Enterra de cego quem tem um olho errei

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Por Carlos Monteiro*

O pior cego é aquele que não quer ver e ler, não quer ouvir a voz da razão. Nem todo aforismo se faz visível nas bandas de cá. O senhor da razão parece viver uma certa magia entorpecedora do “Senhor dos Anéis” que se foram. E os dedos?

Talvez não seja o melhor momento para filosofar, mas parece que estamos, atualmente, vivendo mergulhados em uma miscelânia literário-filosófica. Um misto de Gabriel García Márquez em “Cem anos de Solidão”, Milan Kudera em “A Insustentável Leveza do Ser”, “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago e “A República” de Platão com toques de Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. Parece loucura? Talvez seja.

A sensação é que estamos tomados, já há algum tempo, por um “realismo fantástico”, em um filme steampunk, cujos personagens se misturam com a realidade nua e crua e devaneios utópicos. O Brasil se transformou em “Macondo” e parece estar dominado por “Buendías” com “Macunaímas” por todos os lados. Estamos ilhados!

Tudo indica um ciclo vicioso em que estamos, nesse moto-contínuo, dedicados em fabricar peixinhos de ouro, derretendo-os, voltando a fundi-los novamente, começando absolutamente do zero, numa sequência infinda, perfeito buraco negro espacial om intensa ação gravitacional. Nada escapa!

A nossa Macondo é um país abandonado, banhado em água ardente, rodeado por formigueiros, prestes a ser arrasado pelos ventos sudoeste e apagado da memória humana. Vivemos pandemias de sono, amnésia permanente, de cegueira incurável. Achamos que não dormimos no ponto, que não há cansaço, mas, o fato é que os ônibus têm passado batidos. Estamos, cada dia mais, ficando para trás. Perdendo o bonde da história, caminhamos em direção contrária ao progresso. Com o tempo, as memórias das terras tupiniquins vão se tornado leves lembranças, quase uma epidemia de Alzheimer coletiva.

Um “Primeiro Cego” vem contaminando, outro cidadão que contamina mais um e mais outro, em efeito cascata. Um sanatório geral quarentenado, uma caverna alegórica, em que a discordância e a insensatez, mais cedo ou mais tarde, se farão mais ativas e altivas. Uma única águia não fará verão. Quando a fogueira, inclusive, das vaidades, se apagará? Onde andará o conhecimento pleno da verdade? Sócrates e Glauco; quem terá razão? Ou, o coração tem razões que ela própria desconhece? Será que todo amor pelo país é platônico?

“…Estirpes condenadas a cem anos de solidão não têm uma segunda oportunidade sobre a terra”, porque “somos inteiramente responsáveis por nosso passado, nosso presente e nosso futuro”, assim nos colocam García e Sartre. Tudo é insustentável, nada parece real… talvez porque “aquilo que não é consequência de uma escolha, não pode ser considerado nem mérito nem fracasso, mas, o contrário sim. Kundera vai além: “só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”.

Fica a pergunta que, feita por Nietzsche, não quer calar: “Você viveria sua vida mais uma vez e outra, e assim eternamente? Se fosse condenado a viver a mesma existência infinitas vezes, e nada além disso, como se sentiria?

A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”. puro Bruxo do Cosme Velho em “O Alienista”.

De perto ninguém é normal? Nem de longe…

Filosofei.

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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