Vixe, e agora? A peste é negra

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A geada, negra. A peste, negra. A lista, negra. A ovelha, negra. A viúva, negra também. Assim vai se colocando na conta das negras o peso de coisas ruins. E, por associação, ligando diferentes esferas de problemas ao corpo feminino negro.

Nossa língua não é neutra. E a construção de expressões, como as elencadas no início deste texto, valida um discurso de raça e de gênero existente em nossa sociedade.

E aí me pergunto, como mulheres negras podem ter acesso a mais humanidade dentro desta construção que relaciona nossa raça e nosso gênero a coisas ruins? Como podemos nos tornar sujeito dentro de uma estrutura social que nos coloca nessa posição de associação direta com coisas, eventos e comportamentos indesejáveis?

Racismo
O racismo é um problema estrutural e ele é um dos pilares da sociedade em que vivemos. Nele, um grupo se diferencia dos demais e, fazendo aqui um recorte apenas entre duas raças – branca e negra -, a pergunta inicial poderia ser: Quem é diferente de quem? Os brancos são diferentes dos negros ou são os negros que são diferentes dos brancos?

Um questionamento que poderia ser de mão dupla, de equilíbrio e de neutralidade, não se concretiza porque existe aí um elemento muito importante, que é a relação de poder. Sendo assim, o branco, criador do racismo, que sequer se percebe enquanto ser racializado, colocou a si próprio como parâmetro universal de humanidade e, a partir daí, os outros grupos foram subcategorizados como os racializados e como os diferentes.

E para que essa dinâmica de diferenciação funcionasse, um dos primeiros passos que os criadores do racismo fizeram foi atribuir a si mesmos elementos e expressões de bondade e de virtudes que lhes estabelecessem enquanto uma supremacia. A paz é branca, a bondade é branca, a pureza é branca… E atribuíram aos negros tudo aquilo que não é bom, que não é virtuoso, que nos coloca hierarquicamente abaixo. A diferenciação ocorre nesse processo de separação, de discriminação. Por isso a peste é negra, a geada é negra, a ovelha é negra…

Grada Kilomba, em seu livro Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano, explica que a língua, por mais poética que possa ser, tem também essa extensão política de criar e reproduzir relações de poder e de violência. A língua comunica quem, dentro da estrutura social, política e econômica, pode representar a verdadeira condição humana e quem não pode.

Enquanto mulher preta, toda vez que sou relacionada a palavras e ideias negativas, me é negado o direito de existir como igual, me é negado humanidade, me é negado existir enquanto eu mesma.

Isso ocorre porque o meu corpo físico me torna a personificação daquilo que as pessoas não querem se reconhecer como igual. Por essa estrutura do racismo, o corpo feminino negro se torna tudo aquilo que ninguém quer ser, porque ele é visto como uma projeção de coisas ruins e não como aquilo que ele de fato é. E isso é o que torna nosso corpo tão vulnerável aos mais variados tipos de violências e negligências.

Viver sob a construção que o racismo projeta em nós, pessoas de raça negra, é violento, cansativo e muito doloroso, mas assim como o racismo foi construído, ele pode ser desconstruído. Cabe às pessoas brancas, como parte da raça que inventou o racismo, entender sua posição privilegiada nessa hierarquia e se questionar: Como posso desconstruir o meu próprio racismo?

Já deixo aqui uma dica: Educar-se é o caminho e O Pequeno Manual Antirracista da filósofa Djamila Ribeiro pode ser um bom começo.

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

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