Youtuber na terceira idade

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Seo Luiz canta suas aventuras cotidianas em modas de viola

A necessidade de ficar quieto em casa por conta da pandemia acendeu, em muitos aposentados, antigos sonhos que, por anos, foram adiados para o futuro por conta da correria do dia a dia. No caso do servidor público aposentado Luiz Gonzaga Ferreira da Silva, 69 anos, a poesia e a música desabrocharam na quarentena e por incentivo da família, ele decidiu criar um canal no Youtube para compartilhar sua arte.

Apesar de estar aposentado, as horas vagas para Luiz só apareceram assim que começou a pandemia. “Desde então, voltei a um antigo hábito, o da leitura. Comecei também a escrever algumas letras, que acabo transformando em canções, mas isto ainda não chega a ser um hábito e sim um passatempo. Gosto de ler temas diversos, desde romances, ficção até literatura histórica.”

“Comecei a escrever meio por acaso, pois não era um hábito. Uma das primeiras letras foi ‘Pandemia’, uma história fictícia de uma família de zona rural que se contamina e é salva por um peregrino, Jesus, negro”, conta Luiz. Como os familiares gostaram da poesia, ele decidiu colocá-la numa moda de viola. “Não é muito a minha praia, mas fiz. Essa música ainda não está publicada, em respeito às centenas de milhares de vítimas e seus familiares.”

Luiz explica seu processo criativo: “Outro dia, vi uma garota brincando com um gato, na TV, e escrevi uma ficção de como seria a vida de um gato de batuqueiro, ‘Infarto no gato’. Já no Dia dos Namorados nasceu a canção ‘Maria Helena’, que foi o meu presente para a minha esposa. Na época em que o Pantanal mato-grossense ardia em chamas, fiz uma música que eu chamei de ‘Pesadelo’, e uma outra que batizei de ‘Asa Preta’, retratando aquela terrível situação”, cita.

Ele relutou, mas no final de 2020 cedeu às sugestões dos filhos e criou seu canal no Youtube. “Tenho algumas letras escritas, algumas já musicadas, que vou publicando paulatinamente”, comenta Luiz, que nunca teve a pretensão de ser músico ou instrumentista. “Muito menos cantor, e não sou. Nunca havia cantado antes, nem em igrejas, onde atuo tocando violão em missas, para os outros cantarem. Mas, enfim, as músicas são minhas e eu as apresento, explicando sempre que a intenção é mostrar a produção, não o artista, pois para ser artista, tem que ser artista”, brinca.

Luiz confessa amar todo tipo de arte: cênicas, plásticas, músicas de todos os estilos. “Antigamente ouvia muito rádio e era ali que eu aprendia muitas músicas, comecei a gostar das músicas brasileiras, samba, valsa, choro, marchas e outros estilos vendo o meu pai e seus amigos tocando. Eu, pequeno, ainda estava sempre por perto vendo-os tocar, e ia longe com eles quando iam à casa de algum amigo, era uma delícia”, recorda.

Hoje, a música é seu remédio: “Toma o meu tempo disponível, mas me dá um enorme prazer. Como não sou conhecido, nem contratado por ninguém, faço para o meu prazer. Eu gosto. Para mim, a arte em geral é um bálsamo que cura, traz alegria. Deveria, nesta pandemia, ser considerada atividade essencial, pois é o que tem aliviado a pressão psicológica para muita gente”, opina.

Fotos: Arquivo Pessoal

Luiz nasceu em Londrina, onde viveu a vida toda. Aqui casou-se com Maria Helena Pereira da Silva e teve quatro filhos, que lhe deram oito netos. Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), foi criado trabalhando na construção civil, mas sempre estudando.

“Eu vivi a minha infância no Parque Guanabara. Eram outros tempos. Brincávamos de jogar bola, bétis, bolinhas de gude na rua e até mesmo brincávamos de mocinho e bandido nas quadras ao redor da nossa casa, onde havia muito mato e toras de madeira, da serraria do Seo Rodolfo, para se esconder. Morávamos na Rua Assunção, 320. Número que mudou para 52 devido a uma mudança no tamanho da rua, com a criação do Jardim Bela Suíça.”

Ele sempre teve um bom relacionamento familiar. Eram em sete irmãos, quatro homens e três mulheres: José, Lourdes, Bernadete, Paulinho, Luiz, Francisco e Beatriz. “Hoje restamos eu, Lourdes e Beatriz. Perdemos quatro irmãos na caminhada.”

A adolescência foi muito prazerosa, vivida na mesma casa da Rua Assunção. “As brincadeiras mudaram, entrou a natação no Lago Igapó, aonde a gente ia constantemente para se refrescar, e brincávamos muito de pega-pega. O nosso local preferido era a ‘prainha’, que depois foi tomada pelos grã-finos, que chegaram e tomaram conta das margens do Igapó com a conivência do poder público, uma lástima. O povo perdeu a maior parte do seu lago”, conta.

Mas o futebol continuou, nas ruas do bairro: “Improvisávamos campinhos nas quadras baldias do bairro. Havia também um campo de futebol, onde hoje há uma praça entre a Rua Assunção e Rua Santiago. Depois, o campo foi deslocado para o Jardim Cláudia e, posteriormente, para a região mais alta da Avenida Madre Leônia, que, à época, se chamava Rua Quito. O campo nós chamávamos de ‘Estádio das Bananeiras’, por conta dos muitos pés de bananas que havia por lá”.

