Vacinação de 200 mil londrinenses não isenta de cuidados coletivos

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Apesar de expressivo, índice representa apenas 37% da população vacinada com a primeira dose contra a covid-19; com as duas são apenas 15%, bem longe do ideal de 70%

Cecília França

Para quem acredita na ciência e entende a vacina como única forma eficaz de superarmos a pandemia da covid-19, cada amigo ou ente querido vacinado representa uma esperança. Na última semana Londrina ultrapassou a marca de 200 mil pessoas imunizadas com a primeira dose contra a covid-19 – 215.235 em números de hoje, ou seja, pouco mais de 37% da população. Destes, 86.664 – ou 15% – receberam as duas doses. Vale a comemoração, mas os números estão longe de representar segurança do controle da pandemia.

A pneumologista Ana Tereza Muzio acompanha estudos sobre a covid-19 desde o início da pandemia e reitera a necessidade de imunização de mais de 70% da população para termos segurança sobre a transmissão do vírus. “Londrina representa a evolução do ritmo da vacinação do Brasil, que segue lenta, porém vem aumentando; o número de pessoas vacinadas, tem passado de 1 milhão por dia. Até que é um número bom, mas precisaria aumentar. Agora já temos disponibilidade de várias vacinas, inicialmente Coronavac, AstraZeneca, agora Pfizer e Jansen”, destaca.

A aceleração da vacinação em junho é evidente pelos dados de Londrina, como mostramos aqui, o que pode diminuir a previsão para atingirmos a imunização coletiva. Caso tomemos como base o tempo que foi necessário para imunizarmos 35% da população, poderíamos prever que levaríamos o dobro para chegar aos 70%. No entanto, a pneumologista não arrisca fazer essa previsão diante das variáveis.

“Esse cálculo pode ser alterado se conseguirmos acelerar a vacinação, e nós temos recebido mais vacinas. Então, se a produção aumentar a gente pode reduzir esse tempo, que é o que todos nós esperamos”, declara.

A profissional destaca que o efeito ideal das vacinas, independentemente da marca, só vem com a segunda dose. Sendo assim, todos os cuidados precisam ser mantidos até a imunização completa. “Com a primeira dose, foi feito estudo com a da Astrazeneca e provou-se que tem já uma certa proteção, mas o ideal é esperar 20 dias depois da segunda dose para se ter o efeito ideal. Por outro lado, sabe-se também que pessoas vacinadas contraíram, até mesmo casos graves da covid. Ou seja, até que uma boa parte da população seja vacinada uso de máscara e distanciamento têm que ser mantidos“, reforça.

Imunizados com a primeira dose, o jornalista Vitor Ogawa, 47, e a socióloga Clarice Junges, 56, vêm seguindo à risca todos os protocolos. “Como ainda não recebi a segunda dose não me sinto seguro de sair às ruas ainda. Mesmo vacinado com a primeira dose não vou abrir mão de tomar todas as precauções de distanciamento social, higiene das mãos e uso de máscara”, declara Ogawa.

Ele concorda que a velocidade de imunização está muito lenta “comparado com o programa de imunização do H1N1, que foi bem mais veloz” e lamenta que parte da população não esteja buscando completar o esquema vacinal. “Vejo que muita gente está deixando de se vacinar. Mesmo quem recebeu a primeira dose, muitos estão deixando de receber a segunda dose, influenciados por pessoas que acreditam em tratamento precoce e por quem defende outro tipo de tratamento que não seja a vacina”, afirma.

Para Clarice, a sensação após receber a primeira dose é de “alívio parcial”. Ela acredita que mesmo depois da imunização de parte suficiente da população, algumas medidas continuarão a fazer parte da nossa rotina.
“Acredito que a maioria dos cuidados que temos adotado passarão (ou deveriam passar) a fazer parte, de modo permanente, da nossa rotina, como em alguns países onde as pessoas gripadas fazem uso de máscaras para evitar a transmissão”, compara.

Ela lamenta, no entanto, que a possibilidade de prevenção não esteja ao alcance de todas as pessoas. “O cuidado com as mãos é medida básica de higiene e saúde, mas que infelizmente ainda está longe de ser acessível a uma parcela expressiva da população brasileira que não tem acesso sequer a água e sabão, faltando-lhes também o alimento, outro dos principais requisitos de uma vida saudável”, expõe.

Exemplo de Serrana
Como exemplo da eficácia das vacinas, a pneumologista Ana Muzio comenta o estudo realizado pelo Instituto Butantan na cidade paulista de Serrana. Com 75% da população vacinada, os índices de óbitos e internações caíram em 95% e 86%, respectivamente.

“Ou seja, provou-se que mesmo a Coronavac, podendo ser uma vacina com uma eficácia um pouco menor, quando se vacina uma população muito grande teve um efeito muito positivo. Por isso que a Coronavac foi aceita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em uso emergencial também”, destaca.

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