Atenção básica em Londrina fica em segundo plano na pandemia

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Muitos pacientes que têm buscado atendimento em postos de saúde saem das unidades sem agendar consultas ou realizar exames   

Mariana Guerin

Foto em destaque: Vivian Honorato/N.Com

Sem poder trabalhar e sentindo dores constantes no corpo, Alessandra Razionale Alencar, 46 anos, sofre as consequências do adiamento de uma cirurgia bariátrica por conta da pandemia do novo coronavírus, que já dura 17 meses e matou mais de 550 mil brasileiros. Ela entrou na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) em setembro de 2018, mas a requisição para realizar os exames pré-cirúrgicos sequer chegou à administração da Unidade Básica de Saúde Padovani, no Residencial Vista Bela, onde ela vive com os três filhos.

“O encaminhamento está com data de 2018, e entrei na fila no final de 2019, quando a médica me disse, em uma das consultas, que tinha sido liberado e que era só esperar a liberação para o posto. Mas no começo de 2020 parou tudo”, conta Alessandra, que passou por diversas consultas com nutricionista, fisioterapeuta e psicólogo antes de optar pela cirurgia de redução do estômago.

“São muitos anos de luta e continuo a engordar”, lamenta a dona de casa, que sofre de pré-diabetes e dores constantes nos joelhos, tornozelos, coluna, quadril. “Tenho problemas para me locomover, abaixar. Amarrar o tênis é missão impossível. Tenho asma e, consequentemente, por causa da obesidade, tenho muita falta de ar. Uma tarefa simples, como arrumar uma casa, para mim é muito puxado.”

Divorciada há sete anos, é ela quem sustenta sozinha os três filhos de 14, 12 e 11 anos: “Eu tenho bolsa família e meu ex-marido, de vez em quando, paga a pensão dos meninos. Recebo ajuda de algumas pessoas e da minha família, que vive em São Paulo, mas, com a pandemia, a situação ficou difícil para eles também”, diz Alessandra, que convive com a obesidade há 14 anos.

Foto: Arquivo Pessoal

“Quando engravidei do meu filho mais velho, engordei muito por conta dos remédios que tomei para segurar a gestação. Também tenho problema de hipotireoidismo e só tenho metade da glândula, porque tive suspeita de câncer. Tomo remédio para a tireoide e muita dipirona e ibuprofeno para a dor. Ibuprofeno, que é anti-inflamatório, só posso tomar dez comprimidos ao mês, porque ele me causou problemas no fígado”, cita a dona de casa.

“Uma senhora de 80 anos tem mais autonomia em movimentos que eu. Fora o preconceito, os rótulos. As pessoas pensam que somos preguiçosos, que passamos o dia comendo”, desabafa Alessandra. Para controlar as crises de ansiedade, ela participava de rodas de terapia na UBS Padovani, mas elas também foram canceladas por conta da pandemia. “Meu maior medo é morrer, não porque tenho medo da morte. Mas porque meus filhos são pequenos ainda e o pai deles não tem juízo, nem condições emocionais e morais para cuidar e educar eles. Porque eu acredito que eles vão ser três homens de caráter.”

Rhander Orlando Rojo Lima, 17 anos, precisou pagar uma consulta particular com oftalmologista em junho de 2020 porque não conseguiu agendar atendimento na UBS San Rafael, em Ibiporã. “Minha família não tem convênio e consequentemente usamos o SUS para tudo, inclusive oftalmologista. Acontece que eu estava precisando aumentar o grau dos óculos porque estava sentindo muitas dores de cabeça. Então, a sugestão foi fazer uma consulta no postinho e o médico me daria uma cartinha para eu fazer o exame. Mas o posto se recusou a marcar a consulta porque entendeu que não era prioridade por não ser uma doença grave. Eu tive que ir para o particular porque a dor de cabeça ficou insuportável”, conta o estudante.

“Meu problema é que eu costumo me consultar na UBS da Vila Brasil, que está em reforma há muito tempo. Eles estavam funcionando na escola, mas foram despejados e agora a UBS da Vila Brasil está funcionando na UBS do Centro, junto com a UBS do Guanabara, uma confusão. Sem condições de tratamento lá. Ginecologista não tem faz mais de quatro anos”, relata à Lume uma paciente de Londrina que não quis se identificar. Ela lembra que teve um problema com o diu e demorou três dias para conseguir algum profissional para tirá-lo. “Só depois que me mandaram para a Policlínica que eu consegui tirar”, comenta.

