A você que ama o passado e que não vê

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A semana começou mal, bem mal. Batemos 500 mil mortos de Covid-19 no Brasil, praticamente uma Londrina inteira dizimada por um vírus para o qual já existe vacina há pelo menos seis meses. Várias opções de vacina, por sinal. Seguimos batendo nessa tecla.

Normalizamos mais de 2 mil mortes diárias e as pessoas querendo abrir mão de usar máscara porque estão vacinadas. Isso, claro, porque a figura mais importante do País não acredita no potencial letal do vírus, nunca usou máscara, investiu recursos preciosos num tratamento precoce aprovado apenas pelos seus semelhantes e, por que não, resolveu afundar na falta de empatia pedindo para uma criança tirar a máscara para posar para uma foto eleitoreira. Se essa imagem não revirou seu estômago, há algo de muito errado em você.

Sim, em você que se preza a gravar vídeos espalhando notícias falsas porque odeia o PT e tem nojo da cor vermelha. Para você que se apropriou do nosso verde e amarelo para pedir a volta da ditadura e não vê a miséria segurando um cartaz de fome no sinal. Para você que diz na frente das suas crianças que Lula é bandido sem explicar o porque ele foi preso e solto. Essas mesmas crianças que saem repetindo “Lula bandido. Não voto em bandido” sem sequer saber quem é Luiz Inácio Lula da Silva e o que ele fez em seus oito anos de governo.

Antes que você me chame de comunista, eu te explico que este desabafo não tem nada a ver com campanha política. Tem a ver só com vida. A minha era muito melhor alguns anos atrás. Do golpe para cá, só tristeza. Te desafio a listar apenas uma coisa em que sua vida melhorou nos últimos anos e prometo que paro de reclamar.

A você, que se prestou a “buscar informações” para justificar o uso de remédios que não tratam vírus, mas que se curou da Covid-19 com o tratamento precoce, eu pergunto: Qual a fonte dessas informações tão preciosas que te levaram a decidir usar remédio de verme para tratar doença respiratória? Eu quero ter acesso para, quem sabe, mudar de ideia e ir correndo pedir uma receita para um dos muitos médicos espalhados pelas unidades de saúde londrinenses que estão receitando o tal kit. O vídeo reforça: “Exijam os remédios!”

Enquanto isso, pacientes sem respirar aguardam, dentro de ambulâncias, vagas inexistentes nos hospitais lotados. O obituário mostra vacinados que não resistiram, mostra meninos de 12 anos vitimados pelo novo coronavírus, mostra jovens adultos mortos pela ignorância. Ou porque precisaram sair para trabalhar e ficaram expostos.

Você disse que é preciso exigir, então eu quero exigir. Exigir que uma mãe tenha um emprego decente para poder arcar com as despesas da família e não ter a água cortada. Quero exigir que ela durma tranquila e gaste dinheiro com bobagens para as filhas adolescentes, como você, que defende esse desgoverno, faz com a sua família. Quero exigir que os profissionais de saúde possam descansar, que os adultos responsáveis cuidem de seus idosos, que tenham paciência com suas crianças ansiosas com o isolamento, que respeitem os professores que dia sim outro também dão o máximo para que a perda na educação seja menor. Perder, perdemos todos. Se você acha que não perdeu nada, você ainda não entendeu.

Quando eu me pego descrente na humanidade e penso que nada pode piorar, eu me volto para mim mesma. Eu dou luz às minhas sombras e relativizo tudo que aprendi em 20 anos trabalhando como jornalista. Relembro todas as histórias que já contei e entendo que ainda há saída. Somos metade do bonde e mais um tanto. A vitória há de vir.

Apesar do 7×1 diário, das manchetes sangrentas, dos bandidos soltos pelos interior do País – entre eles, os de alto escalão -, das marcas das máscaras pff2 no rosto, dos ônibus lotados, do comércio às minguas enquanto os bares estão cheios, apesar das festas clandestinas, dos influenciadores postando fotos instagramáveis em praias paradisíacas enquanto meio milhão de brasileiros morrem, apesar da diarista ter que acompanhar as aulas online dos filhos do patrão, enquanto faz almoço e limpa a casa, depois de pegar condução lotada para atravessar a cidade e ainda ser acusada de levar a doença para o bairro de elite, apesar de centenas de campanhas por cestas básicas para aplacar a fome das famílias que estão na linha da miséria, apesar de tanto tapa na cara, a vitória há de vir.

A minha vitória pessoal da semana vai te parecer pequena, uma vez que você se curou da Covid-19 com ivermectina e cloroquina, mas para mim é gigante. Tão gigante que transbordou neste texto.
Esta semana me uni a outras dezenas de mulheres – sim, só mulheres – e aplacamos um sofrimento que eu não saberia descrever porque nunca senti na pele. Me tocou perceber que foi um grupo de jornalistas e professoras universitárias que encabeçou uma campanha despretensiosa. O dinheiro do lanche de uma dezena de pessoas aliviou o coração de uma mãe que tem como missão de vida resgatar outras mães. Se isso não é vitória, eu não sei o que é vencer. Se isso não te comove, você já está morto. Não há cloroquina que te salve do vírus que você se tornou.

A próxima vitória virá dentro de um mês, se os donos do poder souberem jogar o jogo: minha primeira dose da vacina salva-vidas. Até lá, é seguir segurando na mão de quem não solta da minha. Para você, que insiste em não enxergar o óbvio, desejo o tratamento precoce. E o peso de mais de meio milhão de mortes na consciência, que é todo seu.

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras. Siga @bolachinhasdamari

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