Página em Branco

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Por Antonio Rodríguez*

O exercício semanal
De encarar uma folha em branco
E saber que algo se esconde sob ela
Como se fosse escrito com limão
E eu a luz destinado a desvelá-la.

Essa folha que pode carregar de tudo
Uma palavra de amor
Vinda do mais fundo recanto do meu coração
Guardada como vinho, maturando
Esperando a hora certa de aparecer
E ser por fim dedicada à lua.
Minha lua.
Meu pingo de lua.
(Vocês que fiquem com todos os outros, este é meu.)
Ou uma palavra de dor
Alimentada por todas as injustiças
Abastecida por todo o ódio destilado em palavras
Consumida como fogo
Pelo pavio da desesperança
E pela faísca da mudança.
Até mesmo palavras de ódio
Buscadas em meu âmago
Despejando toneis de lixo tóxico
Tão intrínsecos à minha alma
Que ela se esvai junto
Reflexo dessa sociedade podre.

Encarar uma página em branco
Que contém tudo que eu não sei
Que sabe tudo que eu desejo
E anseia pelos mesmos temores
Só que um por medo do que eles trarão
Outro pronto a se banhar na inspiração que ele contém
Esse paradoxo que se banha na inspiração
Mas ao contrário de Aquiles,
Deixa bem mais que só um calcanhar fora dele.

Parece incrível como esse movimento semanal
Quase tão previsível como a translação da Terra
Ainda seja tão instigante
Tão necessário à minha sobrevivência.

Mesmo sem saber o que se passa
Ou saber no que resultará
Ela acontece
Eu aconteço.

E assim como um passe de mágica
Ela surge
Sem saber como nem onde
Eu me sinto cansado
Como se tivesse corrido 4 maratonas
Sem sair do lugar
Ou sequer mover algo além dos meus dedos
Mas cá está ela
Acabaste de desfrutar de mais uma página em branco
Colorida artificialmente por alguma mente
Escrita naturalmente
Por um conjunto de ossos, músculos e tendões.
Admirada intelectualmente por uma mente brilhante
Capaz de compreender além do que o poeta escreveu
Ver além do que o obturador capturou.

Quando eu me saturo de tantas inspirações, de repente escrever sobre elas, ou o efeito que elas causam sobre você parece uma boa ideia. Fugir do tradicional ódio ao governo e a tantas mortes diárias, ou fingir que o mundo é belo enquanto pensamos se sequer teremos o suficiente dele para a próxima geração, ou mesmo refletir sobre qualquer coisa nova sem se preocupar se em tantos e tantos anos de história da humanidade ninguém sequer jamais pensou o mesmo. Ser inovador é complexo.
Mas quando se pensa que existe uma teoria matemática que diz que um número finito de macacos, trancados em uma sala por um tempo infinito, enquanto digitam qualquer baboseira aleatória sobre as quais macacos pensem, podem resultar na compilação completa de todas as obras de Shakespeare em ordem de publicação, percebe-se o quão insignificante é sua existência.
Mas adeus, porque preciso fechar a porta do quarto dos macacos de novo.

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

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