Pessoas trans usam a arte para dizer: ‘Basta de nos matar’

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Artistas transativistas contam como sobrevivem à necropolítica tendo diferentes expressões culturais como ferramenta

Mariana Guerin

Foto em destaque: “La Basura”, de Vulcanica Pokaropa

Você já parou para pensar no quão libertador é poder andar por aí sem ser julgado por sua aparência, sua roupa, seu cabelo, seu corpo, seu jeito de se expressar? Pois é, o que parece comum para a maioria é o pesadelo de outros muitos que vivem simplesmente invisibilizados pela sociedade. Uma população que tem uma expectativa de vida de 35 anos e que lida o tempo todo com o medo da morte.

“Basta de nos matar”, diz o comunicólogo social Régis Moreira, docente do curso de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), um dos coordenadores do grupo de pesquisa e extensão Entretons e integrante do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde. Em maio, ele mediou uma live que tratou a arte e a resistência de travestis e transexuais nos contextos necropolíticos, a qual contou com depoimentos de artistas que dividiram suas histórias de sobrevivência.

 “A condição precária existente não é confortável. A gente combate, inclusive, com a arte, não só falando de morte. Nós não somos bagunça. A gente pode falar de tantas outras coisas. Basta de fetichizar a violência e a miserabilidade, vamos falar de outras narrativas e ocupar outros espaços”, justifica Moreira, descrevendo as personagens da live como “mulheres combativas que vão romper com o discurso de invisibilidade”. Participou também como mediador da live o estudante Jonathas Justino, que é psicólogo e mestrando em Saúde Coletiva pela Univesidade de Campinas (Unicamp), também participante do Entretons.

Resistindo diariamente, a produtora cultural e ativista de direitos humanos e saúde Mel Campus conta como descobriu uma nova trajetória para sua arte depois que decidiu ir viver na Itália, onde mora há mais de um ano. “É preciso responsabilidade para abordar o futuro de um segmento que é condenado a não ter futuro”, declara a artista, reforçando que o conceito de travesti é sempre atrelado à erotização no mundo todo.

Trabalhando com arte erótica na Itália, Mel acredita que a linguagem das artes tem o poder de alcançar a alma do outro. “Faz conexão com a realidade, com as vivências de quem conta a história. Tem ainda a responsabilidade de quem propõe a arte como militância, de forma honesta, não pensando no circuito”, cita.

Segundo ela, uma arte que vai além da espetacularização do corpo trans. “Vai além de toda a beleza, além do entretenimento.” Para Mel, o ativismo propõe outra linguagem, na qual a alma está ligada ao corpo do artista. “É preciso renovar a linguagem senão o discurso acaba ignorado”, propõe a produtora cultural, que em suas peças costuma trabalhar com todos os sentidos: “A interação com o público é mais eficaz que um discurso”, opina.

Mel Campus, na peça Grazy Ellas – Foto: Arquivo Pessoal

Quando está atuando, Mel pensa primeiro na mensagem que deseja comunicar, com o intuito de transformar o contexto necropolítico, por isso seu trabalho performático é sempre em formato de denúncia. “Primeiro sou ativista depois artista.” Ela costuma trabalhar com o grotesco e contar histórias macabras. “Eu tinha essas histórias para contar. O que me contempla é mostrar a realidade do que a sociedade faz com a travesti”, diz ela, reforçando que esse trabalho nem sempre é lucrativo. “Eu nunca quis ser entretenimento para a sociedade.”

Nos seus espetáculos, ela costuma usar a nudez como forma de aproximar o corpo trans da sociedade. “É radical porque a sociedade é radical com o corpo trans”, justifica, emendando que “todos os espaços que valorizam o corpo trans têm sua importância”. “Todas as pessoas que assistem à peça são transformadas”, comenta Mel, explicando que a performance costuma abordar a violência a partir dos pontos de vista da vítima, do agressor e de quem a naturaliza.

Já a arte erótica é uma realidade que ela experimenta na pele vivendo na Europa, onde, segundo ela, há uma espetacularização do corpo trans, “que carrega energias masculina e feminina”. “Trabalho o corpo para aflorar desejos, fetiches, sensações e a prática sexual também na realidade do corpo trans.”

