Oscar espelha os reflexos da pandemia na indústria cinematográfica

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Salas vazias, crescimento dos serviços de streaming, diversidade retratada nas telas: o modo de consumir cinema mudou e a forma de fazer também

Mariana Guerin

Tivemos no último domingo (25/4), na edição de número 93 do Oscar, principal premiação do cinema mundial, a segunda mulher a vencer a categoria de Melhor Direção na história de Hollywood. Chloé Zhao, chinesa nascida em Pequim em 1982, surpreendeu a academia com seu Nomadland.

O longa, inspirado num livro-reportagem sobre idosos que vivem em automóveis nos Estados Unidos, tem Frances McDormand – vencedora na categoria Melhor Atriz – atuando ao lado de não-atores que interpretam a si mesmos. Com trajes um tanto informais para a ocasião, pouca maquiagem e cabelos naturalmente penteados, a duas vencedoras fizeram discursos suscintos para uma plateia espaçada, num ambiente típico de um momento pandêmico. Mas a mensagem delas já havia sido transmitida no filme: como a precarização do trabalho se aproveita das pessoas, especialmente dos idosos.

Se no ano passado, a cerimônia foi restrita localmente a poucos e bons, com muitos artistas desfilando seus figurinos glamurosos nos quintais de suas casas porque os Estados Unidos viviam o auge da propagação do novo coronavírus, este ano a Academia investiu um pouco mais na festa. E resolveu premiar a diversidade. Nunca se viu tantas pautas humanitárias serem indicadas num único Oscar. E muitas delas vencedoras. Talvez porque a debandada do público dos cinemas tenha proporcionado um novo olhar para produções antes ignoradas pelos grandes estúdios.

Os maiores vencedores do Oscar 2021 foram Netflix, com sete estatuetas, Searchlight, com três, Warner, 3, Amazon Studios, 2, Disney Pixar, 2, Sony Pictures Classics, 2, Focus Features, 1, e A24, 1. Só isso já mostra a força do conforto do sofá versus o escurinho das salas de cinema, mesmo que tudo mude após a vacinação em massa proporcionar aos cinéfilos a volta à programação normal de telão e pipoca.

Para a cineasta paulista Marina Stuchi, 38, doutora em estudos literários, as indicações deste ano foram bastante ecléticas. “Novos conteúdos e maneiras diferentes de se pensar o audiovisual estão presentes nos filmes indicados. Em muitos deles, as minorias são representadas, mas a partir de uma nova perspectiva, com um olhar mais apurado e menos tendencioso. Acredito que a pandemia influenciou diretamente a premiação, uma vez que a maioria dos filmes concorrentes foram lançados em serviços de streaming, já que os cinemas estavam fechados no mundo todo”, comenta.

Ela reforça o fortalecimento do streaming, “como é o caso da Netflix, líder absoluta no Oscar, com 35 indicações”. “Acredito que a grande indústria não desapareceu, apenas se modificou. O olhar mais inclusivo se dá devido ao contexto sócio-histórico no qual estamos vivendo e à demanda de se olhar para o outro, de buscar entender as mudanças que estão ocorrendo no mundo, de buscar novas perspectivas e olhares”, declara.

Segundo Marina, a pandemia também teve outro efeito para o Oscar. “Com a ausência de produções dos grandes estúdios, abriu-se espaço para produções mais independentes, que tornaram a lista de indicados uma das mais diversas da história. Ainda não tenho uma opinião formada de como será o futuro do audiovisual, mas acredito que estamos aprendendo novas formas de produzir neste setor”, completa.

Ela lembra que na história do Oscar, apenas cinco mulheres foram indicadas a Melhor Direção: Lina Wertmüller, por Pasqualino Sete Belezas (1977); Jane Campion, por O Piano(1994); Sofia Coppola, por Encontros e Desencontros (2003); Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror (2010); e Greta Gerwig, por Lady Bird (2018). Somente Bigelow levou a estatueta. “As mulheres ainda precisam batalhar por espaço em todos os setores, então a indicação de duas mulheres e a vitória de uma delas é algo bastante emblemático, mas não podemos perder de vista que ainda as mulheres devem ocupar mais espaço na sociedade, principalmente na política”, diz.

