‘Março Amarelo’ pretende conscientizar londrinenses sobre a endometriose

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Doença que acomete uma em cada dez brasileiras ainda não tem tratamento pelo SUS

Mariana Guerin

“A endometriose é uma doença invisibilizada. O diagnóstico tardio geralmente acontece na vida adulta, então muitas jovens passam a adolescência com dores e sem tratamento. Muitas descobrem só aos 30 anos, quando decidem engravidar. É uma doença que deixa cicatrizes emocionais, que só pioram o quadro de dor e podem levar à ansiedade e depressão.”

O alerta é da jornalista londrinense Marian Trigueiros, 39 anos, que sofre com as dores físicas e emocionais da endometriose desde a adolescência. Hoje, ela comemora uma vitória importante para as portadoras da doença após anos de tentativas de conscientizar a população sobre a desvalorização da doença pelo poder público. Aprovado no início do mês pela Câmara de Vereadores de Londrina, o projeto de lei que institui o “Março Amarelo” tem por objetivo divulgar a importância do diagnóstico e do tratamento da endometriose por meio de ações educativas. O projeto, de autoria da vereadora Lenir de Assis (PT), inclui ainda a data no calendário de comemorações oficiais do Município.

“Estudos alertam que existem mais de 7 milhões de mulheres no Brasil que sofrem da doença. Há um descompasso entre o aumento quantitativo dos casos e a divulgação de informações sobre o diagnóstico rápido da doença e sua importância para um tratamento efetivo”, justifica a vereadora.

Segundo ela, “uma programação sobre essa temática, durante um mês, no âmbito das comemorações oficiais do município, vai chamar a atenção para a importância de preparar profissionais da saúde para essa demanda. Precisamos sensibilizar a população, uma vez que a falta de informações esconde o debate e a gravidade do problema”.

Em fevereiro de 2020, o plenário da Câmara dos Deputados já havia aprovado a criação do Dia Nacional da Luta Contra a Endometriose, definido para 13 de março, além da Semana Nacional de Educação Preventiva e de Enfrentamento à Endometriose. O texto seguiu para o Senado Federal. A deputada Marina Santos (Solidariedade-PI), relatora dos projetos, destacou que a proposta pode contribuir para um diagnóstico precoce da doença.

A endometriose é classificada como uma doença ginecológica, definida pelo desenvolvimento e crescimento de estroma (tecido vascularizado) e glândulas endometriais fora da cavidade uterina, o que resulta numa reação inflamatória crônica. Entre os sintomas estão dor abdominal, sangramento nas fezes, cólicas menstruais, alterações do hábito intestinal, dor durante a relação sexual e distensão abdominal. O tratamento pode ser clínico, com o uso de medicamentos, ou cirúrgico.

A jornalista Marian Trigueiros recebeu o diagnóstico de endometriose em 2013, aos 31 anos. Sofrendo de dores incapacitantes por anos, ela pouco sabia sobre a doença e apostou todas as suas fichas num procedimento cirúrgico, realizado em 2014. Sem obter o sucesso esperado com cirurgia, ela decidiu estudar sobre o assunto e buscou o suporte de grupos de apoio pelo Brasil, até encontrar outras portadoras de endometriose em Londrina.

Hoje, o grupo Endomulheres Londrina conta com 30 participantes, que além de trocar informações sobre a doença, organizam, anualmente, a Endomarcha, que acontece durante as comemorações do Mês da Mulher. Já foram sete marchas realizadas em Londrina. No ano passado, o grupo conseguiu sensibilizar a vereadora Lenir de Assis, que abriu espaço para essas mulheres alertarem sobre a doença em palestras realizadas pela Comissão da Mulher na Câmara.

“O direito à saúde começa com políticas públicas, por isso esse projeto de lei é tão significativo”, opina Marian, que há três anos, em parceria com o Endomulheres Londrina, buscava apoio do Município para dar visibilidade à doença.

Segundo ela, os exames necessários para o diagnóstico da endometriose ainda não são ofertados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), comprometendo ainda mais a saúde dessas mulheres, que dependem exclusivamente da rede particular de saúde. “O diagnóstico e o tratamento são complicados e caros, faltam profissionais e medicamentos. O tratamento requer ferramentas que o SUS ainda não tem”, reforça Marian. Ela informa que em Londrina sequer há um levantamento sobre diagnósticos, os quais são, normalmente, tardios.

“É preciso ressaltar a individualidade da doença e os diferentes tipos de tratamento para cada paciente. Os caminhos são diferentes, mas a partir da troca de informações, cada uma descobre o melhor para si. A informação é libertadora”, opina a jornalista, citando que entre as ações do Endomulheres Londrina estão reuniões mensais com profissionais de diversas especialidades para levar conhecimento técnico sobre a doença às participantes.

Para ela, os médicos brasileiros ainda não estão preparados para lidar com a endometriose, por isso a conscientização sobre a doença é fundamental. “Quando recebem o diagnóstico, as mulheres ficam desesperadas. Muitas tiveram que remover partes do corpo, outras perderam emprego por conta das dores. O acolhimento e a troca de informações seguras por meio dos grupos de apoio auxiliam em casos individualizados, porque é desgastante e frustrante lidar com a própria dor.”

Diagnosticada após consultar pelo menos 12 médicos diferentes, Marian passou a pesquisar sobre a doença ao longo dos anos e mudou completamente seu estilo de vida, incluindo dieta anti-inflamatória, atividades físicas, acompanhamento emocional, suplementação vitamínica e terapias alternativas, como acupuntura e osteopatia, para aliviar os sintomas, com os quais convive diariamente. Recentemente, ela descobriu a fisioterapia pélvica, que ajuda a controlar as dores, garantindo mais qualidade de vida.

“Uma em cada dez mulheres são portadoras de endometriose no Brasil hoje e o tratamento com medicamentos que garantem qualidade de vida pode chegar a R$ 1 mil mensais, em média. Um exame custa de R$ 3 mil a R$ 5 mil. E só é ofertado na rede particular. Precisamos de médicos com maior abertura para a complexidade da doença e de mais pessoas engajadas, que entendam a nossa dor. Queremos viver uma vida de escolhas e não de restrições.”

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