Ensino remoto: famílias diferentes, impactos diversos

Publicado por

Ensino à distância exige malabarismos de pais e mães que trabalham em homeoffice e angustia os que precisam sair diariamente de casa

Mariana Guerin

Na casa da psicóloga Ana Lilian Marchesoni Parrelli, 54, a adaptação ao ensino remoto não aconteceu naturalmente para suas duas filhas, Catarina, 17, e Veridiana, 14. A filha mais velha não conseguiu acompanhar as aulas on-line e abandonou a escola no ano passado, retornando apenas este ano.

“Ano passado, a Catarina resolveu não fazer o ensino remoto. Assistiu aula uma semana e falou que não iria se adaptar. Ela disse: ‘Mãe, eu não vou fingir, fazer de conta que estou fazendo’. Eu achei legal, achei que era assim que tinha que ser, conversei com o pai dela, ele topou também, então ela não fez. Esse ano ela retomou”, conta a psicóloga.

De acordo com ela, como cada filha tem seu próprio quarto e computador, não foram necessárias muitas mudanças para adaptar a rotina das meninas ao ensino on-line. “Precisamos apenas mudar de operadora porque quando as duas entravam na aula ao mesmo tempo o sinal caía”, diz Ana Lilian, afirmando que não teve sofrimento em acompanhar a rotina de estudos das meninas porque elas são bastante independentes.

“A Veridiana fez o ensino remoto, e como ela fez o ano todo, eu observei um grande esforço dos professores para poder transformar aquele conteúdo num audiovisual que pudesse ser minimamente atrativo e comunitário, que eles pudessem conversar entre si. Acho que os primeiro três meses foram muito difíceis, tanto para os professores quanto para os alunos. Eu percebo que a Veri cansou demais. Sem o recurso da presença, o medo de ficar faltando alguma coisa por parte dos professores e do próprio colégio fez com que eles fizessem muitas coisas, então cansou. Chegou um tempo, a Veri chegou a chorar de não aguentar mais de ficar fazendo, fazendo, fazendo.”

Ana Lilian percebeu, no entanto, que houve disponibilidade da escola de prontamente observar o cansaço dos alunos. “A gente abriu um diálogo, conversamos, todos os pais, e eles mudaram algumas coisas, mas é muito cansativo. No final do ano ela já não aguentava mais.”

“Acho que o lado bom dessa situação toda é a gente perceber que pode ter uma plasticidade e se adaptar às dificuldades. Acho que isso é um crescimento para mim, para elas, tem sido para todo mundo, o que não significa ausência de sofrimento. Sou muito grata aos professores e não sei direito avaliar o que aprendeu, se aprendeu, se vai precisar fazer de novo, se não vai, para dizer bem a verdade, no que eu avalio, isso é o de menos agora, porque a gente tem a vida toda para aprender”, opina a psicóloga que vai manter as filhas em casa até se sentir segura de manda-las de volta às salas de aula quando as escolas reabrirem.

A professora de flamenco Ana Paula Minari, 44, e o bancário Marcelo Rodrigues da Fonseca, 47, modificaram suas rotinas de trabalho para poder auxiliar a filha Letícia, de 9 anos, a se adaptar ao ensino remoto. “Primeiro nós precisamos criar para ela um espaço, um local de estudo mais determinado. Adaptamos a nossa sala de TV para o meu marido trabalhar em home office e ela poder estudar e adaptamos nossos horários. Como ela estuda na escola municipal, ano passado ela teve aula por vídeo, então a gente podia trabalhar com ela na hora que fosse disponível, mas aqui em casa a gente optou pelos horários dela. Como ela estudava de manhã, eu e o Marcelo tivemos que nos adaptar em trabalhar e criar espaço para auxiliá-la nas tarefas nesse horário”, declara Ana Paula.

Rotina adaptada

“Eu acordava e já tentava reunir as tarefas, assistir aos vídeos junto, explicar e depois o Marcelo ia orientando as dúvidas dela enquanto eu dava minhas aulas de flamenco. E quando eu terminava minha aula, eu fazia a correção e enviava as tarefas prontas. Isso gerou novo horário de almoço, mais tarde. E o Marcelo trabalha com um olho no peixe e outro no gato, tem que fazer essa divisão no tempo dele de trabalho também para auxiliar a Letícia.”

Para Ana Paula, uma coisa boa é que a família ficou mais próxima. “A gente começou a perceber onde ela precisava de mais atenção, onde precisava treinar mais, o que faltava, pesquisava com ela, acabou unindo a gente um pouco mais.”

