Famílias mais pobres enfrentam o medo de não ter comida

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Alimentar-se de forma equilibrada está fora do alcance de mais da metade das famílias brasileiras; nutricionista explica consequências da insegurança alimentar

Cecília França

Insegurança alimentar é quando alguém não tem acesso fácil e permanente a alimentos; quando vai dormir preocupado se terá comida para seus filhos no dia ou na semana seguintes; é ter que limitar o acesso a alimentos por questões econômicas. É enfrentar situações como a da londrinense Daniele Taveira dos Santos, 42, moradora do Vista Bela, mãe de cinco filhos, de 19, 12, 11, 9 e 1 ano. Sua rotina tem sido “dormir pensando no amanhã”.

“Nem sempre sobra (dinheiro) pra comprar frutas, verduras. Carne, então, é raro. É mais o básico mesmo”, diz ela, que vive da renda de R$ 398 do Bolsa Família. No dia que conversamos, última quinta-feira (22), a família havia almoçado arroz, feijão e batata cozida.

“Graças a Deus tenho recebido ajuda com cesta básica, se não fosse isso não sei como eu conseguiria comprar alimentos. Tenho um bebê pequeno, tenho gasto com fralda, leite…então tá muito difícil”, conta a mãe.

Nada menos que 59% dos lares brasileiros enfrentam realidades semelhantes à de Daniele, de acordo com a pesquisa Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil, divulgada em abril por pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB).

Daniele e os filhos/Arquivo Pessoal

Existem três níveis de insegurança alimentar, leve, moderada e grave (quando a fome passa a fazer parte da rotina). Segundo o levantamento, 44% dos brasileiros reduziram o consumo de carnes e 41% o consumo de frutas em 2020. Com isso, cai a qualidade da dieta, comprometendo a saúde.

Esta não é a primeira matéria que fazemos sobre a dificuldade da população mais pobre de ter acesso a uma alimentação adequada. Já mostramos como o fim do Auxílio Emergencial de R$ 600 precarizou ainda mais a vida dessas famílias, e como o aumento nos preços dos alimentos impactou neste acesso e, também, na sustentabilidade de projetos sociais.

Mas, embora o impacto da pandemia seja incontestável, a insegurança alimentar já vinha aumentando no Brasil entre 2017 e 2018, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – informação triste para um país que saiu do mapa do fome da Organização das Nações Unidas (ONU) apenas em 2014.

A nutricionista Valéria Mortara descreve a fome e essa insegurança alimentar como “um projeto político muito antigo”. “Na nossa sociedade a fome se concentra em pessoas condenadas à incerteza de sobreviver desde a sua mais tenra idade”, diz, citando Maria do Carmo Soares de Freitas no livro A Agonia da Fome. “Então ela faz parte de um ‘projetão’. É um genocídio também. São pessoas que desde cedo vivem isso. Qualquer pessoa que coma não consegue imaginar”, afirma.

Além da nutrição

Valéria explica que se alimentar não é apenas nutrir o corpo. Existe o fator do prazer e das vivências proporcionadas pela alimentação, experiências das quais os mais pobres são privados. “É bicho que tem necessidades calóricas, o ser humano tem – além dessa necessidade de carboidratos, fibras – o prazer. Então, se a pessoa vê na televisão uma família rindo e feliz tomando iogurte, ela está sendo massacrada com essa informação e ela quer fazer parte disso”, compara Valéria.

Nesse contexto, a profissional defende que os programas de distribuição de renda das últimas décadas foram extremamente importantes e dá uma dica para quem ajuda famílias em situação de insegurança alimentar. “Se você puder, pergunte o que a pessoa quer. E se ela quiser bolacha recheada, compre um pé de alface, mas compre um pacote de bolacha também”, sugere.

Com a pandemia, diversas iniciativas sociais surgiram ou foram reforçadas especialmente para a distribuição de cestas básicas nas periferias de Londrina. O poder público municipal também buscou compensar a ausência da merenda escolar distribuindo cestas a 12 mil famílias com filhos matriculados.

