Ossos da fome

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Ontem, dia 25 de julho, o Fantástico apresentou reportagem que mostra que pessoas lutam em filas para receber ossos com retalhos de carne em Cuiabá. Ossos. A dona do estabelecimento disse, emocionada, “tem gente que pega e já come cru, ali mesmo”.

Essa situação escabrosa é o retrato do Brasil atual, em que quase 30 milhões de pessoas (15%) passam fome e mais da metade da população convive com insegurança alimentar (59%). Os dados são resultado da pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, realizada por pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade de Brasília. A pesquisa, publicada em abril de 2021, ultrapassa a marca da pesquisa realizada pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), que apontou que mais de 19 milhões de brasileiros passou fome no último trimestre de 2020 (cerca de 9%).

O aumento é acintoso e demonstra que o país está num caminho acelerado para a miséria. Com a diminuição do auxílio emergencial, o aumento descontrolado dos preços dos alimentos e da taxa de desemprego, a fome tornou-se uma realidade para milhões de brasileiros. Nesse sentido, mais de 125 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de insegurança alimentar, sendo 31,7% leve, 12,7% moderada e 15% grave.

A porcentagem, acompanhada de um termo técnico, quase um eufemismo, entretanto, não deixa transpassar a realidade dos dados. O que os dados acima referidos mostram, é que, basicamente, 31,7% da população, ou seja, mais de 65 milhões de pessoas, passou, no último ano, a viver sem ter certeza de que terá o que comer no dia seguinte ou que teve que prejudicar a qualidade do que come para manter quantidade suficiente de alimento, essa a insegurança alimentar leve. Já cerca de 12% dos brasileiros (mais de 25 milhões de pessoas) experimentaram ruptura alimentar entre os adultos, com expressiva diminuição dos alimentos, sem que isso atingisse, contudo, as crianças. E o dado mais triste e alarmante, 15% da população, como dito, mais de 30 milhões de pessoas, passa fome, inclusive crianças.

O caminho de retorno do Brasil à insegurança alimentar, embora tenha acelerado com a pandemia, havia se iniciado antes, ainda com o Governo Temer. Não é demais lembrar que em 2013 o Brasil registrou a melhor taxa de segurança alimentar da história, cerca de 77,4%. Veja bem, não é insegurança, é segurança. 77,4% da população brasileira, ainda no Governo Dilma, tinha acesso a alimentação em quantidade e qualidade adequadas. Mas esse número já diminuiu entre 2017 e 2018, como mostra estudo do IBGE (Pesquisa de Orçamento Familiar), em que essa marca caiu 14,1%. Mas o Brasil ainda tinha 63,3% de sua população vivendo em segurança alimentar.

Mas foi com o governo Bolsonaro que o Brasil voltou ao mapa da fome. Uma combinação de uma política de morte, que privilegia os mais ricos em detrimento de quem mais precisa, e de uma pandemia que já ceifou mais 550 mil vidas. Exemplo disso foram os cortes do (des)governo Bolsonaro na política de estoques nacionais que, junto de outras condições (como a preferência da política nacional pelo agronegócio em detrimento de produtos de consumo interno), levaram ao aumento significativo de preço de alimentos essenciais à alimentação diária dos brasileiros, como o arroz (aumento de 76%), o óleo de soja (aumento de 103,79%), a batata (aumento de 67,27%), tomate (aumento de 52,76%) e carnes em geral (aumento de 18%).

Caminhamos a passos largos para a miséria de uma população cada vez mais empobrecida e desassistida. O caminho nos leva a pessoas abrindo mão de sua dignidade para conseguir o mínimo de alimentação para si e sua família. O brasileiro que viveu anos de esperança no começo desse século, agora vive com medo do amanhã.

É importante lembrarmos, sempre, que a vida humana pressupõe dignidade, e para que se tenha dignidade a segurança alimentar é condição indispensável, e deve do Estado. O que vemos acontecer, contudo, é a famosa necropolítica de Bolsonaro e dos privilegiados que o mantém no poder.

Afinal de contas, a taxação de grandes fortunas seria uma tragédia para os mais ricos, já que os empobreceria, como dizem os grandes empresários desse país, a eles não importa a diminuição da desigualdade, a eles não importa que seres humanos tenham que se aglomerar para conseguir pedaços de ossos para sua alimentação, afinal, os pobres já estão acostumados com a miséria, o que importa são os milhões em sua conta.

E tudo isso era uma tragédia anunciada. Sim, anunciada. Mesmo que não houvesse pandemia, pois era evidente – e amplamente avisado por democratas em todo o país – que Bolsonaro assumiria para favorecer a burguesia e para minar as políticas sociais que fizeram esse país sair da lama. O que vemos em reportagens como essa é só o resultado de um trabalho árduo para empobrecer, marginalizar e matar.

Enquanto a população rói osso para sobreviver, o presidente da república – e o baronato que o apoia – degusta picanha de R$ 1800,00/kg.

Enquanto a fome escancara os ossos de um país em decadência, Bolsonaro e a burguesia que o elegeu – e lá o mantém – fecham os olhos, afinal “não se vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético” – não do alto da cobertura onde mora, pelo menos.

Basta agora saber qual será o slogan para a campanha de 22 para Jair: “Brasil, pátria esfomeada” ou “Brasil, um país para poucos” – os demais foram mortos ou presos. Melhor não esperar até lá para tirar esse genocida do poder… quem tem fome, tem pressa.

*Paula Vicente e Rafael Colli são advogados especializados em causas de Direitos Humanos, minorias políticas e Direito Penal em Londrina

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