O desenho do colapso

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Gestores da saúde convocam a população a ouvir a verdade sobre a crise do sistema e contribuir efetivamente na contenção da covid-19

Cecília França

Autoridades de saúde convocaram a imprensa de Londrina na manhã desta sexta-feira para “desenhar” a gravidade do momento epidemiológico que vive a cidade e região. Em coletiva promovida pelo Ministério Público, integrantes do chamado comitê de crise cobraram responsabilidade da população para a contenção do vírus. Cada fala dos gestores de hospitais deixa óbvio que estamos próximos do caos, e a diretora do Hospital Universitário (HU), Vivian Feijó, decreta: “Não podemos mais brincar com o risco do colapso, porque ele já está existente em algumas horas”.

No dia 5 deste mês a diretora já havia decretado o colapso do sistema de saúde local em resposta a questionamento da Lume. Naquele dia 63 pacientes aguardavam vaga em UTI adulto na unidade, mesmo número desta sexta-feira. “Não há leito disponível no Hospital Universitário, não há leito disponível na rede privada. Há um esgotamento de medicamentos e de material médico hospitalar”, explica.

Para se ter uma ideia da gravidade do momento, antes da pandemia o HU trabalhava com demanda reprimida de oito pacientes esperando por UTI e estes acessavam os leitos em 24 horas. “Hoje a média de permanência para acessar uma UTI é mais de 3.86 (dias). A cada hora aumenta a chance de 40% de óbito para esses pacientes”, afirma a diretora.

Fahd Haddad, superintendente da Irmandade Santa Casa de Londrina (Iscal) completa: “A rede está colapsada e cada um tem que assumir a sua responsabilidade, porque os profissionais de saúde, a rede de saúde e prestadores não estão mais conseguindo atender aquilo que é digno de um ser humano, pelo excesso de procura. Esse é o nosso apelo: para que as pessoas nos ajudem a nos manter abertos, porque daqui a pouco nós vamos ter que fechar as portas”.

“Temos que enfrentar outro vírus, o vírus da ignorância”

Fahd Haddad

Há três dias Londrina vem registrando 14 óbitos diários por covid-19, ultrapassando a marca das 900 vidas perdidas. A promotora de saúde Susana de Lacerda fez uma triste comparação durante o evento, que aconteceu em um anfiteatro da Universidade Estadual de Londrina (UEL): “Estava me lembrando que o Teatro Ouro Verde comporta 750 pessoas. Os mortos nessa pandemia não caberiam no nosso querido Ouro Verde”.

O reitor da UEL, Sérgio Carvalho, revelou que servidores da universidade estão sendo alocados para o HU e ressaltou a importância de que a comunidade cumpra as medidas de prevenção contra a disseminação do novo coronavírus. “Nós estamos acéfalos nacionalmente na gestão da pandemia”, declara.

Gestores da saúde em coletiva nesta manhã

A chefe da 17ª Regional de Saúde, Maria Lúcia Lopes, informou a chegada de mais 188 mil doses de Coronavac e 38 mil da Oxford/AztraZeneca hoje ao Estado. A distribuição para as regionais deve ocorrer amanhã, com Londrina recebendo 12.700 doses. “A expectativa é que todos os idosos e trabalhadores da saúde sejam vacinados, mas todos esses esforços não serão suficientes”, diz ela.

“Só quem viveu uma pessoa que ama com covid, quem perdeu uma pessoa que ama, ou teve covid sabe o grau de sofrimento que isso agrega à família, às pessoas”

Maria Lúcia Lopes

Negacionismo

Mesmo diante desse cenário, há quem ainda saia às ruas em defesa de tratamentos não comprovados cientificamente e contra o uso de máscaras. As manifestações ocorridas nos dois últimos domingos na cidade foram alvo de exaltadas críticas do prefeito Marcelo Belinatti, presente na coletiva.

“Eu não sei o que aconteceu com as pessoas, parece uma lavagem cerebral. Parece que está todo mundo louco. A pessoa vê discurso de político dizendo que tem que tomar isso e não toma vacina. Infelizmente chegamos nesse ponto. A população tem que entender é que não resolve”, afirma. Belinati foi um dos primeiros a cobrar responsabilidade da população sobre as medidas restritivas e descartou um lockdown isolado na cidade.

