O relações públicas da rua

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Após 24 anos nas ruas, André Luís Barbosa ingressa na UEL como calouro em um curso de comunicação: “Querendo ou não, eu sou comunicador”

Cecília França

Conheci o André em 2019, durante entrevista sobre a população de rua em Londrina. Foi meu primeiro contato com um integrante do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e ele aconteceu na Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde agora André Luís Barbosa entra, aos 46 anos, como calouro do curso de Relações Públicas.

O curso não era a primeira opção dele, que pretendia cursar Serviço Social. Um erro no preenchimento do cadastro, no entanto, o levou para a comunicação. Erro que ele enxerga como “Deus escrevendo certo por linhas tortas”. Depois de ler sobre o curso de Relações Públicas, identificou ali características suas e de sua atividade como militante, e resolveu encarar.

“Já é um pouco a minha vibe fazer essa representação do movimento. Eu tive a oportunidade ontem mesmo de acrescentar minha nota do Enem para mudar o curso, aí eu disse, ‘Deixa, vou ingressar em RP mesmo’. Querendo ou não eu sou comunicador”, diz ele.

Não foi a primeira vez que “a mão de Deus” tocou a vida de André, que passou 24 anos nas ruas. Em 2014, após anos sem falar com a mãe, ele a reencontrou. “Um mês antes dela morrer eu tive contato com ela. Foi bom pra mim. Eu sofri tanto quanto ela morreu, acho que se eu estivesse brigado com ela sofreria mais ainda”, conta.

Para superar a rotina de vício, frio, fome e violência nas ruas, André contou com uma rede ampla de apoio institucional e de amigos. A superação começou em 2010, quando ele passou a frequentar o Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS-AD). Quatro anos depois começou a utilizar o serviço do Centro Pop e conheceu pessoas importantes na caminhada que viria. Desde 2019 mora em República mantida pela assistência social do município.

André não se define como ex-morador de rua. “Sempre vou ser um morador de rua em estado de superação. A recaída vem, se a gente não se cuidar. Pra voltar para a rua é fácil, o problema é sair dela. Nós não somos perfeitos, errar é humano; o ser humano está ligado ao erro, mas que a gente não pode é persistir no erro”, ensina.

Superar a vulnerabilidade das ruas e conquistar uma nova vida não é tarefa fácil e André atribui à fé em Deus seu sucesso nessa missão. “Acreditar em Deus e acreditar que a gente tem chance. A gente precisa de uma assistência, de um psicólogo, mas sem Deus a gente não vai conseguir. A tentação ‘taí’ e a se a gente não tiver uma base para sustentar é muito difícil”, garante.

Estudo

André fez o ensino fundamental em 1999, mas só concluiu o ensino médio 20 anos depois, em 2019. A aprovação no vestibular da UEL coroa o esforço dele e de uma rede de amigos que o ajudaram com aulas particulares. No próximo dia 2 iniciam as aulas na universidade, inicialmente remotas.

“Segunda quinzena de agosto já começa presencial. Amanhã (sexta) tenho uma reunião na UEL pra tentar mudar para o condimínio, pra morar lá dentro. Hoje tenho condições de pagar um aluguelzinho já”, comemora.

Atualmente, André trabalha como Educador Par na Escola Londrinense de Circo e em uma rede de supermercados. Ainda acumula atividades de articulador entre população de rua e poder público dentro do MNPR. Como ele dá conta de tudo? “Quero recuperar o tempo perdido”, explica.

2 comentários

  1. Conquista linda e matéria emocionante! Tenho a honra de conhecer, conviver e contracenar com André, um “irmão” e um excelente comunicador, que já é e será ainda melhor RP com a excelente formação que a Uel com certeza lhe proporcionará.

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