Famílias do Flores do Campo enfrentam crise e medo do despejo

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Crise econômica agrava vulnerabilidade das mais de mil pessoas que vivem na ocupação e sonham com a casa própria

Cecília França

Em meio à poeira das ruas, os esqueletos de cimento lembram o que o Flores do Campo deveria ter sido: um residencial com saneamento adequado e asfalto onde mais de mil famílias de Londrina poderiam viver com dignidade. A paralisação da obra do programa federal Minha Casa, Minha Vida, em 2015, e a posterior ocupação por milhares de pessoas, no ano seguinte, já dura mais de quatro anos, sem solução à vista. Com dificuldade de acesso a serviços básicos, os moradores relatam abandono.

Só crianças são mais de 230 vivendo no “Flores”. A Cohab identificou 322 famílias; os moradores falam em quase 500. Logo no início da ocupação chegou a funcionar no local uma creche voluntária. A falta de recursos e o iminente risco de reintegração fez morrer o projeto. Com a falta das aulas presenciais desde março do ano passado, a missionária Simone Cordeiro, 48, acolhe algumas crianças em casa para as mães poderem trabalhar. Quando estão todas são 13; no dia da nossa visita eram sete.

Simone diz que a pandemia aumentou o volume de doações de cestas básicas para os moradores e dá para garantir o arroz e o feijão. Já carne é item raro. “Carne é muito difícil. Hoje eu comprei três bolas de mortadela, que estava nove reais cada”.

“Acontece as coisas na minha vida. Não tenho comida, não tenho dinheiro, mas todo dia cedo tem quatro, cinco pessoas pra comer aqui e o Vicente (que divide a casa com ela) consegue manter na reciclagem”, conta a missionária. “As mães me dão um dinheirinho por dia e eu compro a comida deles e não preciso arrecadar. Hoje também comprei um chinelo para cada um”. Na hora da foto, os meninos a abraçam, todos com os chinelos roxos nos pés.

Ana Santos, 41, acaba de abrir um quiosque dentro do Flores para poder sobreviver. As viagens a trabalho do marido, gesseiro, garantiam uma renda extra, mas pararam durante a pandemia. “Meu filho do meio agora conseguiu um emprego, mas ele também está correndo atrás das coisinhas dele, dá uma ajudinha mínima em casa”, conta ela, que vive com marido, dois filhos e uma tia.

No ano passado, o auxílio emergencial ajudou na sobrevivência da família. O sobrado inacabado ganhou acabamentos e decoração que o diferenciam dos esqueletos de cimento. Em frente ao quiosque, porém, a terra incomoda. “A gente perdeu tudo que tinha aqui, lixeiro, ônibus, até o SAMU às vezes não entra. Se chover então e você precisar de alguma coisa, esquece”, reclama Ana.

“O povo aqui é sofrido. A gente está praticamente largado”, acrescenta. Todo sábado um pastor voluntário leva verduras como doação para as famílias. É o que garante uma refeição diversificada durante a semana. Carne é coisa rara. “Eu comecei aqui (a lanchonete) porque estava me faltando até o arroz para comer e dar para os meus filhos”, afirma a comerciante.

Ela ajuda os vizinhos como pode. O pãozinho, por exemplo, vende pelo preço que compra. “Aqui é tão difícil até comprar um pão. Tinha que subir lá na avenida”. Ana morava com a família no Conjunto Maria Cecília e há quase 5 anos, quando o marido perdeu o emprego e eles não conseguiram mais pagar o aluguel, se mudaram para o Flores do Campo.

Com Simone aconteceu situação semelhante. “Eu estava pagando muito caro no aluguel, subiu para 700 reais e eu não podia pagar. Aí o homem deu voz de despejo pra nós”, lembra. Hoje ela ocupa duas casas que reformou para transformar em uma.

De acordo com a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), o transporte coletivo para na estrada principal e não desce mais no Flores por causa da má condição da estrada. Quanto à coleta de lixo, a empresa diz que está mantida às terças, quintas e sábados. O caminhão foi substituído por uma caminhonete.

O sonho da casa própria

Regiane Montier, 39, mora no Flores com a filha Beatriz, que tem deficiência. Aos 22 anos, a jovem brinca de bonecas como uma menina e precisa de acompanhamento de diversos especialistas. “A gente tinha mais condição de vida, eu e o pai dela, pagamos fono, diversas terapias para ela ter uma qualidade de vida melhor. O médico falou que ela ia ‘vegetar’, e hoje ela fala e anda, com dificuldade”, conta a mãe.

Segundo Regiane, em uma visita da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab) foi ofertada a ela a possibilidade de um aluguel social. “Eu não vou sair daqui sem a minha casa. Eu ganho só mil reais, tem água, luz, a van dela ir para a Apae, vai sobrar o quê? E a Beatriz tem que ter uma alimentação igual de uma criança que os pais têm condições de dar uma vida boa. Se eu for pagar aluguel como eu vou dar essa vida para ela?”, argumenta.

Com a pandemia, as dificuldades de Regiane e Beatriz aumentaram. A mãe teme pela saúde da filha, que tem problemas cardíacos. “Eu me cuido, cuido dela, compro álcool, evito sair de casa. Mas e as outras pessoas? Não dá nem para ir no mercado, tem que ir a pé e ela não aguenta muito”, relata. “Eu gosto daqui porque o pessoal é unido, é um pelo outro. Mas é tudo longe, não tem asfalto…”, lamenta.

Simone também gostaria que a situação dos moradores fosse regularizada. Ela tem o sonho de abrir um projeto social na casa onde vive, com padaria, salão de cabeleireiro e um quarto de costura. Uma forma de ganhar a vida, oferecer serviços baratos para os moradores e ajudar a formar mão-de-obra. Mas a falta de recursos se soma à incerteza da permanência no local.

“A casa é super boa e eu recomendaria que cada um ficasse na sua. A Cohab dava água e luz pra gente pagar, que todo mundo aqui é trabalhador, esforçado, e cada um terminaria a sua casa. Regularizava nós todos”, opina.

Local precisa ser desocupado, diz Cohab

O diretor presidente da Cohab, Luiz Cândido de Oliveira, diz que a companhia busca soluções para as famílias do Flores do Campo antes que a reintegração de posse seja cumprida. O último despacho determina que a ação ocorra após a pandemia. “Eu já participei de processos de reintegração, é traumático, ninguém gosta de fazer. A melhor coisa é o acordo. Estou trabalhando intensamente para que isso ocorra.”, garante Oliveira.

De acordo com ele, em visita recente à ocupação foi apresentada a possibilidade de um auxílio moradia de R$ 300 por 12 meses para cada família. “Uma vez desocupado o empreendimento, a Caixa já toma conta do local e vão fazer a valoração, licitar e terminar as obras. A gente está oportunizando uma alternativa. Estou indo a Curitiba para ver se consigo esse recurso, mas de nada adianta se só uma parte das famílias aderir”, explica.

Ele lembra que as obras são de responsabilidade da Caixa, com recursos do Governo Federal, e que cabe à Cohab selecionar as famílias. A paralisação em 2015 aconteceu quando a empresa responsável entrou em falência, após atrasos em repasses dos recursos. Segundo Oliveira, esta é a única obra de habitação federal paralisada no Paraná. Fizemos contato com a Caixa, mas não recebemos retorno até o fechamento da reportagem.

De acordo com a Cohab existem 68 ocupações em Londrina que abrigam 4 mil famílias, cerca de 12 mil pessoas. Apenas no Flores do Campo devem ser finalizadas 1.218 moradias.

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