“Fiz o primeiro ano na Escola Municipal Frederico Ozanan, localizada num terreno das freiras claretianas, entre a Paróquia São Vicente de Paulo e o Instituto Coração de Maria. Depois estudei, do segundo ano até a quarta série, na Escola Estadual Santos Dumont, que depois passou a chamar-se Escola Estadual José de Anchieta. Os quatro anos de curso ginasial fiz no Ginásio Estadual José de Anchieta. Íamos a pé, desde o Parque Guanabara até a Vila Higienópolis, pois não havia linha de ônibus e quando foi implantada, não tínhamos dinheiro. Como era ‘perto’, íamos nos divertindo, chutando a poeira ou amassando barro quando chovia”, recorda.

No ginásio, Luiz passou a estudar à noite para ajudar o pai na construção de casas de madeira, “que era muito comum aqui em Londrina, na época”. “Nunca senti cansaço nas idas e vindas da escola, pois eu gostava muito de estudar”, declara o professor, que gostava de ir a quermesses com o irmão Paulinho e os amigos.

“Era muito divertido. Mas eu não ia a essas festas para namorar, eu não fui um ‘Don Juan’. Namorei vagamente uma garota e me casei com a segunda garota que namorei. Já se foram 47 anos neste 30 de março, quando ela e eu fizemos 69 anos de idade. Nascemos no mesmo dia, mês e ano, e o nosso casamento foi num dia 30 de março, quando comemorávamos o nosso aniversário de 22 anos.”

Depois de trabalhar na construção civil e nos Correios, Luiz trabalhou por 17 anos no Banco da Amazônia e cinco anos após ter deixado o banco começou a atuar como servidor público na UEL. “Entrei na UEL em 2002, aos 50 anos, e trabalhei ativamente até 2017. Foram 15 anos de atividade, tendo muito contato com os professores e alunos dos cursos de Jornalismo e de Relações Públicas.”

“Meu primeiro dia na UEL foi também o início de uma nova turma de Jornalismo, em junho de 2002. Uma turma especial. Acabamos nos tornando amigos e ao final de quatro anos, eu fui escolhido ‘nome de turma’ por eles. Não contente, a turma registrou em uma placa, que está afixada no corredor de entrada do Departamento de Comunicação, no Ceca, meu nome com os nomes do paraninfo, do patrono e do reitor à época, além dos formandos, dos quais me lembro de cada um. Depois disso, ao longo desses 15 anos de atividade, acabei sendo homenageado mais umas 14 vezes como ‘nome de turma’, ‘paraninfo’ e até ‘patrono’ das turmas de Jornalismo e de Relações Públicas”, comemora o servidor, que já teve que se desdobrar entre turmas que o homenagearam numa mesma colação de grau.

“O trabalho em si foi muito gratificante, aprendi muito naquele departamento da UEL. Tenho orgulho em saber que, em mais de uma oportunidade, conversando com alunos que pensavam em trancar matrícula, por motivos de saudades de casa, de namorado etc., consegui que eles continuassem firmes no curso, e a comemoração agradecida na hora da colação de grau, lembrando o episódio. Isso me veio à lembrança durante o isolamento e eu usei como tema para compor ‘A Saudade’”, declara.

Outra lembrança que ele traz dos tempos de UEL é sua participação no Programa Tecer Idades, que teve início em 2014, como um projeto de extensão criado e coordenado pelo professor Reginaldo Moreira, o Régis, do Departamento de Comunicação.

“Após uma seleção, começamos, na época, com uns 20 membros, entre pessoas da Terceira Idade, monitores, alunos dos cursos de Jornalismo e de Relações Públicas, além do coordenador. Inicialmente, produzimos um programa de TV e alguns documentários, em que os membros do projeto contavam suas histórias de vida. Porém, a TV UEL não tinha ainda força própria para levar ao ar as suas matérias, então, por volta de 2018, o professor Régis renovou o projeto e passamos a produzir um programa mensal de rádio, com o projeto reduzido a 15 membros”, comenta Luiz.

Segundo ele, o programa de rádio foi um sucesso. Era uma revista de variedades: saúde, política, educação, história, cultura. “Em princípio, eu apresentava o quadro ‘Cultura viva’, no qual entrevistava pessoas da nossa cidade e região ligadas à música ou outra atividade cultural. Depois, criamos um quadro em que eu e minha amiga Maria Clementina, a Clem, professora aposentada do Curso de Serviço Social da UEL, apresentávamos os compositores ou cantores antigos, como Lamartine Babo, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e outros. Então, chegou a famigerada pandemia da Covid-19. Paramos tudo, pois era a regra, além do que, nós, componentes do programa, éramos da terceira idade, um dos principais grupos de risco”, reconhece.

No final de abril de 2020, o professor Régis consultou o grupo sobre a possibilidade de retomar os trabalhos de forma remota e todos toparam na hora. Com o uso de novas tecnologias e uma mudança no formato do programa, o grupo passou a produzir quatro programas por mês. “Já não fazíamos mais as reuniões para a montagem do programa, era na lata. Cada um se preparava sobre o assunto da semana, na hora combinávamos e pronto. O programa ficou pouco tempo fora do ar e voltou revigorado. Neste ponto, nós do Programa Tecer Idades vencemos a pandemia.”                                                                                                                                      

Descrevendo-se como “um brasileiro que perdeu a confiança nos políticos brasileiros”, Luiz garante que conseguiu realizar os sonhos que, ele crê, são também os da maioria dos brasileiros: “Ter uma família, uma casa própria, um carro popular e muitos amigos. Alguém poderia perguntar, por que um carro popular? Ao que respondo: porque os outros são impopulares”, brinca. E é com esse espírito leve que ele ainda planeja realizar novos sonhos, como cursar Música, para aprender a ler partituras. “Temos idade avançada, mas disposição mais avançada ainda.”

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras. Siga @bolachinhasdamari

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