Essas cestas ajudam a garantir o básico, mas ofertam, essencialmente, carboidratos. “A capacidade de adaptação do nosso corpo é uma coisa fenomenal. Nosso corpo quer viver – bem ou mal, é outra questão. A primeira coisa que precisa é de energia, para bater coração, pulmão, e a energia é carboidrato. Então, essa pessoa vai ter o mínimo para sobreviver, mas não quer dizer que ela vai ter tudo para funcionar bem. Muitas vezes, se a comida é pouca, o carboidrato e a gordura provém essa necessidade básica”, explica Valéria.

Congelador vazio

Um item que sumiu das casas de famílias em situação de vulnerabilidade é a carne bovina. Cristiane Ribeiro de Godoi, 40, que vive com o filho de 12 anos no Vista Bela, mostra um vídeo de seu congelador vazio. Ela fez a gravação para enviar a uma amiga que iria almoçar em sua casa naquele dia. “Eu sou prova viva disso, eu passo isso”, diz ela, ao saber o tema da reportagem.

Embora trabalhe como modelo, Cristiane diz que ganha pouco e que conta com permutas para manter os cuidados com a aparência. Ela também toca o projeto social Formiguinhas, que atua em Londrina e região, e conta que a pandemia alterou tanto a realidade de quem recebe quanto a de quem ajuda.

“A gente já passava por lutas, a gente não tinha mistura todos os dias, mas sempre tinha algo pra comer, uma salsicha…final de semana um bife…Mas as coisas subiram absurdamente. Você vai no mercado e a carne mais barata tá R$ 30 o quilo. Tudo subiu e afetou. Às vezes meu filho fala ‘Queria ter um chocolatinho, um pãozinho de queijo, uma fruta’, e não tem. Eu digo ‘Filho, é a nossa realidade. A gente está vivendo isso daí’. E não sou só eu, todo mundo está passando por dificuldade”, constata.

Cristiane (à esq.) e Rita de Cássia em ação dos projetos Formiguinhas e Amvibe. Foto: Reprodução redes sociais

‘Pandemia escancarou isso’

Rita de Cássia Lemos é ativista do Coletivo Amigas do Vista Bela (Amvibe) e se apresenta como alguém que vive a insegurança alimentar na pele. Ela relembra dos momentos de fome vividos na infância e adolescência e acredita que a pandemia apenas jogou luz sobre o problema.

“Há 25 anos, quando eu tinha 13, 14 anos, assim como várias das pessoas que estão junto com a gente na caminhada passamos por necessidade, por fome, foi ‘assaltar’ a horta do vizinho pra se alimentar. Comeu fubá com repolho, ou comeu a sopa que pessoas que faziam trabalho social iam distribuir nos bairros. E aí você percebe que a pandemia só escancarou isso”, acredita.

Mãe de cinco filhos, Rita diz que “a história se repete” em grande parte das famílias periféricas, inclusive a dela. “Minha mãe não teve estudo, teve filho cedo; eu também tive filho cedo, então não concluí meu estudo. Meu pai era sapateiro, meu marido é pedreiro, fica tudo no ‘eiro’. Aí você percebe que isso não dá pra sustentar uma família. E normalmente família de periferia é no mínimo três filhos. E aí, como você faz? Vai passar dificuldade. Aí veio a pandemia e esfregou isso na cara do mundo”, afirma.

Rita perdeu o trabalho no início da pandemia e ainda não encontrou outra vaga. As contas, por outro lado, não param de chegar. “A frase mais dita pelos filhos é ‘Mãe, não tem nada de diferente pra comer?’ Aí você entende que essa questão da alimentação já é algo rotativo, de faltar mesmo. Por que os filhos do rico têm aquela pele rosada e o do pobre tem a canela cinza? Porque não tem o mesmo nutriente, não come a mesma coisa, não tem a mesma saúde, não tem a mesma vivência de ter o que precisa”, diz a ativista.

“Alimentação balanceada é para quem pode muito”

A nutricionista Valéria Mortara conta que o Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2013, é referência mundial em qualidade e classifica os alimentos entre não processados, minimamente processados, processados e ultra processados. Carne, frutas, verduras e ovo estão na primeira categoria. “E é isso que a população em insegurança alimentar não tem acesso”, destaca.