“O fato de Chloé ser mulher e de ascendência chinesa é ainda mais relevante por dois motivos: é a primeira asiática a ganhar o prêmio, sendo reconhecida mundialmente por sua obra, menos em seu país de origem. Todas as publicações recentes com o seu nome e menções a Nomadland desapareceram da rede social Weibo, o Twitter chinês, ao meio-dia de segunda, pós premiação. A imprensa chinesa também mantém o silêncio sobre a vitória”, destaca Marina.

De acordo com a cineasta, na categoria de Melhor Filme, entre os oito indicados, três têm protagonistas não branco: Judas e o Messias Negro, Minari e O Som do Silêncio, e dois são protagonizados por mulheres: Nomadland e Bela Vingança, sendo que boa parte deles lida com a experiência de minorias étnicas e de gênero nos Estados Unidos.

“Pela primeira vez duas mulheres foram indicadas no mesmo ano na categoria Melhor Direção: Chloé Zhao (Nomadland) e Emerald Fennell (Bela Vingança). Zhao também foi a primeira mulher não branca a ser indicada na categoria em 93 anos de premiação, e a primeira mulher a receber quatro indicações no mesmo ano, por direção, montagem, roteiro adaptado e melhor filme. E Fennel é a primeira mulher estreante a entrar na lista de direção. Ainda assim, a lista da Academia foi menos diversa que a dos Globos de Ouro, que também indicou Regina King, por Uma Noite em Miami”, resume Marina.

Para ela, “as indicações e a premiação de modo geral refletem o momento em que estamos vivendo e apontam novas diretrizes para o cinema, abrindo espaço para novas estéticas, novos olhares sobre o mundo e maneiras diversas de se pensar e produzir audiovisual”.

Atualidade e perspicácia

“O cinema da Chloé Zhao já havia mostrado sua excelência, atualidade e perspicácia com o Songs My Brothers Taught Me, de 2015. O tema do filme vencedor desse ano, Nomadland, fora levantado anteriormente pelo excelente documentário do italiano Gianfranco Rosi, Below Sea Level, em 2008. Zhao, na sua condição de ‘quase estrangeira’, percebe muito bem os mecanismos existentes com relação às minorias na sociedade americana”, reflete o cineasta carioca radicado em São Paulo, Carlos Ebert, 75 anos.

Para ele, que iniciou sua carreira no cinema nos anos 1960 como fotógrafo e operador de câmera e depois como diretor de fotografia, a tendência a ter a diversidade da sociedade representada na cinematografia já vem acontecendo há alguns anos e parece inevitável. “O cinema vive do seu público e não teria sentido deixar porções significativas desse público de fora das audiências. A pandemia vem acelerando muitas tendências na sociedade que já vinham se manifestando, como o home office, o home entertainment etc.”, diz.

Segundo Ebert, a única certeza do setor é que nada será como antes. “O cinema existe pela empatia que consegue estabelecer com seu público. Sempre terá que espelhar o social em suas obras. Observo que no meu tempo de vida, os ideais de mudança social que eram amplos e buscavam estar acima de ideias e categorias como raça, etnias, gêneros etc. foram explodidos e atomizados. As políticas identitárias, com seu pertencimento compelido por aspectos de identidade (gênero, raça, orientação sexual etc.), conseguiram o que o capitalismo monopolista não havia conseguido por mais que tentasse: anularam os ideais coletivos de justiça e liberdade. Virou um ‘todos contra todos’, no qual quem lucra é justamente o inimigo comum.”

Ele mesmo não viu todos os filmes concorrentes ao Oscar, até porque muitos não foram lançados ou não estavam acessíveis por aqui. Entretanto, destaca a indiscutível atuação de Anthony Hopkins, que venceu como Melhor Ator, por Meu Pai, e a montagem e a cinematografia de Mank. “Minha linguagem é a da objetividade para contar a história que está no roteiro que estou filmando no momento. Acredito na universalidade das artes, acho que a música é ‘a arte das artes’, mas não tenho bons prognósticos para a nossa espécie – nem a médio prazo, mas seguirei filmando porque é o que gosto de fazer. Quero fazer cinema até onde for possível.”

