Gavetas vazias

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Por Carlos Monteiro*

Gavetas são, muitas vezes, espelhos d’alma. Um entulhado de papéis amarelados pelo tempo, objetos inúteis e memórias dispensadas no fundo de um armário qualquer, na cômoda do quarto, na escrivaninha do escritório ou no criado-mudo da alcova. Nelas vão sendo depositadas as lembranças do que fomos em algum momento. Hora por outra arrancamos de nosso peito tão estranhas reminiscências como numa anamnese, rasgamos o espartilho que nos amordaça, cinta do passado e travazamos tudo que nos aperta, nos sufoca e nos traz lembranças de um passado desnecessário.

Limpar uma gaveta é como tornar nossa história latente. Encontrar uma conta paga há mais de um par de anos, um extrato do cartão de crédito ora inexistente que apresenta valores defasados pelo tempo e pela inflação. Viagens realizadas, almoços em espaços românticos com vieses apaixonados, asas partidas, casas esquecidas. Lembrar daquele beijo na sessão do Roxy ou do Rian e do cantinho gostoso da Cirandinha para o lanche com waffles mel e manteiga, chá com torradas servidos por impecáveis garçons, trajando seus paletós beges trespassados.

Anotações em velhas agendas, diários oculares que hoje embrulham o peixe da vida atrás. Anotações inúteis em pequenos pedaços de papel que de nada servem porque sequer sabemos seu significado. Tiveram serventia um dia. Objetos sem serventia, empoeirados pelo tempo da razão ou do obsoletismo, lá estão, jazem inúteis, quase peças de antiquários, quiçá museus. Aparelhos quebrados e prometidos ao conserto que nunca veio e para onde nunca foi. Quinquilharias como o velho radinho de pilhas que, muitas vezes, foi companhia solitária naquela derrota do América para o Bangu em pleno Maracanã. Objetos que, pelo diminuto tamanho, não poderão preencher o vazio da ‘Kombi do ferro-velho’ que atormenta diariamente nossos ouvidos com o apregoo da limpeza de sua garagem ou quintal. Devia haver uma ‘Kombi da gaveta cheia’. São tantas coisinhas miúdas: clips amassados, grampos sem pressão, elásticos que tempos atrás alinhavam madeixas e perderam a liga, canetas sem tinta, lápis sem crayon. Tudo lá, no fundo falso da ilusão perdida.

Um cartão de crédito vencido que tantas contas pagou, dinheiro de plástico impecavelmente limitado a míseros trocados recusados. Lá está ele, da soberania da carteira ao esquecimento tardio da não mais-valia. Antagônico valor e desvalor, supérfluo cidadão presente que tantos presentes trouxe e a canastrinha de surpresas, no fim do mês, com a conta apresentada, Caixa de Pandora assustadora. 

Cartas de amor mal’escritas em bem traçadas linhas de paixão, “qui bene amat, bene castigat”, são lidas e relidas; nem eram lembradas, ainda trazem o bolor em letras garrafais, sintonia de amor não correspondido, sequer foram postadas, sequer foram levadas adiante, sequer foram completadas, era bem capaz não ter valido a pena… se nem eram lembradas… Epístolas incompreendidas, cartas não trocadas. Escondem poemas dedilhados, musas líricas, rimas pobres, lusos pobres, rimar é riqueza de amar, sutil arte da narrativa do coração. Cornucópia perene em moto-contínuo onde, ao invés de frutas, saem palavras, pura docilidade representativa da deusa do Olimpo dos escribas, velhos papiros naufragados.

O ranger dos cacifos, seja pela lubrificação inexistente, seja pelo ranço do empeno cujo tempo fez senão, madeiras nobres já tão surradas do vai e vem oblíquo, mas inconstante, guardam o tom das notas musicais ajuntadas nas velhas fitas K-7, trilhas sonoras que embalaram viagens no tempo, tocadas no TDK do Puma conversível prateado. Jornada no século de apenas alguns minutos. Uma espécie de hipnose, transe em reminiscência. Carole King e James Taylor, Stevie Wonder, Jose Feliciano, dois ‘pra’ lá, dois ‘pra’ cá em Manzanero, um Sinatra e Aznavour, “Et si tu n’existais pas/Dis-moi pourquoi j’existerais…//…Hier encore j’avais vingt ans/Je caressais le temps et jouais de la vie…” e como a vida acaricia, e como ela brinca.

Estão mais ao fundo, antigas imagens, fotografias desbotadas ainda em preto e branco, bordas debruadas, detalhes ‘picuetados’. A velha foto do álbum de família, desgastado pelas folheadas, charneiras descoladas, amarelecido papel manteiga; quantas lembranças bem-vividas, quantos sonhos projetados nos slides esmaecidos ao longo dos anos, alegorias metafóricas, máquina do tempo em movimento nos rolos de Super-8 e nas fitas VHS.

Mais ao fundo, sob o assoalho das memórias engavetadas, a bela máscara negra usada em um certo Carnaval em Veneza, che bella città! O pequeno saco de tule recheado dos confetes que deixaram de salpicar aquela noite e um rolo de serpentina, apenas um, dos tantos que foram atirados ao léu, apenas um conta aquela história de amor, aquele fusco, aquela máscara negra.

A gaveta está vazia, a vida continua cheia de vida!

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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