Vanusa, Liniker e as Manhãs de Setembro que me arrebatam

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Por RégisMoreira*

Dia 25 estreou a série brasileira protagonizada por Liniker: Manhãs de Setembro. Fui tomado a cada cena, desde seu nome e toda a relação que a personagem mantém com Vanusa, cantora ícone pop da música popular brasileira, que estourou nos idos dos anos 70.

Eu criança, com minha sonata e minha coleção de discos bregas, fantasiava, por dias, meses, anos seguidos, que meu mundo era um estúdio de rádio e eu locutor do programa Parada de Sucessos, em que classificava todos os compact discos e ia dando detalhes de cada obra, antes de rodar na vitrola. Conversava com meu público imaginário e na sequência apresentava os grandes sucessos, que ele havia votado durante a semana. Vanusa era sempre umas das que subia no pódio. Depois da lida do trabalho de locutor da rádio imaginária, esse seu disco ainda rodava e rodava e rodava, insistentemente, em minha sonata marrom, que imitava madeira. Eu era feliz com minha vitrolinha, mas invejava a vitrola de minha irmã, que era azul meio turquesa, meio piscina. Mas deve ter sido por ser de homem que minha mãe comprou aquela marrom, que imitava os veios de uma madeira, com riscas em preto. Não a achava bonita, mas o som e as possibilidades de mundo que meus ídolos apresentavam naquela caixinha de som, me traziam outros novos respiros e possíveis azuis:

“Fui eu quem se fechou no muro
E se guardou lá fora
Fui eu quem num esforço
Se guardou na indiferença

Fui eu que numa tarde
Se fez tarde de tristezas
Fui eu que consegui
Ficar e ir embora
E fui esquecida
Fui eu”

Assim Vanusa começa sua canção. Tão intensa e significativa quanto sua trajetória que a levou ao ostracismo. Já comprometida com medicamentos psiquiátricos tarja preta, ela protagonizou, já na sua velhice, a cena do esquecimento da letra do Hino Nacional, que a fez famosa para novas gerações, mas como motivo de chacota. Logo ela, que era uma diva pop, parte do elenco da Caravana do Chacrinha, um show que percorria cidades do interior, levando os cantores e chacretes, que faziam sucesso no programa da TV. Eu tive oportunidade de assistir Vanusa em minha terra natal, ajeitando a franja loira que insistia em cair sobre seu rosto e tapar um dos seus olhos. Como era linda! Como era diva! E acessível! O país que enterra vivo os ídolos da sua cultura, assim o fez, ao som do Hino Nacional, muito sintomaticamente.  

A série, produzida pela Amazon, faz uma homenagem a ela e coloca sua obra no lugar em que sempre deveria ter estado. Um culto às suas lindas canções e interpretações viscerais. Vanusa foi uma feminista à sua época e quebrou várias barreiras estigmatizadoras contra a mulher. Não tanto por um discurso vazio, mas com a escrita da sua própria vida. Seu feminismo foi escrito com a carne.

Não bastasse esses afetos, Manhãs de Setembro traz uma travesti negra como protagonista, interpretada por ninguém menos que Liniker. Outra diva que me toma e compõe desde que surgiu no cenário musical. Tive oportunidade de vê-la algumas vezes, mas o show icônico que ela fez na Vila Cultural Kinoarte, numa chácara aqui em Londrina, cidade em que hoje vivo, foi inesquecível. Caiu uma tempestade daquelas, minutos antes do seu show. A água invadiu tudo, queimou parte da iluminação do palco e deixou o público no meio de um lamaçal. Assim foi meu primeiro show da Liniker, ali no meio do barro vermelho, dançando entre tantos corpos queer, que lotaram o espaço. O som, que havia queimado uma das fases, eu imagino, não estava à altura daquela cantora incrível, que conduziu a apresentação como se nada houvesse, acostumada a enfrentar adversidades que a vida lhe traz. Ali compreendi, mais que nunca, que existem shows que são para serem ouvidos e outros que são para serem sentidos, na vibração que provoca no corpo. E assim, deixei a dança me conduzir no meio do barro, entre os corpos queer, que celebravam este encontro. Foi lindo e inesquecível! Um show tátil!

“Fui eu que em noite fria
Se sentia bem
E na solidão sem ter ninguém
Fui eu

Fui eu que em primavera
Só não viu as flores
E o Sol
Nas manhãs de Setembro”

A trama é primorosa e arrebatadora. Sem dar muito spoiler, a série apresenta a história de uma motogirl, que também batalha na noite, interpretando sucessos de Vanusa, numa boate LBGT da noite suja de São Paulo. Sim, toda estética do filme é do submundo, da precariedade, das relações de afeto e alianças que se constroem na luta diária pela sobrevivência. Vidas diz-sonantes que se emaranham e vão tecendo uma história de deixar o coração tomado entre estilhaços e esperançares. Não bastasse todo esse contexto, Cassandra, nome da protagonista, descobre um filho de 10 anos, fruto de uma relação sexual acidental do passado. Já chega de contar a história. Mas toda essa estética levou-me aos meus submundos. Possibilitou visitar minha própria história por diversas vezes e nem sei bem o porquê. Numa dessas passagens, o dia em que fui buscar minha coleção de discos bregas na casa de minha mãe, pela qual tenho/tinha o maior afeto, e ela revela ter jogado no lixo. Sem me consultar, toda essa parte de minha história foi jogada no lixo. Morri um pouco naquele dia, mas depois a perdoei, como de costume. Mas meu corpo vitrola coleção de discos tinha sido ali, enterrado antes de mim. Como a indústria cultural fonográfica e do entretenimento matou Vanusa, num misto de esquecimento e chacota.

Com o coração estraçalhado, encerro a coluna. Assassinaram Natasha Galvão, mulher trans, na noite de 30 de junho, com tiro à queima-roupa, na cidade de Londrina/PR. No último dia do mês em que se comemora o Orgulho LGBTIA+ e Queer. No dia 01 de julho, ela também foi morta por parte da mídia, quando veículos noticiaram o nome de registro da vítima e omitiram dados do assassino.

“Eu quero sair

Eu quero falar

Eu quero ensinar

O vizinho a cantar

Nas manhãs de Setembro”    

Mas tá difícil cantar hoje, Vanusa. Há um grito engasgado que dói no corpo.

(A primeira temporada da série Manhãs de Setembro está disponível na plafaforma Amazon). 

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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