Homem é condenado a 14 anos por tentativa de feminicídio em Londrina

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João Aparecido Miranda foi responsabilizado com todas as agravantes pelo estrangulamento da ex-esposa Edneia Francisca de Paula, ocorrido em plena via pública, em 2019

Cecília França

Foto em destaque: Edneia durante o julgamento/Reprodução Youtube TJPR

“Hoje ainda tenho dificuldade para engolir do lado direito, engasgo muito, até com a saliva às vezes”. Este é um trecho do depoimento de Edneia Francisca de Paula, 53 anos, na manhã de hoje no tribunal do júri da Comarca de Londrina. Ela foi vítima de tentativa de feminicídio pelo ex-companheiro, João Aparecido Miranda, em plena via pública, em 3 de setembro de 2019. Hoje, o agressor foi condenado a mais de 14 anos de reclusão.

A pena final foi de 14 anos e 8 meses de reclusão pela tentativa de feminicídio e 4 meses e 23 dias de detenção por constrangimento ilegal à vítima, já que na noite anterior ao crime Miranda obrigou Edneia a sair da própria casa sob ameaças. O resultado do julgamento atende às orações da vítima por segurança.

“Eu fiquei dois dias em oração, porque não é fácil. Eu tenho família, e por tudo que sofri, quero que se faça justiça. Pelo que vivi, fiquei com trauma, com muito medo”, diz ela em entrevista à Lume. Edneia soube pela reportagem do resultado do julgamento. “A justiça tem que valer”, declara.

Edneia tem certeza de que não teria sobrevivido ao estrangulamento se transeuntes não a tivessem socorrido. “A força dele foi tão grande que eu apaguei”, lembrou ela durante o julgamento. A condenação de Miranda rompe um ciclo de vários anos de agressões vividas pela auxiliar de serviços gerais.

Edneia Francisca de Paula

“(Começou) logo de início, quando fui morar com ele que descobri que ele estava traficando. Um dia que fui atrás dele para ir embora, foi nesse dia que ele me agrediu a primeira vez”, relembra Edneia durante a entrevista. Na ocasião os dois tinham apenas 4 anos de relacionamento. Ao todo, ficaram 24 anos casados.

Como ocorre com muitas vítimas, Edneia demorou para contar para a família o que enfrentava e também exitou em denunciar. Só por volta de 2015 denunciou agressões e delitos do então companheiro. Ela conta que, após a tentativa de feminicídio, se sentiu acolhida pelo sistema de proteção.

“No dia 13 de outubro (de 2019) eu estava no Ministério Público dando meu depoimento, ele invadiu a casa da minha mãe com uma foice para me matar. Naquele momento eu me senti protegida pelo MP. Me levaram escoltada para um abrigo”, lembra. Mirando havia sido preso no dia da tentativa de feminicídio, mas solto 21 dias depois. Após a nova ameaça, voltou a ser detido.

Diante de tudo o que sofreu e do desfecho de sua história de violência, Edneia manda um recado “para todas as mulheres do mundo”. “Que as mulheres não tenham medo, que venham a se amar primeiro, que saibam quem estão colocando dentro de casa. Eu escolhi errado e paguei caro”, diz ela.

Observatório avalia

O Néias- Observatório de Feminicídios Londrina emitiu nota sobre o resultado do julgamento em que avalia erros na condução do processo, mas considera a condenação uma resposta adequada à vitima e à sociedade. Dentre os problemas apontados pela organização estão a demora de 20 para a realização de exame de corpo delito no Instituto Médico Legal (IML) após a agressão; a dificuldade de acompanhamento do júri popular e o questionamento reiterado à vítima, durante o julgamento, sobre sua demora em denunciar as agressões sofridas.

Sobre este ponto, a organização afirma: “Nós, do Néias, reforçamos que cada mulher tem seu tempo, não podemos julgar os motivos que a levaram a continuar nesse relacionamento, nem usar esse fato para relativizar os crimes cometidos pelo réu. Do contrário, estaremos culpabilizando a vítima.”

“Alivia-nos a sensação de impotência o fato de, a despeito das falhas apontadas na condução do processo, a sentença e a pena darem resposta adequada aos anseios da vítima e da sociedade por justiça.”, segue a nota. “Seguimos na luta pela superação dos conceitos machistas e patriarcais que vitimizam ‘Edneias’ diariamente. Enquanto uma mulher for vítima de violência, nenhuma de nós será livre.”, encerra.

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