Hospital do Câncer alerta sobre abandono de tratamentos na quarentena

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Pacientes oncológicos iniciam atendimentos cada vez mais tarde por medo da covid-19, comprometendo a possibilidade de cura

Mariana Guerin

Quando a pandemia deu seus primeiros sinais no País, em março de 2020, a diretoria do Hospital do Câncer de Londrina (HCL) acendeu uma luz vermelha quanto à continuidade dos tratamentos realizados na unidade, que é referência na região Norte do Estado, atendendo 166 municípios. “Começamos a fazer a triagem do lado de fora do prédio, onde montamos tendas para atender os pacientes”, lembra o administrador geral do HCL, Edmílson Garcia.

Segundo ele, o hospital ficou 90 dias sem registrar nenhum caso de covid-19 entre pacientes e colaboradores, mas a administração sabia que a contaminação aconteceria, então procurou se preparar, mesmo conhecendo pouco sobre a doença e os tratamentos no início da pandemia. “Não sabíamos como tratar pacientes oncológicos com covid e muitos pacientes ficaram com medo de vir ao hospital. Por isso, realizamos várias campanhas de conscientização, explicando porque as sessões de radioterapia e quimioterapia não poderiam parar.”

Foi trabalhoso manter o atendimento, especialmente pela falta de insumos na época. A demanda de cirurgias oncológicas começou a cair no HCL em abril de 2020, saindo de uma média de 700 procedimentos ao mês antes da pandemia para 350 ao mês atualmente.

“A criação de uma ala para covid dentro do hospital, o início da vacinação dos colaboradores e a importação de insumos permitiu a retomada dos atendimentos dentro da nova normalidade”, declara Edmílson, citando que, com a pandemia, os pacientes oncológicos têm chegado tarde ao hospital, dificultando os tratamentos ambulatoriais e cirúrgicos.

“O custo é maior e a chance de cura é menor, pois muitos pacientes chegam em estágio 4 da doença. No estágio 1, a chance de cura é maior e o custo é menor”, compara o administrador.

Hoje, o HCL registra redução nos tratamentos de radio e quimioterapia e 5% dos pacientes não passaram por cirurgias, que são a porta de entrada para o tratamento de câncer. “O atendimento na rede básica reflete diretamente no Hospital do Câncer e como as consultas nos postos de saúde ficaram comprometidas pela pandemia, o diagnóstico de câncer também ficou.”

Em alguns casos, o HCL entrou em contato com pacientes em tratamento para que retomassem as sessões de radio e quimio, apesar do medo da covid. “Foram criadas novas alas no hospital e 12 leitos foram isolados para atender pacientes oncológicos com covid, garantindo mais segurança para que não se interrompa o tratamento”, diz Edmílson.

Nestes 17 meses de pandemia em Londrina, mais de 140 pacientes oncológicos com covid foram atendidos pelo HCL. Antes da vacina, mais de 100 colaboradores foram afastados com a doença causada pelo novo coronavírus. “A média caiu de 70 infectados para 12 com o início da vacinação e tivemos apenas três casos de reinfecção de colaboradores vacinados”, informa o administrador, que sente a falta de profissionais e tem vagas abertas para técnicos de enfermagem.

“As equipes estão dobrando escala para dar conta da demanda. Foram mais de 100 contratados durante a pandemia e temos um total de 1076 colaboradores. O custo para importar insumos também é alto e gastamos um dinheiro que não tínhamos”, resume Edmílson, citando que o hospital investiu mais de R$ 1 milhão para importar três medicamentos específicos que não estavam disponíveis no Brasil para não adiar os procedimentos cirúrgicos.

“Estamos fazendo a nossa parte, nos esforçando para que aos pacientes cheguem mais cedo ao hospital para melhorar a probabilidade de cura. Com o avanço da tecnologia e novas drogas, as chances de cura do câncer aumentaram em 70%, mas o custo é caro. Se chegar mais cedo, a cirurgia ou só quimio podem curar”, avalia o administrador.