Alimentos menos processados são mais saudáveis. Em uma comparação básica, é melhor para a saúde comer só arroz e feijão que apenas macarrão instantâneo. “Arroz é minimamente processado, por exemplo. Ultra processado é quando os alimentos perdem as suas características. O que tem sido colocado, estudado, é que o consumo de ultraprocessados faz muito mal à saúde”, alerta.

Situações de insegurança alimentar graves comprometem o desenvolvimento pleno do ser humano. “O corpo quer viver, então ele vai fazer qualquer coisa para permanecer vivo. Tem que ter energia suficiente para pensar, aprender, para crescer. Então, inseguranças graves comprometem desde o crescimento físico até o desenvolvimento”.

Das famílias brasileiras pesquisadas em “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, citada no início da matéria, 15% encontram-se em nível grave de insegurança alimentar.

Escolas são essenciais na promoção da alimentação

As escolas são espaços importantíssimos de promoção da alimentação adequada. Valéria Mortara destaca o programa de merenda escolar em Londrina como de excelente qualidade. De acordo com a Equipe Técnica da Gerência de Alimentação Escolar, a elaboração do cardápio oferecido às crianças nas escolas municipais leva em conta os padrões de segurança alimentar e nutricional “para suprir a necessidade diária de nutrientes e a manutenção da saúde dos estudantes”.

“O número de refeições realizadas ao longo do dia constitui um importante indicador da alimentação escolar e do padrão nutricional do estudante. Todos estes aspectos são pensados quando se elabora um cardápio diversificado para a alimentação escolar durante a semana, o que garante os nutrientes (lipídios, carboidratos, proteínas, vitaminas e minerais) adequados ao crescimento e prevenção de carências nutricionais”.

Merenda em escola municipal de Londrina. Foto: Vivian Honorato

A equipe destaca que “uma alimentação equilibrada ao longo da vida é imprescindível, independentemente da idade”. As crianças, porém, estão em fase de crescimento, desenvolvimento e formação de seus hábitos alimentares, aumentando suas necessidades.

“Alimento e alimentação são mais do que o simples fornecimento de nutrientes para o crescimento e manutenção do corpo, pois é através dos hábitos alimentares saudáveis desde a infância que poderão ser evitados vários fatores que são preocupação nutricional como: sobrepeso/obesidade, baixo peso e dificuldade de desenvolvimento, deficiência de ferro, cáries dentárias, alergias, bem como prevenção de doenças crônicas”, pontua a equipe.

MST foca na soberania alimentar

O Movimento Rural dos Trabalhadores Sem Terra (MST) intensificou seu Plano de Solidariedade durante a pandemia com a distribuição de alimentos variados e marmitas em bairros mais pobres do Paraná. Em Londrina e região foram em torno de 30 ações com mais de 150 toneladas de alimentos entregues. Leite, pão, verduras e frutas da época compõem a doação.

“Para além da segurança, a gente olha o conceito da soberania alimentar. A gente só tem condição de distribuir alimentos hoje porque a gente tem a terra, fez a reforma agrária popular e isso nos permite definir, determinar o que a gente vai plantar – que é comida – e determinar o que a gente vai fazer com ela. Dentro dessa soberania, a gente propõe essa discussão para a sociedade. A gente não doa cesta básica, a gente doa alimento”, explica Ceres Hadich, da coordenação nacional do MST.

Com o passar das ações, ela diz ser possível notar o agravamento da insegurança alimentar das famílias e pessoas atendidas. “Cada ação que a gente fazia, voltando um mês, dois meses a gente percebia a pessoa se aproximando da gente cada vez com mais necessidade, demonstrando como a fome tem chegado não só nas grandes cidades, como no interior também”, lamenta.

As ações pontuais trabalham com o horizonte imediato de combater a fome hoje, mas o movimento, a médio e longo prazo, quer debater e reforçar a necessidade da reforma agrária. “A gente precisa construir esse poder popular para que a sociedade entenda a importância, mas ela precisa de uma política de estado. São ações que se complementam”, conclui Ceres.

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