Em julho, quatro UBSs retomaram os atendimentos de rotina para a população: Ernani Moura Lima, San Izidro, Milton Gavetti e Mister Thomas. Até dia 19 de julho, essas unidades eram exclusivas para casos respiratórios ou de vacinação contra a gripe, sendo que esta última prossegue na UBS da Vila Casoni. Os usuários já podem agendar consultas e exames, retirar medicamentos, tomar vacinas, entre outras ações de atenção primária.

Para os pacientes com sintomas de covid-19, o atendimento permanece em cinco UBSs: Guanabara, Bandeirantes, Chefe Newton, Maria Cecília e Vila Ricardo. O funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Segundo o secretário municipal de Saúde, Felippe Machado, o remanejamento se deu por conta da diminuição do número de casos de covid-19 na cidade nas últimas semanas. “Quando nós fizemos a alteração no sistema de saúde, com inclusão dessas quatro UBSs para atendimento respiratórios, a média era de 100 a 120 consultas por dia em cada unidade. Nas últimas semanas, esses números caíram para 15 a 20 consultas”, detalha.

De acordo com a médica Flora Mestre Passini, residente em Medicina da Família e Comunidade, que atua na UBS Padovani, no Vista Bela, as consultas eletivas foram retomadas há três semanas no Vista Bela. Antes, somente gestantes e puérperas, crianças e casos prioritários recebiam atendimento no local, que permanece recebendo pacientes diariamente.

“Cada UBS está dando seu jeito para atender pacientes com descompensações de doenças de base. Mais ou menos 200 pessoas por dia passam pela UBS. As enfermeiras fazem a triagem e pedem para voltar outro dia. O paciente sai frustrado e angustiado”, declara a médica.

Segundo ela, muitos pacientes deixaram de colher exames e passam na UBS apenas para renovar receitas de medicamentos sem passar por consulta médica, principalmente pessoas com diabetes, hipertensão e doenças psiquiátricas durante a pandemia. “Estamos há um ano sem os grupos terapêuticos, a ponto de muitos participantes voltarem para as ruas, voltarem a usar drogas de novo”, ressalta Flora.

“A UBS é a porta de entrada da atenção primária, onde o paciente coleta exames de sangue, faz raio-x, ultrassom, marca consultas para acompanhar doenças crônicas, trata da saúde mental, saúde da mulher, faz fisioterapia, passa por nutricionista, psicólogo, assistente social. Os cuidados de rotina suspensos podem levar ao que chamamos de quarta onda do covid-19, que é o agravo de tudo que não foi olhado durante a pandemia”, avalia a médica.

Para ela, a perda de vidas, de emprego e de socialização por conta da quarentena pode levar a uma descompensação de doenças crônicas e da saúde mental da população, além do aumento na mortalidade infantil e materna no período. A UBS Padovani atende hoje uma população de cerca de 18 mil pessoas.

A médica ressalta que com o deslocamento de profissionais da UBS Padovani para ajudar no atendimento e na vacinação contra a covid-19, o serviço no posto de saúde ficou ainda mais comprometido, prejudicando as famílias, que procuram a unidade até por questões afetivas. “Muitos casos de violência doméstica são relatados na UBS. É um lugar de afeto, de procura por cuidado.”

A prefeitura de Londrina informa, por meio da assessoria de comunicação, que “o protocolo é atendimento para casos covid-19 nas UBSs específicas de atendimento de síndrome respiratórias e as demais atendem as outras enfermidades. As pessoas que são atendidas pelas UBSs recebem as devidas orientações no local. Em Londrina, todas as UBSs estão atendendo a população, há aquelas que atendem somente síndrome respiratórias, outras que são pontos de vacinação covid-19 e gripe e as demais são para atendimento geral, além de vacinar gripe. O CAPS está funcionando normalmente”. Hoje, Londrina conta com 54 UBSs, sendo 12 na zona rural. Cinco estão atendendo exclusivamente casos de covid-19.

Atualizada às 18h05.

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