Ela lembra que a erotização leva à exclusão dos artistas do circuito comercial, obrigando 95% da população trans a sobreviver por meio da prostituição. “Estou criando novas narrativas, sem excluir meu papel no mercado de trabalho. O trabalho com o erótico se destaca num comércio onde o corpo é um produto que se impõe como pessoa humana, num nível mais alto, trabalhando o sexo com outras qualidades, com o exótico, com a política do bem-estar social humano e físico.”

Multiplicidade

A travesti Vulcanica Pokaropa é formada em Fotografia e mestre em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Ela é pesquisadora da presença de pessoas transexuais, travestis e não bináries no teatro e performance. Além disso, integra a Cia Fundo Mundo de circo, formada exclusivamente por pessoas transexuais, travestis e não bináries.  A série “Desaquenda” foi seu principal trabalho do mestrado e está disponível no Youtube pelo canal da “Cucetas Produções”. Pesquisadora de bambolê e comicidade, ela é performer, poeta, artista plástica e visual, produtora cultural e curadora de arte.

Apesar do currículo invejável, a pandemia a deixou bastante desmotivada, especialmente pela falta de políticas públicas que contemplem a cultura, especialmente a arte produzida pela população LGBTQIA+. “O contexto pandêmico trouxe outro lugar para o meu trabalho. Cresci dentro da igreja católica, fiz crisma, fui coroinha e senti a necessidade de questionar a religião por meio do meu trabalho no cenário que vivemos neste momento”, declara Vulcanica, que produziu uma instalação com um altar em que desconstrói as ideias dos santos do catolicismo usando imagens e pinturas da população trans.

Vulcanica Pokaropa em apresentação no Teatro Municipal de São Paulo – Foto: Arquivo Pessoal

Ela contesta a falta de valor que a sociedade dá ao trabalho dos artistas trans. “Parece caridade, mas estamos oferecendo nosso trabalho como qualquer outra pessoa. Também temos qualidade. Cansa ter que se provar”, lamenta a artista, que após o concluir o mestrado, se deu conta de que a arte só valida o que é produzido pela academia. “As travestis estão morrendo, mas não consigo circular com meu material porque ele entra num lugar de incitação à violência, enquanto a sociedade acha que está tudo bem.”

Vulcanica se diz atenta ao modo como o artista trans ocupa os espaços públicos. “É preciso saber como está sendo tratada a nossa produção porque quase sempre é precificada para baixo”, alerta a atriz, que com a série “Desaquenda” viaja pelo Brasil entrevistando outros artistas trans e travestis. “Falamos sobre formação, público, arte, trajetória para entender onde estão os artistas trans nas companhias. São 27 episódios que servem como um espelho para a minha população se identificar, se ver, se enxergar.”

Já com a companhia de circo Fundo Mundo, a ideia é transformar situações cotidianas de preconceito e violência em algo cômico. “O riso tem seu poder e se apropriar dele trazendo nossas demandas é fazer nosso público rir em primeiro lugar.”

A estudante de Ciências Sociais Urse Lopes Brevilheri, mulher não-binária e transativista usa a poesia e a produção de podcasts para contestar a normatividade. “Somos corpos que estão fora de alguma norma, somos o que foge”, define.

Para ela, a sociedade reproduz um discurso falho quando diz que existe um único jeito de ser humano. “Somos todos humanos”, lembra a poetisa, reforçando que em outros tempos, as falas preconceituosas colocaram pessoas fora do padrão dentro de manicômios. “Tão importante é falar sobre a luta antimanicomial, falar sobre um tratamento humanizado. Quantos de nós não seríamos mandados de volta aos hospícios e medicados.”

Urse Brevilheri – Foto: Arquivo Pessoal

Ela insiste que a violência não acabou, destacando a subnotificação de mortes de transexuais, especialmente de homens. “A realidade está na porta. Nós somos tudo que não está no padrão, somos a infinidade, a multiplicidade que existe além do quadrado, esse é o nosso poder”, sugere.

Em um podcast chamado Transcast, Urse dá voz a narrativas desse público invisibilizado “que está tentando falar e não tem espaço”. Ela também está produzindo um curso de introdução à neolinguagem e linguagem neutra que irá abordar o uso da linguagem no tratamento de pessoas LBBTQIA+ que se modifica a todo tempo. “Tenho aprendido a me apropriar da poesia e levar o discurso da não violência que não chegaria à sociedade de outra forma”, ensina.

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