das mortes na pandemia, ou seja 30 mil mortes, seriam culpa direta do Presidente eleito – aquele que seria controlado por notas de repúdio e manobras políticas do centrão.

Não teve AI-1, 2, 3, 4, mas teve boiada passando; direitos humanos se pulverizando; saúde se esvaindo. Educação se calando.

Nos últimos dias, o gosto amargo ressaltado era de AI-5. Pipocaram, em todo o Brasil, casos de tentativa de intimidação e censura de opositores ao Líder Supremo dos germes. Requisições autoritárias do Ministro da Justiça; aberturas de inquérito por Delegados quaisquer; prisões por “guardas da esquina”. Brasil afora, dezenas de opositores foram criminalizados – tudo com base numa lei lá do outro tempo, aquele que espelha este.

É, será que há mesmo tanta diferença?

Os últimos dias foram de fechamento de cerco; uma prova do que poderia ser 2022; do que 18 poderia significar para o futuro e perante o passado. Do fim das últimas diferenças, já quase imperceptíveis, entre os tempos.

Ah! Naquele tempo teve tortura e morte, e agora não! – afirma, em tom provocativo, o lacaio de genocida. Não?

*Paula Vicente e Rafael Colli são advogados especializados em causas de Direitos Humanos, minorias políticas e Direito Penal em Londrina.

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