Caso Matheus: Condenação traz alívio e recado contra a impunidade

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Família e ativistas celebram resultado do julgamento do ex-GM Fernando Neves como reforço para o ativismo

Cecília França

Foto em destaque: Vigília em frente ao fórum pediu por justiça. Fotos: Talyta Elen

A condenação do ex-Guarda Municipal Fernando Ferreira Neves a 18 anos de prisão pela morte de Matheus Evangelista, na noite de ontem (03), trouxe alívio à família, que esperava há mais de três anos por justiça. Matheus tinha 18 anos quando participava de uma festa na zona norte de Londrina e foi morto por um tiro durante abordagem da GM. “A gente ficou por um lado muito feliz, embora não vai trazer a vida dele de volta, mas ao menos a justiça veio”, diz Jennifer Evangelista, irmã do jovem.

Durante o julgamento, houve receio de que a condenação não viesse, ou a pena não fosse adequada. Uma vigília com a presença de familiares, amigos e ativistas permaneceu em frente ao Fórum durante todo o dia. “Para quem acompanhou foi de muita tensão, porque tanto o advogado de defesa quanto o de acusação trabalharam bastante em cima disso. Mas graças a Deus a gente obteve a resposta desejada”, celebra Jennifer.

Ela e o irmão tinham apenas um ano de diferença e eram bastante próximos. Para a técnica de enfermagem, a sentença também é um avanço no combate à violência policial. “Para que isso não venha se repertir. Eu costumo falar que aquele dia foi o meu irmão, outro dia pode ser um amigo, o filho de cada um do povo envolvido, então a gente pede para que isso não aconteça”.

O ativismo negro local também ganha força com o resultado do julgamento. Fiama Heloísa, presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (CMPIR), vê a sentença como um recado: “Não vai ter impunidade para quem comete esse tipo de crime, para quem barbariza com as pessoas pobres, pretas e periféricas”, afirma.

O resultado também reforça o pedido do movimento negro local, do País e do mundo “pelo direito do bem viver, pelo direito de ter uma vivência digna garantida e pelo direito de viver mesmo, de ter sonhos, e planos e poder concluí-los sem uma interrupção tão drástica, tão brutal, de uma força que, na verdade, era para nos proteger”, conclui Fiama.

Teresa Mendes, ativista e conselheira do CMPIR, acredita que a pressão social fez diferença na resposta dada pelo júri. “Sinto que nosso papel como mulher negra, nosso esforço, deu resultado. Nossa cobrança fez uma diferença nesse momento, porque normalmente nossas pressões caem por terra – veja o caso da Yá Mukumby, aquela tragédia há oito anos e que caiu no mesmo dia do julgamento do caso do Matheus”, relembra, referindo-se ao assassinato da mãe de santo Vilma Santos de Oliveira e de outras três pessoas em 3 de agosto de 2013.

Para Teresa o resultado é “um recado importantíssimo, tanto para a sociedade quanto para o Estado”. “O Estado não tem licença para matar. Por mais que o promotor durante o julgamento tenha dito que esse era um caso isolado, que não tinha nada a ver com a questão racial, o advogado (da família), dr. Mário Barbosa, diverge do MP porque tem sim um viés racial muito grande. É só ver as imagens da abordagem que aconteceu naquele momento. Seria impensável acontecer algo parecido numa Gleba Palhano, ou mesmo no Jardim Igapó”, compara.

Para a ativista, o corpo de jurados foi ponderado e feliz na decisão tomada, que pode abrir precendentes para que casos semelhantes não caiam no esquecimento. “É um resultado inédito, primeiro porque esses casos nunca chegam a júri. Esse julgamento põe novos parâmetros dentro da sociedade”, acredita.

Talyta Elen, do Levante Popular da Juventude – que apoiou a luta por justiça para Matheus com ações ao longo das últimas semanas – acredita que a condenação do autor do crime representa uma vitória na luta do povo contra o racismo estrutural.

“Ainda não é uma luta vencida, porque a gente sabe que diariamente jovens negros são mortos na mão da polícia. Então foi uma pequena batalha dentro de uma grande luta. E essa mudança precisa ser estrutural. Não adianta condenar uma pessoa sendo que toda a estrutura da polícia é formada e pensada já nesse intuito de encarcerar e matar pessoas negras e pobres”, comenta.

Ainda assim, a sentença dá força para seguir no ativismo. “A gente saiu feliz, animado para continuar essa luta, mas também compreendendo que essa é uma luta ainda mais profunda, que tem outras estruturas que precisam ser alteradas para que esse tipo de genocídio finalmente se finde”, avalia.

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