Mas a adaptação não foi nada fácil: “A gente teve que deixar muitas coisas nossas de lado para poder dar essa atenção para ela nesse momento. Esse ano eles têm aula on-line três vezes na semana, então a explicação da matéria fica por conta da professora, mas ainda tem esse tempo de eu fazer a correção das tarefas, tirar dúvidas quando ela vai fazer a tarefa sozinha depois que aula já aconteceu, a gente ainda continua com esse apoio. Uma parte do nosso dia fica dedicada somente a isso”.

Marcelo percebeu um despreparo dos pais para auxiliar as crianças no ensino remoto, algo que ele teve que lidar pessoalmente. “Acho que faltou um treinamento direcionado aos pais pelos professores, porque os pais se tornaram novos orientadores. Talvez tivesse sido interessante direcionar algo aos pais para explicar principalmente os limites do que você deve exigir nas tarefas e eu ainda me sinto privilegiado porque tive contato com conceitos e princípios didáticos durante a faculdade, mas eu sei que a maioria dos pais não teve. Então se eu tive essa dificuldade, provavelmente ela não foi só minha.”

Letícia também tem dá opinião sobre estar isolada em casa há um ano: “O que estou gostando de estudar em casa é que eu tenho ajuda dos meus pais. O que eu não estou gostando é que eu fico longe dos meus amigos e da professora e on-line tem coisa que não dá para fazer”.

Um ano jogado fora

Para a atendente de restaurante Cristiane Maria Eufrásio, 2020 foi um ano escolar perdido. “O ensino remoto, para mim e para as mães que eu conheço, tem sido um pesadelo, porque a gente precisa trabalhar. Agora, mais do que nunca, a gente precisa dobrar o tempo de trabalho porque a situação tá feia e, quando em casa, ainda tem que ensinar as crianças”, desabafa.

Cristiane tem três filhos em idade escolar: uma menina de 9 anos, um de 14 e um enteado de 16. “São três e eu chego em casa e tem tarefa para fazer e nem todo mundo tem celular”, relata.

“Adaptação por parte deles teve porque para eles é cômodo. Para ir para a escola tem um horário, eles precisam cumprir certinho o horário das matérias, e em casa eles não fazem isso e, na minha opinião e de todas as mães que trabalham comigo ou com quem eu converso é que o ano passado foi um ano jogado fora. Só os pais que aprenderam”, diz Cristiane.

Segundo ela, “a gente chega em casa e precisa procurar matéria, pesquisar para responder alguma coisa, porque o horário da aula é o horário em que a gente está trabalhando”. “Nem todo mundo tem vários celulares, aqui eu tenho três crianças estudando e dois celulares disponíveis e um é o meu. Meus filhos não têm computador, por exemplo, o que torna bem difícil”, conta.

Para ela, o ano letivo de 2021 já começou mal. “A maioria das crianças deixa quase tudo para o último dia, faz as matérias correndo para mandar para a escola, então estudar em casa não está sendo legal mesmo, está sobrecarregando muito a gente.”

“O jeito como a professora explica pelo celular é diferente de quando você está na sala, não tem como tirar dúvida porque o horário de tirar dúvida não bate com o horário que a gente está em casa, então a gente tenta entender o que a professora falou e começa a pesquisar para tentar entender o que significa. Tudo a gente explica além do que a professora explica porque não é suficiente, então acaba que todo dia quem tem que parar para fazer isso somos nós, mesmo com muitas outras coisas para fazer”, lamenta a cozinheira.

Para ela, aulas remotas não funcionam para mães que trabalham fora. “Quando chegou no final do ano passado que eles falaram ‘passei’, você fica meio assim, porque passaram de ano mas eles não mereceram. Quem passou de ano mesmo foram os pais, que passaram o ano debruçados nos cadernos, nas apostilas, nas pesquisas. Para mim, foi um ano jogado fora.”

Cristiane é a favor do retorno das aulas presenciais. Para ela, a escola é um ambiente mais protegido que em casa, já que os pais ficam a maior parte do dia fora e não conseguem ficar de olho nos filhos. “Eu acho que nenhuma criança fica 100% dentro de casa. Eles saem, vão jogar, vão para a casa da avó, dos amigos. Na minha opinião, se uma criança for para escola e levar um álcool em gel e não precisar ter o recreio, se elas forem de máscara e ficarem uma longe da outra, elas dão conta de cuidarem delas mesmas”, declara.

“Todas as mães que trabalham e dependem de uma escola e de uma creche estão a favor das aulas voltarem. É raro eu ver uma mãe dizer que gostou que o filho ficou em casa”, finaliza Cristiane.

Deixe uma resposta