Faixa de pedestres em Londrina ganha cores das bandeiras Trans e LGBTI+

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Pela primeira vez no Brasil as cores do movimento de transexuais ganham o asfalto; intervenção marca o Dia Internacional de Combate à Homofobia, Lesbofobia, Bifobia e Transfobia

Cecília França

A faixa de pedestres no cruzamento da rua Benjamim Constant com a Avenida Rio de Janeiro, próximo à Praça Rocha Pombo, no centro de Londrina, ganhou novas cores na madrugada desta segunda-feira (17). Uma intervenção artística reproduziu as bandeiras LGBTI e Trans no local para marcar o Dia Internacional de Combate à Homofobia, Lesbofobia, Bifobia e Transfobia. Idealizada pela Rede LGBT Ubuntu e realizada em parceira com o Coletivo ELityTrans e a Frente Trans de Londrina, a pintura foi executada pelo artista Caio Souza.

Trata-se da primeira pintura de uma bandeira trans em faixa de pedestres no país. Pesquisa do grupo encontrou ação semelhante somente em uma cidade da Holanda. Para Vinícius Yoma Bueno, produtor cultural e coordenador executivo da ação, isso confere ainda mais representatividade à ação.

“Isso para nós é muito representativo, porque 70% das mortes por LGBTfobia no ano passado, por exemplo, envolveram pessoas transexuais. Se uma pessoa gay, lésbica e bissexual sofre por conta de sua orientação sexual, na questão da identidade de gênero o sofrimento é muito maior. Por isso essa visibilidade, para que as pessoas se reconheçam, seja numa faixa de pedestres, seja no direito de ser homem, de ser mulher”, declara.

Juuara Barbosa, produtora cultural e produtora de comunicação da Frente Trans de Londrina, diz que esse pioneirismo mostra que a população trans de Londrina está farta de ser alijada de seus direitos. “O fato de sermos pioneiras no Brasil é gritar, porque a gente não aguenta mais pedir e falar. A sensação que eu tenho, que percebo nas minhas amigas e companheiras trans, é que a gente não aguenta mais lutar pelo mínimo. Do fundo do meu coração a importância deste ato tem uma magnitude gigantesca”, declara.

Para Juuara, a mensagem passada é de amor e leveza, mesmo em meio às violências sofridas por essa população. “A gente conseguiu trazer a mensagem de forma alegre, de forma leve, porque a gente não é só luta e só desgraça. A gente é muito amor, muita vida”, afirma. A produtora lembra que o dia 15 de maio marcou o Dia de Orgulho Travesti e Trans e que datas como estas servem para lembrar que os caminhos dos LGBTI não são caminhos de flores, mas de luta pela vida.

“Acredito que a ação dará visibilidade para essas discussões, que ficam invisibilizadas, sobretudo quando se for falar em travestis. Nós estamos nos piores postos de trabalho. Nós estamos invisibilizadas. Praticamente somos proibidas de andar à luz do dia. As poucas travestis que têm furado essa barreira e tem conseguido trabalho no mercado formal, ainda são espezinhadas, em todo percurso até o trabalho, o que acaba corroborando para que essas pessoas não permaneçam nesses espaços”, declara.

“Obviamente que a ação não vai vencer a transfobia, mas que impacte a sociedade para que eles saibam cada vez mais que a gente está viva, que a gente não está mais baixando a cabeça para o heterosistema, para esse ‘cistema’ desgraçado normativo, que nos violenta, nos degrada, nos silencia, e que nos mata”, finaliza.

Vinícius Bueno se emociona ao falar da luta de militantes em décadas passadas, que abriu espaço para que os ativistas de hoje possam promover ações como essa. Ele espera que pessoas LGBTI possam se reconhecer como moradoras, como parte da cidade pulsante, como trabalhadoras e cidadãs, sem sentir vergonha.

“Quando a gente luta por orgulho é um orgulho que é o oposto da vergonha. Quando todo mundo – o mercado de trabalho, a sociedade, a escola, a família, as igrejas – fala que você tem que se esconder para amar, a gente quer dizer que a gente quer ser livre, a gente precisa viver. Quem surfa no medo, surfa na vergonha, é a homofobia, é o moralismo, é gente do campo mais nefasto da religião, da política, que, infelizmente, tem ganhado corpo”, afirma.

Arte e memória

A esquina escolhida para a intervenção reivindica também a memória da população LBGTI+ como produtora de memória e da história de Londrina. Por esse motivo a ação acontece próximo ao Museu Histórico da Cidade. Além disso, a Praça Rocha Pombo foi, durante muitos anos, local de trabalho da população travesti e trans. “O objetivo é ressaltar que a produção de vida diária deve passar pela construção de uma cidade, em que as diferenças sejam passíveis de serem vividas com direitos, dignidade, acessos e cidadania”, defendem os organizadores.

“A gente precisa conhecer a nossa história, respeitar as pessoas que vieram antes de nós, e lutar para que tenhamos dias melhores. A gente vive na cidade. É aqui que a gente estuda, trabalha e se diverte, a gente precisa mostrar que existimos e queremos viver!”, declara Bueno.

O artista visual responsável pela intervenção, Caio Souza, lembra da importância da arte urbana, que “liberta a arte das paredes das instituições de arte, da bolha, para que ela se manifeste nas ruas e alcance o maior número de pessoas possível, para que a população de conscientize da mensagem e seja afetada por meio da via do sensível”.

A ação está sendo financiada de maneira coletiva. Os organizadores estão realizando uma rifa de uma obra de Caio Souza e de uma sessão de fotos com o fotógrafo Wesley Tontatto para custeá-la. As contribuições e compra dos números da rifa podem ser adquiridos com Vinícius Bueno pelo telefone (43) 98446-7469

Violência

O Brasil é o país que mais mata a população LGBTI+ no mundo. Esses crimes contra os corpos, considerados dissidentes, tem suas consequências também na cidade de Londrina. Na praça Rocha Pombo, escolhida para ação de hoje, em 2019, um jovem foi assassinado, uma semana após o assassinato de outro, ocorrido no Bosque central. Desde 2015, ao menos seis travestis foram mortas de forma violenta na cidade.

Nacionalmente, foram registradas 237 mortes violentas de LGBTIs em 2020, conforme levantamento divulgado na última sexta-feira (14) pela Acontece Arte e Política LGBTI+ e Grupo Gay da Bahia. Apenas entre travestis e mulheres transexuais foram 175 mortes, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

A ação simbólica feita em Londrina pode e deve levar à reflexão e mudança de comportamento. Ao parar obrigatoriamente na faixa de pedestres, motoristas e passantes são convidados a pensar sobre suas realidades e a do outro. Todas as vidas pedem passagem.

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