Medo e recuperação

O mecânico londrinense Cícero de Queiroz, 52 anos, descobriu um tumor no pulmão em plena pandemia, iniciou o tratamento e acabou se contaminando com o novo coronavírus no hospital. Foram dias de medo, mas hoje ele comemora um novo estágio da sua recuperação em casa, com a família.

“Há exatos 11 anos deixei de fumar, mas o cigarro deixou sequelas. No ano passado, quando fazia exames de rotina, descobri um tumor no pulmão esquerdo. Até então não tinha sintoma nenhum. Eu sou ativo, pratico esportes, gosto de jogar bola, andar de bicicleta. Fui diagnosticado e precisei tomar uma decisão sobre o tratamento. Optei pela cirurgia”, recorda Cícero.

O procedimento aconteceu no Hospital do Câncer em julho de 2020. “Os médicos não conseguiram tirar todo o tumor, e no final de setembro comecei um tratamento com quimioterapia. Foi complicado, não conseguia me alimentar, perdi peso, fiquei muito magro e debilitado, tive que usar sonda para me alimentar, mas superei.”

Em plena recuperação do tratamento oncológico, em abril de 2021 ele começou a sentir um cansaço estranho e a família decidiu buscar os médicos. Ao chegar no hospital, Cícero foi internado e intubado, por conta de uma pneumonia. “Fiquei muitos dias entre a vida e morte. Tinha febre e falta de ar, suspeitei que fosse covid, mas era pneumonia. Fiquei oito dias na UTI e não me lembro de nada, tive até pesadelos”, conta o mecânico.

Assim que deixou a UTI, ficou internado no HCL por cerca de 15 dias, apresentando melhoras diárias. “Um pouco antes da data em que receberia alta, eu vi que a turma do hospital começou a limpar o andar onde eu estava internado por conta de um caso de covid.  Eu já estava bem e pronto para voltar para casa, mas tive uma febre. Então, fiz uma tomografia e fui transferido para um quarto isolado. Fiz o teste de covid e deu positivo.”

Apesar do corpo cansado e do medo da morte, Cícero conseguiu finalizar sua recuperação em casa. “Depois de uns 34 dias no hospital não deu mais febre, minha respiração melhorou, mas com ajuda de oxigênio, e eu passei a fazer fisioterapia pulmonar. Então fui para casa, onde fiquei em isolamento até me curar completamente da covid”, relembra Cícero, que permanece em internação domiciliar.

“Eu tenho um banheiro no quarto, então fiquei em isolamento por uns 15 dias. Cheguei em casa mal podendo me levantar sozinho, tomando banho sentado, com a porta aberta para a minha esposa poder me ver caso eu precisasse de ajuda. Hoje, já consigo andar, tomar banho em pé, só que ainda uso oxigênio, porque fiquei com uma sequela no pulmão esquerdo. Mas já estou bem melhor, consigo caminhar, só esperando me livrar desse oxigênio”, desabafa.

Boom de pacientes

Para o administrador do Hospital do Câncer de Londrina, Edmílson Garcia, a situação do Sistema Único de Saúde (SUS) ainda vai demorar a normalizar. “Creio que teremos um boom de pacientes oncológicos quando a pandemia estiver controlada. O que já era preocupante antes da covid, se agravou. Com campanhas de conscientização, como mama e próstata, conseguimos aumentar para 55% a porcentagem de pacientes que chegam no hospital em estágios 1 e 2, mas 40% dos pacientes ainda chegam tarde, em estágios 3 e 4, e na pandemia isso se agravou.”

“Vai ter boom se não investir em prevenção e diagnóstico precoce e vai faltar recurso”, prevê Edmílson. Segundo ele, hoje, o HCL se mantém com repasses do SUS e de doações da comunidade. As despesas giram em torno de R$ 11 milhões, enquanto o faturamento é de R$ 7,5 milhões. “Temos um déficit de R$ 3,5 milhões, sendo que 94% de nossos atendimentos são SUS, que é responsável por 62% da receita. Estamos em nosso segundo empréstimo para não parar o atendimento.”

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