“As pessoas precisam tomar consciência, só que aí você vê festa, você vê balada, aí a culpa é do prefeito? Se o cara não tem responsabilidade para cuidar dele mesmo, isso é uma vergonha. A responsabilidade é de cada um”, declara o chefe do executivo.

Muitos parecem ainda não ter entendido. Mesmo com o toque de recolher em vigor no Estado, o índice de isolamento passou pouco dos 30%. Geraldo Junior Guilherme, diretor do Hospital Zona Sul, ouve dos pacientes as causas da contaminação e confirma que elas acontecem com mais frequência em aglomerações desnecessárias. “Eles contam como se contaminaram: festas em família, churrascos, festas em chácaras…”.

Reilly Lopes, diretor geral do Hospital Zona Norte, diz que a unidade, apesar de ser de média complexidade, mantém pacientes intubados. Todas as cirurgias foram canceladas para preservar o estoque de medicamentos e suprimentos. “Nesse momento a gente está tendo que ser criativo”, declara.

Propostas

Susana de Lacerda sugeriu estratificação dos horários de trabalho para evitar aglomerações no transporte coletivo. De acordo com ela, o isolamento social precisa ultrapassar 50% para ter impacto na curva de contaminação. “O MP tentou adotar medidas restritivas no início e o município recorreu ao STF dizendo que tinha autonomia. Quem tem autonomia tem responsabilidade”, cobra ela.

“O que temos que fazer, coletivamente, é achar meios de combate que possam minimizar e diminuir a curva de contaminação. Ninguém pode achar que vai acabar com a covid-19 restringindo o isolamento social. O que precisamos é diminuir a circulação do vírus e de pacientes nas portas dos hospitais”, diz Vivian Feijó.

“Nunca vivi uma situação de pressão, de exaustão, como nos três últimos fins de semana”

Vivian Feijó

Ela sugere que formadores de opinião e líderes locais se engajem na divulgação das medidas de combate. “O engajamento das pessoas através do seu comportamento, da orientação da sua família, do seu vizinho, dos seus colegas e no seu trabalho é um dos mecanismos mais importantes”.

Rodrigo Bettega, gerente médico do Hospital Evangélico, destaca que não adianta abrir mais leitos, cada leito abre para já ser ocupado”. Para ele, as pessoas precisam ser responsabilizadas individualmente por atos que violem decretos restritivos e de saúde. “Tem sido altamente efetivo na Espanha. A pessoa aprende quando dói no bolso”, declara.

Auxílio

Ao descartar novos fechamentos de atividades econômicas, Marcelo Belinati defendeu o “direito ao trabalho” por diversas vezes. Perguntado sobre a possibilidade de concessão de algum auxílio emergencial municipal – nos moldes do que foi criado em Maringá – que possibilite às famílias de baixa renda manterem-se isoladas com mais segurança, o prefeito declarou que Londrina fez isso no início da pandemia.

Ele se refere ao Benefício Eventual Emergencial, que já existia e teve seu valor aumentado de R$ 92 para R$182. De acordo com o prefeito, desde o início da pandemia foram distribuídas pelo município 271 mil cestas básicas para famílias vulneráveis.

Dados

Durante a coletiva, Felipe Remondi, chefe de Vigilância em Saúde da 17ª Regional de Saúde, apresentou os dados epidemiológicos mais recentes da região, composta por 21 municípios. Segundo ele, o cenário é de “estabilização em níveis altos”. A taxa de positividade dos exames, que já chegou a 45%, está hoje em 32%.

Hoje, 134 pacientes aguardam leitos exclusivos covid na região. Ele destaca que a situação de colapso diminui a qualidade da assistência ofertada aos pacientes. “(A gente) começa a manter pacientes em hospitais de menor complexidade”, explica.

Remondi diz ser difícil traçar projeções, mas ressalta que a presença das variantes P1 e B117 estão alterando o cenário epidemiológico e lembra que “quando se interrompe a circulação viral, demora de 20 a 30 dias para sentir o efeito”. Ou seja, temos que começar agora.

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