Lado B

A jornalista e fotógrafa londrinense Renata Cabrera, 31, mestre em comunicação e formada em direção cinematográfica pela Fundação Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, vai na contramão dos colegas cinéfilos quando o assunto é Oscar. “Eu acredito que o Oscar está aí para legitimar e é maravilhoso você pensar que nomes de mulheres estão ali. Mas a minha revelia é pensar que a gente precisa do Oscar para que cineastas como a Chloé, por exemplo, sejam reconhecidas. E estou falando no lugar de alguém que acredita num cinema que não necessariamente precisa ganhar o Oscar. Acho que o grandioso é fazer cinema.”

Para Renata, que inicia sua caminhada na produção cinematográfica nacional, mas estuda o tema há três anos, o fechamento dos cinemas por conta da pandemia influencia diretamente na bilheteria dos grandes estúdios e, consequentemente, no movimento da indústria. “Não teve público e os filmes que prometiam trazer um lucro para a Academia recuperar a bilheteria perdida não conseguiram isso. Vivemos um ano muito complexo e as pessoas realmente não foram ao cinema. Mas, no fundo, quem foi prejudicado mesmo foram os realizadores de cinema independente porque os festivais não aconteceram.”

“O Oscar deu um jeito de continuar acontecendo, mas a falta de editais, de não abrir festivais presenciais, isso desestimula as pessoas. Se falar de Brasil, então, a gente não tem muita visibilidade para o cinema autoral, o cinema que depende muito mais de recursos e que não tem um produtor executivo ricaço por trás. Esse cinema do realizar independente é muito mais prejudicado pela pandemia”, avalia Renata.

Para ela, o momento é de ruptura. “É muito desafiador, mas a gente já vem se adaptando, principalmente às plataformas de streaming, que são acessíveis. As grandes produções continuam atraindo mais público para o cinema e vão continuar porque o próprio fazer cinema vai se renovando. O cinema é muito vivo. E essa possibilidade de fazer filmes para o streaming também vai acordar o cinema, pois se as pessoas consomem mais esse cinema em série, talvez o cinema possa repensar isso”, diz a jornalista, alertando que o alto nível de representatividade garantido por uma premiação no Oscar não coloca quem filme de maneira independente numa posição inferior.

“A própria experiência de ir ao cinema mudou. Tem gente vendo filmes no celular dentro do ônibus. Talvez as pessoas não valorizem tanto essa experiência do cinema ou até a experiência da arte em si. Eu gosto muito de sentir, então ir ao cinema nunca será substituído por uma tela de celular. Eu tenho que acreditar nisso também. Mas passar um filme na telona, para a gente que está começando a fazer cinema, é muito distante. Então tem maneiras de fazer com que o filme chegue, nem que seja na tela do celular.”

Para Renata, ver uma mulher ganhando o Oscar serve de espelho para muita gente que não faz ideia como é produzir cinema enquanto mulher, trans, homossexual. “As pessoas acabam olhando. E isso é muito legal. O contraponto disso é que o mundo mudou muito e se a Academia não mudasse também ia parecer retrógrada. Então, ter a presença de negros e mulheres, de gays e trans recebendo prêmios força a mudança na própria formação de júri desses prêmios. É uma demanda. E reverbera. Mas o cinema americano ainda é muito masculino. A ideia de ter esse prêmio ainda é muito masculinizada. Bom mesmo vai ser quando tivermos uma premiação alternativa, que vai deixar os homens espantados porque não vão conseguir entrar”, brinca.

Vencedores

Melhor roteiro original – Bela vingança

Melhor roteiro adaptado – Meu pai

Melhor filme – Nomadland

Melhor direção – Chloé Zhao – Nomadland

Melhor atriz – Frances McDormand – Nomadland

Melhor atriz coadjuvante – Yuh-Jung Youn – Minari

Melhor ator – Anthony Hopkins – Meu pai

Melhor ator coadjuvante – Daniel Kaluuya – Judas e o messias negro

Melhor filme internacional – Druk – Another round (Dinamarca)

Melhor curta-metragem em live action – Two distant strangers

Melhor curta de animação – If anything happens I love you

Melhor animação – Soul

Melhor documentário de curta-metragem – Collete

Melhor documentário – O professor polvo

Maquiagem e cabelo – A voz suprema do blues

Melhor figurino – A voz suprema do blues

Melhor som – O som do silêncio

Efeitos visuais – Tenet

Melhor design de produção – Mank

Melhor fotografia – Mank

Melhor edição – O som do silêncio

Melhor trilha sonora – Soul

Canção original – Fight for you – Judas e o messias negro

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