Usuários registram lotação no transporte coletivo em Londrina

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Fotos enviadas à Lume mostram que distanciamento continua longe da realidade de quem utiliza os ônibus em horários de pico

Cecília França

Fotos em destaque: Ônibus da linha 210/Iasmin Moreira

“Eu estou aqui no 803, às 6h50, e o ônibus lotado até na porta, em cima do motorista”, diz a doméstica Rosa de Souza em mensagem enviada à Lume no dia 25 de maio, acompanhada de uma foto. Rosa utiliza o transporte coletivo diariamente para se deslocar da Zona Oeste até seu trabalho, na Gleba Palhano. Naquele dia ela estava especialmente assustada pois uma amiga contaminada pela covid-19 havia sido intubada. Para Rosa, utilizar o transporte público nessa situação em meio a uma pandemia é um desrespeito.

“É muita falta de respeito com a gente. É falta de organização e de consciência das pessoas também. Agora no inverno fecham as janelas, se você vai abrir o pessoal te xinga…Então é muito difícil para a gente que depende do transporte”, desabafa.

A estudante Iasmin Moreira tinha à disposição duas linhas de ônibus para ir trabalhar, mas uma foi retirada no ano início da pandemia e restou apenas a 210. “Eu sempre converso com o pessoal que fica no ponto esperando e o sentimento é o mesmo: a linha que foi retirada faz muita falta”, conta. A jovem usa o transporte no início da tarde, quando “já tem algumas pessoas em pé mas não é muito cheio” e novamente no início da noite. “Saindo do terminal às 18h é o horário que normalmente está bem cheio”, afirma.

Jaqueline Vieira utiliza a linha 314 para ir e voltar do trabalho e encontra o ônibus sempre cheio “nos primeiros pontos do bairro, já não tendo bancos para sentar”. “Quando o ônibus chega no próximo bairro, às 6h20, já está com cerca de 10 a 15 pessoas em pé, ou seja, não há espaçamento nenhum entre os passageiros”, detalha.

De acordo com ela, durante a pandemia a situação de lotação não melhorou, mesmo quando houve uma queda brusca no movimento logo no início do período de isolamento. Jaqueline diz ter muito medo de se contaminar no transporte, especialmente agora, no período do inverno.

“Para ser sincera é um dos locais que mais temo contaminação. Isso porque quando está chovendo, por exemplo, não dá para circular (o ar) com as janelas fechadas e o ônibus sempre está lotado. Tenho conhecidos e familiares que se contaminaram pela covid-19 e que utilizam o transporte público. Não dá para ter certeza onde foram contaminados, entretanto não dá para descartar a lotação dos ônibus como um fator”, acredita.

Para ela, caberia ao poder público decretar novas medidas de restrição de circulação de pessoas diante do agravamento da pandemia nesse momento. Como não parece haver disposição para decretar um lockdown, ela afirma que “no mínimo precisaríamos de mais ônibus circulando e da população trabalhadora vacinada”.

Dentre as medidas postas em prática pelo poder público para tentar evitar lotação dos ônibus está o escalonamento de horários das atividades econômicas. De acordo com decreto em vigência, trabalhadores da indústria devem iniciar a jornada às 7h, da construção civil às 7h30 e trabalhadoras domésticas às 9h.

Na prática, no entanto, nunca houve tal mudança de horário, ao menos para Rosa de Souza. Ela conta que precisa chegar às 8h na casa em que trabalha. “Eu cuidado de duas crianças. Às oito horas tenho que ajudar eles com a tarefa, aí já tenho que ir preparando o almoço porque, meio-dia em ponto as crianças têm que estar almoçando porque elas vão para a escola. Não tem como. A solução é colocar mais ônibus”, defende.

Por sugestão do Ministério Público, a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) também implementou, em 28 de abril, a proibição de uso do transporte por pessoas com diagnóstico de covid-19 ou com período de isolamento em vigência. Até o dia 2 de junho, 61 cartões haviam sido bloqueados.

Redução da demanda

Entramos em contato com as empresas concessionárias do serviço de transporte coletivo para tratar da lotação dos ônibus. A LondriSul, que opera a linha 210, informa redução de 60 linhas antes da pandemia para 38 linhas no momento; outras 11 eram compartilhadas, hoje são apenas três. De acordo com a empresa, o movimento de passageiros caiu bruscamente, 80%, no início do período de calamidade, em 2020. Hoje a empresa opera com uma demanda 50% menor.

“A LondriSul, junto com o órgão gestor, implantou medidas de segurança para atender aos usuários como o acompanhamento diário de fiscais para informações sobre o fluxo de passageiros e apontadores nas linhas e terminais para evitar aglomerações dentro dos ônibus e plataformas. A empresa também implantou dispensers de álcool gel nos ônibus e realiza a constante higienização dos coletivos nas garagens e terminais com produtos especializados para eliminação de vírus.”, garante o comunicado.

A Transporte Coletivo Grande Londrina (TCGL), operadora das linhas 314 e 803 citadas pelas usuárias, não respondeu ao questionamento da reportagem. A CMTU, responsável pela fiscalização, também não retornou até o fechamento da matéria.

Risco de contágio

Nota técnica publicada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em agosto 2020 analisa o risco de contaminação pela covid-19 nos transportes públicos. A partir da análise de nove estudos, a nota traz como recomendação que as evidências disponíveis até o momento “indicam que os transportes públicos podem ser responsáveis pela transmissão do vírus.”

E segue: “A ventilação de ar puro, circulação e filtração de ar nos transportes públicos podem reduzir o risco de transmissão de covid-19. Os passageiros podem contribuir mantendo as mãos limpas e usando equipamentos de proteção como máscaras.” Sobre lotação, afirma: “(…) a aglomeração para a utilização dos
transportes públicos deve ser controlada e evitada.”

Vereador propõe lei

A Câmara Municipal de Londrina (CML) realiza na próxima quarta-feira (9) uma reunião pública virtual para discutir projeto de lei de autoria do vereador Roberto Fú (PDT) que limita a ocupação dos ônibus do transporte público a 50% enquanto durar a pandemia da covid-19. O PL 89/2020 determina que as empresas operadoras do serviço devem oferecer ônibus suficientes para garantir o desafogamento da ocupação.

Foram convidados para a reunião virtual representantes da CMTU, da Secretaria Municipal de Saúde e das empresas LondriSul e TCGL. O debate será transmitido pelos canais da CML no Facebook e no Youtube, às 17h.

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