Polícia agride família; mulher acusa tortura

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Depois de ter a casa invadida pela PM em Cambé, auxiliar de serviços gerais diz ter apanhado até declarar que a Rotam é quem manda na rua

Nelson Bortolin

Cinco pessoas de uma mesma família, dois adultos e três adolescentes, foram agredidas por policiais militares da Rotam (Rondas Ostensivas Tático Móvel) dia 20 de julho, no Jardim Rivieira, em Cambé. O casal Sueli Batista da Silva, 42 anos, e Wander Almeida Toscari, 38 anos, foi algemado e levado para a sede da PM. A mulher diz ter apanhado até que cumpriu uma exigência feita pelos policiais: gritar que quem manda na rua dela é a Rotam.

O advogado da família, Paulo Carneiro, acompanhou Sueli e Wander à Polícia Civil onde foi registrado boletim de ocorrência. Também foi apresentada denúncia à Corregedoria da Polícia Militar.

O 5º Batalhão da PM diz que os policiais entraram na casa da família em busca de dois adolescentes que vendiam drogas na rua, onde há uma boca de fumo.

“Quando a polícia chegou, os adolescentes correram para dentro da residência do casal. E os policiais entraram atrás e agrediram todo mundo de forma generalizada (incluindo os três filhos adolescentes do casal, que nada têm a ver com o tráfico)”, relata o advogado. “Levaram para o Batalhão o pai e a mãe onde a agressão foi pior ainda. A mulher apanhou de três ou quatro policiais durante muito tempo”, complementa.

Sueli Silva é auxiliar de serviços gerais e atua com carteira assinada em um shopping da cidade. E também faz diárias e atividades relacionadas à coleta seletiva.

No dia seguinte às agressões, ela fez uma consulta médica e recebeu um atestado no qual consta: “Equimose em pálpebra inferior do olho direito (ver foto)”, “hematoma na região lateral esquerda próxima ao quadril” e “escoriações em punho esquerdo”. Ainda está escrito que a paciente teve descolamento de uma unha do pé.

O marido dela contou à Lume que um dos policiais da Rotam, ao entrar na casa, em vez de ir à procura dos supostos traficantes, foi direto até um dos filhos dele, de 13 anos. “Já soltou um murro na cara do meu filho.” O homem alega que não deu tempo nem de mostrar quem eram as pessoas que invadiram a casa. “Me deram um murro na testa e eu acabei caindo para trás e desmaiei.”

Sueli contou que, quando chegou algemada à sede da PM, foi puxada pelas pernas de dentro do camburão e arrastada no chão. “Levei uns 15 tapas na cara. Só pararam quando eu disse que quem manda na rua da minha casa é a Rotam. Era isso que eles queriam que eu dissesse para parar de me bater.”

A ação policial revoltou a vizinhança do casal. Uma mulher que preferiu não se identificar por medo da Rotam disse à reportagem que viu a Polícia disparar tiros (não sabe se de borracha) contra dois filhos de Sueli, que teriam saído de casa gritando que os pais estavam sendo presos. “Estavam atirando nos dois. Tinha umas quatro ou cinco viaturas. Eu fiquei com medo dos tiros e corri para dentro da minha casa.”

Ainda segundo essa vizinha, depois que a Polícia foi embora, ela viu o filho mais novo do casal mancando na rua e com um ferimento na boca. “Ele não aguentava falar. Até chamei o Samu, mas não vieram”, alega.

A moradora afirma que o pessoal do bairro está revoltado porque o casal é “trabalhador”, “são pessoas de bem”. “A Sueli a gente quase nem vê de tanto que ela trabalha”, declara.

As abordagens consideradas violentas ou intimidatórias seriam comuns no bairro. “Se eu estou à noite conversando com uma vizinha na rua, já chegam perguntando o que a gente está fazendo, se está vendendo drogas.”

A mulher ressalta que a PM precisa fazer o trabalho dela, mas não “ficar espancando pessoas de bem”. “Ultimamente, a gente está com mais medo da polícia que de bandido.”

A diretora da escola onde estudam os filhos do casal, que também prefere não se identificar, é outra pessoa revoltada com a ocorrência. “A Sueli é uma mulher muito batalhadora, que tem três empregos, e se mostra preocupada com a educação dos filhos”, afirma.

Para a diretora, o caso também revela discriminação pelo fato de Sueli ser mulher, negra e pobre. “Não podemos generalizar. Não podemos dizer que é um problema de toda a Polícia. Mas há sim um grupo de policiais que trata a comunidade de forma truculenta.”

PRECONCEITO

Fernando da Silva Werneck é pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular do Jardim Silvino, frequentada pelo casal. Para ele, o trabalho de combate ao tráfico de drogas não pode gerar “efeitos colaterais” como o ocorrido. “Com certeza houve um excesso, um abuso de autoridade”, afirma.

O pastor diz que a rua onde moram Sueli e Wander é conhecida como ponto de tráfico e, de forma preconceituosa, todos os moradores locais são vistos como se fossem criminosos. “Trata-se de um casal trabalhador que paga seus impostos e deve ser respeitado”, declara.

AFASTAMENTO

O advogado Paulo Carneiro, do Escritório Carneiro, Vicente & Colli Advocacia Humanista, espera que a Polícia Militar afaste os policiais envolvidos durante as investigações. “Ainda não nos responderam sobre isso. Também estamos estudando entrar com ação de danos morais contra o Estado em favor do casal.”

Ele critica a impunidade na corporação. “Nem sempre as investigações acabam por punir esses policiais que se sentem autorizados a praticar violência, principalmente com pessoas pobres, que muitas vezes não denunciam. Eles agridem na certeza de que essas pessoas não vão denunciar”, afirma.

A Rede Lume pediu uma entrevista sobre o caso à PM, mas ainda não teve retorno.

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