Néia morre dois anos após sofrer tentativa de feminicídio

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Cidnéia foi asfixiada e abandonada em uma estrada rural pelo ex-companheiro; agressões a deixaram tetraplégica e desde então ela lutava pela vida

Mariana Guerin

Faleceu ontem, aos 35 anos, Cidnéia Aparecida Mariano, que havia sobrevivido a uma tentativa de feminicídio praticada pelo seu ex-companheiro, Emerson Henrique de Souza, em 9 de abril de 2019, quando ele a agrediu fisicamente, a asfixiou e a abandonou em uma estrada rural de Londrina.

Encontrada por uma mulher, Néia foi levada ao hospital, onde permaneceu internada por dois meses. As sequelas da asfixia sofrida a deixaram tetraplégica e sem fala. Há pouco tempo a ex-auxiliar de cozinha, mãe de quatro filhos, tinha conseguido recuperar a autonomia para respirar.

Em janeiro deste ano, um grupo de mulheres feministas ativistas de Londrina, tendo a Frente Feminista de Londrina como protagonista, organizou-se para chamar atenção da opinião pública sobre o julgamento do agressor de Néia. Em 4 de fevereiro, Emerson Henrique de Souza foi julgado pelo crime de tentativa de feminicídio e condenado a 23 anos e 4 meses de reclusão. Todas as agravantes apresentadas na denúncia do Ministério Público foram acatadas, como reincidência, antecedentes criminais e violência doméstica e contra a mulher.

Na época do julgamento do agressor, Silvana Mariano, irmã da vítima, disse que a condenação é uma resposta adequada da sociedade à violência contra a mulher e ao feminicídio. “É claro que isso não altera em nada o estado da Néia, mas, pelo menos, a gente percebe que a sociedade, criminalmente, dá uma resposta.” Para ela, foi dado um recado à sociedade “de que mulher não é propriedade”.

Em um depoimento publicado ontem em sua rede social, Silvana escreveu sobre a perda da irmã. “Néia, minha irmã caçula, se foi. Não foi a Covid-19 que a tomou de nós. Foi um vírus criado e cultivado cotidianamente pelas sociedades humanas chamado machismo. O fim da vida de Néia teve início naquele domingo de 9 de abril de 2019 quando ela decidiu pôr fim ao seu casamento. Sem admitir que Néia pudesse ter uma vida própria sem sua participação, Emerson tentou matá-la por asfixia. Inexplicavelmente, Néia sobreviveu, foi resgatada e hospitalizada. No hospital, lutou pela vida por dois meses e de lá saiu sem qualquer movimento e sem fala. Acreditamos na sua reabilitação e essa esperança foi se desfazendo aos poucos. Durante quase dois anos após a saída do hospital, Néia lutou pela vida. Nessas últimas semanas, ela desistiu. Apesar de todos os cuidados familiares e médicos, ela se definhou e tristemente nos deixou neste domingo, 30 de maio. Néia se foi, vítima de feminicídio consumado. Vá em paz, minha irmã. Aqui faremos a luta para que outras mulheres possam livremente romper um casamento em segurança. Gratidão eterna a cada pessoa que se solidarizou conosco e de diferentes modos contribuiu para o bem-estar de Néia nesse período. Néia presente!”.

Em abril, a família de Néia realizou uma campanha para arrecadar fundos para ajudar nos custos da sua recuperação. No mesmo mês, surgiu a vontade de fundar uma organização da sociedade civil com a finalidade de reverberar casos de feminicídio consumado e de feminicídio tentado em julgamento pelo Tribunal do Júri na Comarca de Londrina, entre outras ações de prevenção à violência contra mulheres e assim nasceu o Néias Observatório de Feminicídios de Londrina.

O objetivo do observatório é “dar voz às Néias atingidas pela violência feminicida. Com informações e análises qualificadas, esperamos contribuir para o enfrentamento da violência contra mulheres e para a redução dos feminicídios”.

Em nota de pesar, o Observatório lamentou a morte de Cidinéia. “É com imensa tristeza que recebemos a notícia do falecimento de Cidnéia Aparecida Mariano, na noite deste domingo chuvoso, aos 35 anos. Néia vai-se muito cedo. Vai-se vítima de um sistema violento e inescrupuloso. Vai-se, sobretudo, vítima de uma sociedade omissa diante da violência contra as mulheres. Néia deu nome ao nosso Observatório porque fez acender em nós, militantes feministas, a necessidade da luta pelo fim da violência feminicida. Nosso Observatório nasceu do anseio de justiça por Néia e por todas aquelas que sofrem da forma mais brutal o peso do patriarcado, que ceifa e limita vidas femininas. Hoje, com a morte de Néia, mais filhos ficam órfãos, mais uma mãe chora a morte precoce de sua filha. O feminicídio tentado contra Néia em 2019 consuma-se, simbolicamente, hoje. Nós, que compomos o Observatório, expressamos nossa irrestrita solidariedade à família de Néia e nosso agradecimento a todas e todos que, de diferentes formas, colaboraram para sua recuperação. A luta não foi em vão. A vida de Néia não foi em vão. Seguimos firmes e renovamos nosso propósito de luta, pela memória de Néia e pela vida de todas as mulheres. Néia presente!”

Segundo a advogada Isabeau Lobo Muniz Santos Gomes, integrante da comissão executiva e da comissão de produção dos informes do Observatório, apesar da melhora dos últimos meses, “o que foi informado para nós, do Observatório, é que nesses três últimos dias Cidnéia parou de aceitar alimentação e de tomar água”, conta.

“Há algumas semanas, quando Silvana foi visitá-la, Néia estava ativa, mas infelizmente, nesses últimos dias, ela apresentou significativa piora. Como se estivesse parando de viver. Não sabemos ao certo o que causou essa crise, mas infelizmente a piora repentina acabou ceifando sua vida”, diz a advogada.

Para ela, a mensagem que fica da história de Néia é de luta. “Néia se foi, mas seu nome e memória seguem vivos em todas as nossas lutas. O caso dela foi o primeiro, aquele que nos uniu em prol de todas as Néias de nossa cidade. Quando abordamos os casos, fazemos questão de que cada uma dessas mulheres seja lembrada, assim como Néia foi. Cada vítima tem um nome, um rosto, uma história a ser contada, e foi o caso da Néia que nos fez ver a importância dessa luta. Néia está presente. Em todas as nossas ações ela continuará viva. Lamentamos muito pelo sofrimento dos filhos, irmãos e familiares. O machismo levou mais uma de nós, mas seguimos firme na luta por todas. Somos todas Néias”, finaliza Isabeau.

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