Do queer ao cu: uma deculonialidade necessária

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Por Régis Moreira*

As questões da sexualidade e gênero são éticas e políticas. É do campo do direito ao existir e resistir à lógica sistêmica capitalística e patriarcal de negação dos direitos sobre os corpos, sobre as vidas, das maquinarias reprodutivas de controle das dominações e do poder, em lógicas normativas que julgam certas vidas valerem menos que outras, que se enquadram nas normas capitalistas, neoliberais, religiosas e morais. As vidas que fogem a esses encaixotamentos, são estigmatizadas e consideradas menos, descartáveis, sem direitos, imprestáveis, monstruosas, defeituosas. Considerados diz-sonantes, assim são considerados pela boca do outro, do colonizador, que verticalmente determina e valida a valoração das existências.

As maquinarias de gênero, casamento, mercado de trabalho, política representativa, universidades e escritas de teses e livros na produção dos saberes… são marcados pelas lógicas excludentes dos gêneros que julgam valer menos ou não valer. Poderíamos discorrer com inúmeros exemplos, mas vou me ater sobre a negação da igreja católica em abençoar o casamento de pessoas do mesmo sexo. Ou seja, no alto de seu poder vertical numa relação pretensa diretamente ligado a um deus, que tudo vê, tudo julga e que determina os eleitos para o céu e para o inferno, a igreja negou a benção à união que considerada pecado, reiterando a culpa novamente, nas discursividades historicamente construídas e reforçadas por instituições de controle e poder.

Não vou aqui discutir fé, nem a existência de um deus da lógica monoteísta, nem as fogueiras da santa inquisição, ainda acesas e prontas para queimar socialmente as pessoas que não se assujeitarem às regras; nem as noções de pecado e o julgamento do que merece e não merece as bençãos divinas, mas criadas por lógicas construídas por homens, que dirigem e controlam a instituição igreja católica, uma das mais ricas do mundo. E que amor precisa de benção de instituição como esta? Amor é amor. Já abençoado por ser amor. Já é sagrado por ser amor. Isso para os que acreditam em bençãos e no sagrado.

Essa lógica, que reitera discursivamente a valoração dos corpos, a partir do imperativo heteronormativo, sexista, branco, machista, patriarcal, com régua colonizadora cultural e política europeia, estadunidense, do norte geopolítico, que cria categorias de Homem e de Mulher, a partir de discursos cristãos, capitalistas, de exploração. Essas são as marcas de nossa colonização – somos corpos exploráveis – selvagens exploráveis – serviçais do mundo, desde a primeira narrativa de Pero Vaz de Caminha sobre os povos originários, que assim nos viu. Essa categoria selvagem de macho e fêmea, e uma imposição normativa de categorização do que venha a ser Homem e Mulher, calcada em normas que não nos cabem, num binarismo cisgênero falocêntrico, que ameaça os/as que não se enquadram, exclui esses corpos, os nega e os mata de diversas formas desde então.

A lógica Queer vaza e amplia as políticas identitárias em suas interseccionalidades de raça, etnia, gênero, faixa etária e classe – todas elas também construídas num sistema de manutenção de poder político e monetário, de controle do mundo por meio dos corpos. No Brasil, podemos pensar que as políticas identitárias muitas vezes ainda são necessárias, pois os corpos são cruelmente marcados e categorizados a partir destas identidades pretas, LGBTQIA+, indígenas, femininas, deficientes, gordas, pobres, periféricas… A política de alianças, a partir das identidades, muitas vezes mobilizam os movimentos de resistência para a sobrevivência, para luta e garantia de direitos, perpassando as semânticas até as discursividades, que são materialidades e ações, acessos, até chegar à cidadania, à florestania e participação plena de vidas valoradas e vivíveis. Porém, a política identitária é um bom começo, mas não é um bom lugar de chegada, uma vez que somos transversalizados por diferenças, na interseccionalidade de diversas diferenças na pluralidade das categorias identitárias.

Neste sentido, a Teoria Queer se apresenta para questionar as identidades formatadas, que muitas vezes correm o risco de normalizar e normatizar práticas fascistas em seus interiores, como vemos, o que chamo aqui de gay-normatização. Aquele padrão de relacionamento homossexual que se adequa às normatizações heteronormativas, no que a ela se assemelha, com lógicas que buscam se enquadrar no socialmente, juridicamente, moralmente, ideologicamente e religiosamente aceito, vide a busca pelas tais bençãos já mencionadas anteriormente. Neste sentido, ainda vemos Paradas LGBT tendo como lemas a Família, por exemplo, mas num modelo familiar ainda socialmente construído por laços sanguíneos e como célula social, arcaicas e tradicionalmente construídas para perpetuação de lógicas de alianças capitalistas de tradição e propriedade.

A Teoria Queer possibilita lugar aos que não conseguem lugar, nem nas próprias pautas identitárias. Apresenta um nomadismo, como bem retrata Linn da Quebrada em seu filme, Bixa Travesty. O queer é trans, transita conforme vida em fluxo. O queer não cabe nas categorias identitárias, nas classificações hetero/homo/bi/pan/assexuais…O queer é a possibilidade de reconhecimento enquanto humanos e de desnormatizações em nós, o que foi e ainda nos é imposto pelas tais discursividades reiteradas do que seja correto, belo, aceitável, cristão, de bom gosto, bem sucedido. O bizarro de cada um de nós é contemplado no queer. Você já encarou sua face bizarra hoje? O seu não normativo? O seu lado monstro? Não aceitável? Ou está tão normatizado, que nem consegue reconhecer as diferenças, as diversidades? Isso o queer também possibilita.

Porém o queer não é uma roupa estadunidense/europeia/do norte, que vestimos sem ajustes, senão, também vira camisa de força. A deculonialidade do queer para nossa realidade latina, brasileira, como uma possibilidade que contemple as nossas diferenças específicas, singulares e diversas dos nossos territórios e contextos. Para tanto, alguns autores defendem uma Teoria e uma Política CU-IR ou do CU. E se tem cu, é indicativo que tem corpo e tem cabeça. Na colonização geopolítica da produção do saber válido e das bocas que validam as vidas, quem diz sobre os corpos são os países do norte, geopoliticamente localizados no norte, ditando regras para os países do sul. Numa analogia à geografia dos corpos, as cabeças ditando regras para o cu. E a supervalorização dos membros superiores aos do baixo-ventre.

Faz-se necessário, antropofagicamente, deglutir o queer e reinventá-lo CU-IR, CU, para reconhecermo-nos nele. Como filosofa Linn da Quebrada, no Bixa Travesty: “O meu cu, eu sinto que foi um centro de força, que irradiou, que foi responsável por uma rede de nervos, que fez com que eu me conectasse com meu corpo inteiro. Acho que os cachorros e os animais são espertos, porque eles vão logo é no cuzinho pra se conhecer, vão logo cheirar ali, porque sabem que ali é o reduto, é onde, o que você menos quer encarar, e quando você encara ali, está grande parte do que você já deveria conhecer”. Já, Paul B. Preciado, declara, em sua obra Manifesto Contrassexual: “Pelo ânus, o sistema tradicional da representação sexo/gênero vai à merda”. E eu complemento o fator democrático e horizontal e político do cu, que nos coloca em pé de igualdade existencial, pois é exatamente ali que todes nós cheiramos igual.

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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