Divina comédia humana, ou não

Publicado por

Por Carlos Monteiro*

O Rio está se tornando numa “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Poesia dividida em trinta e quatro cantos cada – divisão usada em de longas odes e uma delas, exatamente ‘O Inferno’, tem uma a mais, que lhe serve de introdução – e três partes: ‘O Inferno’ é a primeira delas, sendo as outras duas ‘O Purgatório’ e ‘O Paraíso’.

Composto no início do século XIV, foi retratado pelos mais variados pintores de todos os tempos; um deles Salvador Dalí. A viagem de Dante é uma alegoria por meio do que se considerava o conceito medieval de inferno, guiada pelo poeta romano Virgílio. No poema, ‘O Inferno’ é descrito com nove círculos de sofrimento localizados no interior do Planeta. Será mesmo? No Rio seria assim?

Primeiro Círculo, o “Limbo” – virtuosos pagãos – que nada fazem, num meio “— Isso não me diz respeito. Estou aqui quieto no meu canto fazendo a minha parte. Me atraco com meus deliveries e meus streamings…”. O Segundo Círculo, “Vale dos Ventos” representa a luxúria e se mistura, de certa forma, com o Terceiro Círculo, “Lago de Lama” a representatividade da gula, retratadas pelos, nada, inocentes do Leblon ou pela turma da Mureta da Urca.

No Quarto Círculo – “Colinas de Rocha” vem a ganância, aqui traduzida em uma única frase: “Acho que exagerei”! Neste ciclo, especificamente, se encontram os avarentos e os pródigos. Local repleto de montanhas, praias e lagoas, as riquezas materiais se transformaram em gigantescos fardos de ouro que um grupo deve confrontar ao outro, além de se xingarem mutuamente; alguma semelhança?

Quinto Círculo – “Rio Estige” é a representação da ira de quem busca algum serviço básico nesta cidade e não é atendido. O sexto Círculo, “Cemitério de Fogo” é representado no poema como a heresia. Tudo muito direto, elevam o nome de Deus em vão. O Sétimo círculo, “Vale do Flegetonte” destaca a violência. A violência em todas as suas formas. Da falta de atendimento adequado nos hospitais, da violência doméstica, da fome… São três Vales: o Vale do “Rio Flegetonte”, onde a violência é explicitada contra o próximo pelos assaltos à vida e ao bolso de cada morador desta cidade; o Vale da “Floresta dos Suicidas” onde a violência é contra si mesmo, talvez, quem sabe, no negacionismo e por último o “Vale do Deserto Abominável” onde a violência é cometida contra Deus em seus pretensos e falsos profetas.
O Oitavo Círculo, de “Malebolge” com a representação da fraude, parece grassar por terras cariocas há séculos. Desde o episódio dos espelhinhos e bugigangas trocadas com os Tupinambás. Aqui são dez “Bologias”; cada uma delas com os castigos inerentes aos que maltrataram este Rio de Janeiro. Toda sorte de castigos, torturas e subjugo são praticados. Há que se destacar a quinta, onde os corruptos estão submergidos “em um lago de espesso piche fervente; os que tentam ficar com a cabeça acima do caldo são torturados por demônios, que os dilaceram…”. Nestas “Bolgias”, estão também os hipócritas, os ladrões, os maus conselheiros, os semeadores de discórdias os falsificadores, rufiões e sedutores, os puxa-sacos, traficantes, ladrões, larápios, malfeitores…

E, finalmente, chegamos ao Nono Círculo, “Lago Cocite” representado pela traição. São quatro esferas de dedos-duros, são muito os X-9s. “Esfera da Caína”, os que traíram seus parentes; “Esfera da Antenora”, a turma que traiu a pátria ou partido político. A “Esfera da Ptoloméia ou Toloméia”, traidores de seus hóspedes. Quem sabe, os que escolheram o Rio como sua ‘casa’ e, por último, a “Esfera da Judeca” onde estão aqueles que, em vida, traíram seus mestres e reis.

Enfim, parece que Dante tinha uma máquina do tempo, veio ao futuro, passou um fim de semana no Rio. Viu tanto descalabro em praias cheias, bares lotados, orla abarrotada de carros estacionados, um turbilhão de irregularidades num misto de falta de educação, cidadania e fiscalização. Leu os jornais do dia, ‘tá’, O Dia também, ficou tão escandalizado que resolveu compor a “Divina Comédia”.

Triste, muito triste! É o “Rio Quarenta Graus/Cidade purgatório, da beleza e do caos…” nos versos de Fausto Fawcett, Fernanda Abreu, Allen Shamblin e Andre Young.

O caos!

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

Deixe uma resposta