‘Preconceituosos e preconceituosas que lutem’, diz Juuara Barbosa

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Caloura em Relações Públicas na UEL, ela chega à segunda graduação vivendo de forma plena sua identidade preta e travesti

Cecília França

Durante a infância e a adolescência a escola foi um espaço contraditório para Juuara Barbosa. O bullying era recorrente, mas nos estudos ela se “escondia”, garantindo boas notas. O sonho de passar no vestibular, porém, parecia distante para esta mulher preta e travesti nascida na periferia da zona metropolitana de Campinas (SP).

“Meu ensino fundamental, em sua maioria, foi marcado pelo bullying, porque eu já era uma bicha extremamente afeminada. Então eram situações extremamente tensas. Para você ter uma ideia, eu chegava, ficava umas duas quadras da escola esperando bater os sinais, porque daí as pessoas iam começar a entrar, para daí eu ir para a escola”, conta ela à Lume.

No ensino médio, com a puberdade, ela começou a brigar mais por respeito, porém, ainda sofria bullying, tanto racial, quanto gordofóbico e lgbtfóbico. “Então tinha todos esses marcadores. A escola foi muto difícil, mas era o momento onde eu me escondia. Hoje, depois de adulta, eu entendo que era nada mais nada menos que eu tentando compensar essa situação, esse ‘me sentir menos’ por ser LGBT. Eu compensava na escola, então sempre tirei notão”, relembra.

Mesmo assim o sonho da faculdade parecia muito distante. “Era extremamente distante, muito, muito, muito. Lembro que até os professores do ensino médio desmotivavam a gente. Uma vez falei para um professor de geografia que eu gostaria de prestar Unicamp e a primeira coisa que ele me falou ‘Ah, mas você acha que tem condições de passar?’”.

Filha de família cristã neopentecostal, foi naquele espaço, igualmente contraditório, que ela acabou encontrando apoio para seu sonho. “Fui criada na Assembleia de Deus, era um reduto extremamente conservador, então eu já trazia comigo aquela culpa cristã de ser quem eu era. Porque quando pequena, as pessoas não são travestis, são bichas extremamente afeminadas. Acabou que na igreja, por mais que eu tenha vivido muitas e muitas violências, foi o local que eu fui acolhida nesse rolê de querer passar no vestibular, porque eles oravam e profetizavam que esses locais a gente tinha que ocupar, os crentes e os filhos dos crentes”, conta.

Juuara acabou sendo a primeira pessoa de sua família a entrar em um curso superior, após um cursinho popular. Foi em 2012, em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Daí veio a mudança de cidade e o empoderamento como mulher preta e travesti.

“No meu bairro a maioria era de pessoas pretas, então eu já me reconhecia como uma pessoa preta, mas vivia naquela cortina da democracia racial, de que éramos todos iguais, que eu tinha que me esforçar mais, e não sei o quê”, explica.

“Venho pra UEL, continuo fazendo terapia, mas aí vou tendo muitas outras descobertas. Descobrindo cada vez mais minha identidade racial – porque identidade a gente descobre a partir do outro – e só a partir do momento que eu passo na graduação que eu vou ter contato com muitas outras pessoas pretas minimamente engajadas com a pauta antirracista, então eu vou me forjando a partir desses conhecimentos, aprendendo muito, lendo muito”, detalha.

A participação no laboratório de estudos e cultura afro-brasileiros também contribuiu nesse processo de entendimento de que o racismo existe e a democracia racial não passa de um mito.

Travesti na universidade

Embora o espaço universitário não seja novo para Juuara, na primeira graduação ela não vivenciava por completo sua identidade travesti, o que torna esta segunda experiência mais desafiadora. “Quando eu fazia ciência sociais eu já era extremamente afeminada, já utilizava muitas roupas que são consideradas do universo feminino, mas eu tinha mais uma identidade de bicha travesti ao invés da própria travesti”, comenta, relembrando uma situação extrema de preconceito:

“Eu me lembro que tive um embate com a minha orientadora. Ela não conseguia entender a minha orientação, minha identidade de gênero, e ela fez a supervisora do projeto comprar roupas do universo masculino para eu usar. Quando a gente ia fazer alguma atividade na escola eu tinha que usar. Hoje eu jamais passaria por essa violência. Naquele momento, sem ter acesso às informações direito, com medo de perder a bolsa, com medo de virar contra a orientadora, eu cedi a essa violência. Hoje eu já tenho força e poder para não passar por isso”, garante.

A escolha do curso de relações públicas faz todo sentido diante da trajetória profissional de Juuara, que atua há anos como mestre de cerimônias, DJ, entre outras atividades do meio cultural. “RP já é um curso que eu queria lá atrás, desde a primeira vez que eu prestei vestibular, em 2008. Eu quis prestar agora porque já era algo que seria mais fácil fazer sendo quem eu sou, uma travesti, porque é produção de tecnologia, produção de conhecimento, gestão de crises, gestão de imagens, sendo mestre de cerimônias…já são funções que eu executo na cidade”.

Ela acredita que este mercado – a despeito da crise – esteja em expansão. “Com a quarentena eu percebo que o mercado de trabalho para os comunicólogos abriu mais oportunidades. Sendo uma profissional das relações públicas muitas outras portas se abrirão, no meio do mundo digital mesmo, até no trampo de mestre de cerimônias que eu já executo, mas agora titulada”, espera.

Juuara se diz “ansiosa, um pouco insegura, desesperada para saber e começar a fazer as aulas”, que iniciam hoje (02), de forma remota. “Ser uma mulher, ser uma mulher travesti, ser uma mulher travesti preta já traz consigo muitos marcadores, né. Estar ocupando uma vaga na UEL, que é uma das universidades mais bem avaliadas do Brasil, é um baita desafio. Eu me sinto forte por causa da ancestralidade, de todas as outras mulheres que vieram antes de mim, que me fortalecem, mas, ao mesmo tempo, sinto como se fosse muita responsabilidade, ainda mais para a gente que é militante, ativista pela consolidação dos nossos direitos civis”, avalia.

Ela lamenta que o acesso ao ensino superior ainda seja tão restrito para pessoas transexuais. “É um direito que todas as pessoas trans podem e devem acessar, só que a gente ainda está discutindo na UEL a reserva de vagas para as pessoas trans. Então é um misto de muitas sensações: coragem, ansiedade, um pouquinho de insegurança, muita, muita felicidade, que me transbordou, que me arrebatou, por ocupar esse espaço extremamente elitista, direcionado a essas ‘melhores pessoas’ que o crivo do vestibular permite estar ali dentro”.

Sobre a relação com colegas e professores, ela espera respeito, e está pronta para lutar por ele. “Acredito que meus colegas e minhas colegas, meus professores e professoras não tenham contato com travestis. Acho que vai ser tudo novo, diferente, tanto pra essas outras pessoas quanto pra mim, mas a gente vai estar ocupando os mesmos espaços e é respeito. Eu sei que é um lugar racista, elitista, excludente, mas eu não vou baixar a cabeça. Estarei lá ocupando a minha vaga, meu espaço, e a universidade que lute. Os preconceituosos e as preconceituosas que lutem. Eu não vou desistir de um sonho por causa do preconceito de ninguém”, finaliza.

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